Joseph Bell e Sherlock Holmes: onde acaba o modelo

O que permitem estas fontes atribuir a Joseph Bell e o que pertence à transformação literária de Conan Doyle?

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Uma carta de Conan Doyle reconhece a dívida ao cirurgião de Edimburgo. O testemunho de Bell e os antecedentes literários do detetive ajudam a perceber o que mudou na passagem da consulta para a ficção.

A 4 de maio de 1892, Arthur Conan Doyle escreveu a Joseph Bell para lhe atribuir uma parte decisiva na criação de Sherlock Holmes. Agradecia uma carta do antigo professor e explicava que construíra a personagem à volta da observação, da inferência e da dedução que aprendera com ele. Acrescentava, porém, uma diferença: como escritor, podia colocar o detetive nas situações dramáticas que escolhesse. A relação entre Joseph Bell e Sherlock Holmes ficava documentada pelo próprio autor, juntamente com a liberdade que separava a personagem do seu modelo.

Poucas semanas depois, Bell apresentou uma versão mais contida. Numa carta dirigida ao jornalista Harry How, datada de 16 de junho e publicada em agosto na revista The Strand Magazine, explicou que Conan Doyle fizera muito a partir de uma base reduzida. A memória afetuosa do aluno, sugeria, tinha ampliado o retrato do professor. Bell reconhecia a ligação, mas atribuía ao talento imaginativo do escritor a novidade das histórias.

Doyle reconhecia no professor um modo de observar e explicar; Bell salientava o trabalho necessário para converter esse ensino numa personagem.

O que permitem estas fontes atribuir a Joseph Bell e o que pertence à transformação literária de Conan Doyle?

Joseph Bell e Sherlock Holmes: a prova das cartas

A carta de maio tem uma vantagem sobre muitas histórias repetidas acerca da origem do detetive. É uma comunicação de Doyle ao próprio Bell, escrita quando ambos podiam discutir a relação entre as aulas e os contos.

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O restante conteúdo torna-a particularmente útil. Doyle pede sugestões ligadas à identificação de profissões e comenta a possibilidade de uma história sobre um criminoso que recorresse à bacteriologia. Preocupa-se com a compreensão do leitor: uma ideia podia ser engenhosa e, ainda assim, falhar se exigisse conhecimentos que o público não possuía.

Bell precisava de reconhecer um caso e ensinar os alunos. Doyle precisava de escolher informação, distribuí-la pela narrativa e tornar uma explicação compreensível.

Retrato fotográfico de Arthur Conan Doyle realizado por Herbert Rose Barraud em 1893
Arthur Conan Doyle, em 1893, no ano seguinte às cartas analisadas no artigo. Crédito: Herbert Rose Barraud / Wikimedia Commons. Domínio público. Sem alterações de conteúdo; redimensionamento quando necessário.

A carta de Bell a How merece atenção semelhante. Publicada numa revista que divulgava as aventuras de Holmes, destinava-se a leitores interessados em conhecer a pessoa por detrás da personagem. A reserva do cirurgião não prova que a influência fosse pequena; mostra que ele próprio recusava apresentar a criação literária como simples reprodução das suas aulas.

O que se aprendia na consulta

Bell era cirurgião e professor em Edimburgo. O arquivo do Royal College of Surgeons of Edinburgh descreve uma carreira de ensino clínico, atividade hospitalar e responsabilidades na instituição, de que foi presidente entre 1887 e 1889.

Na carta publicada em 1892, explicou o objetivo das suas demonstrações. Os alunos tinham de aprender a reconhecer pequenas diferenças entre estados de saúde e de doença. Para despertar esse hábito, podia mostrar-lhes o que a observação permitia descobrir sobre a ocupação ou a proveniência de um doente.

Joseph Bell sentado, a ler documentos
Joseph Bell num retrato conservado pela Wellcome Collection. O registo associa a reprodução à homenagem biográfica publicada em 1914; Bell morreu em 1911. Fotógrafo não identificado. Crédito: Wellcome Collection / Wikimedia Commons. CC BY 4.0. Sem alterações de conteúdo; redimensionamento quando necessário.

Bell dava exemplos concretos: as marcas de diferentes trabalhos manuais nas mãos, os sotaques e certos hábitos corporais. A sua explicação assentava em relações entre um sinal observado e conhecimentos anteriormente adquiridos.

Uma marca só permite formular uma hipótese quando o observador conhece atividades capazes de a produzir. A rapidez da resposta pode esconder esse conhecimento de fundo. Aos olhos de quem assiste, o resultado parece surgir imediatamente; para quem explica, existe uma sequência de associações a reconstruir.

As memórias de Doyle ajudam a perceber o lugar do aluno. Em Memories and Adventures, publicado em 1924, contou que Bell o escolhera como assistente nas consultas externas. Organizava os doentes, tomava notas simples e encaminhava-os para a sala do professor.

Doyle recordava demonstrações impressionantes, mas reconhecia também que o médico por vezes se enganava.

O detetive também vinha dos livros

Ao recordar a conceção de Holmes, Doyle mencionou a admiração pelas intrigas de Émile Gaboriau e por Auguste Dupin, o investigador criado por Edgar Allan Poe. A pergunta que dizia ter colocado a si próprio era o que poderia acrescentar a essa tradição. Nesse ponto, lembrara-se de Bell.

O professor oferecia-lhe exemplos de uma inteligência que precisava de ser mostrada em funcionamento. A literatura policial fornecia-lhe antecedentes para organizar o mistério e a sua resolução.

Na leitura do investigador Andrew Glazzard, em The Case of Sherlock Holmes, a influência de Bell deve ser considerada juntamente com essa ascendência literária. O resumo académico do capítulo «The Fall of the House of Musgrave» destaca Dupin como modelo e chama a atenção para a forma como o primeiro romance de Holmes reconhece e disputa essa herança.

A história médica procura identificar o professor cuja prática impressionou Doyle. A história literária procura explicar como uma personagem funciona dentro de um género que já tinha autores, convenções e leitores. Ambas encontram apoio documental.

Em Um Estudo em Vermelho, a apresentação de Holmes ocorre num laboratório hospitalar. Aí demonstra um reagente para identificar sangue e surpreende Watson ao reconhecer que estivera no Afeganistão. A personagem reúne investigação material, observação e explicação numa sequência concebida para suscitar curiosidade.

Holmes e Watson numa ilustração de Sidney Paget para O Intérprete Grego
Holmes e Watson numa ilustração de Sidney Paget para «O Intérprete Grego», publicado na The Strand Magazine em setembro de 1893. Crédito: Sidney Paget / Wikimedia Commons. Domínio público. Sem alterações de conteúdo; redimensionamento quando necessário.

O laboratório aproxima o detetive da ciência médica. A presença de Watson dá ao leitor alguém que pergunta, se surpreende e procura compreender.

O que a associação deixa na sombra

Reduzir o cirurgião à condição de «verdadeiro Sherlock Holmes» também altera a leitura da sua vida. O arquivo do colégio de cirurgiões regista a ligação de Bell aos cuidados infantis, o interesse pela enfermagem, a participação na criação de um hospital para doentes considerados incuráveis e a direção do Edinburgh Medical Journal.

Fachada do Surgeons’ Hall, na Nicolson Street, em Edimburgo
Surgeons’ Hall, em Edimburgo, em maio de 2009. A documentação do colégio de cirurgiões permite acompanhar a carreira de Bell para além da sua associação a Holmes. Crédito: Kim Traynor / Wikimedia Commons. CC BY-SA 3.0. Sem alterações de conteúdo; redimensionamento quando necessário.

Há outra ausência no conjunto documental aqui considerado. As cartas e as memórias preservam sobretudo o olhar dos médicos e do escritor. Os doentes surgem como pessoas observadas, interrogadas e apresentadas aos alunos. Não dispomos, nestes documentos, dos seus relatos sobre essas consultas.

Bell forneceu um exemplo reconhecido de observação ensinada através de demonstrações. Doyle aproveitou-o numa criação que também devia muito às suas leituras e às exigências de contar uma história.

Na carta de maio, o escritor já distinguia esses contributos ao mencionar as situações dramáticas que podia escolher para Holmes. No mês seguinte, na carta a Harry How, Bell atribuía ao escritor o mérito da transformação.

Leitura relacionada: Daughters of the Sun and Moon, de Lisa See, sobre outra relação entre a documentação histórica e a construção de personagens.

Fontes consultadas

Imagem de capa: Sherlock Holmes num retrato de Sidney Paget, de 1904. A imagem pertence à representação artística da personagem, não a um retrato de Joseph Bell. Crédito: Sidney Paget / Wikimedia Commons. Domínio público. Sem alterações de conteúdo; redimensionamento quando necessário.

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