Uma carta de Conan Doyle reconhece a dívida ao cirurgião de Edimburgo. O testemunho de Bell e os antecedentes literários do detetive ajudam a perceber o que mudou na passagem da consulta para a ficção.
A 4 de maio de 1892, Arthur Conan Doyle escreveu a Joseph Bell para lhe atribuir uma parte decisiva na criação de Sherlock Holmes. Agradecia uma carta do antigo professor e explicava que construíra a personagem à volta da observação, da inferência e da dedução que aprendera com ele. Acrescentava, porém, uma diferença: como escritor, podia colocar o detetive nas situações dramáticas que escolhesse. A relação entre Joseph Bell e Sherlock Holmes ficava documentada pelo próprio autor, juntamente com a liberdade que separava a personagem do seu modelo.
Poucas semanas depois, Bell apresentou uma versão mais contida. Numa carta dirigida ao jornalista Harry How, datada de 16 de junho e publicada em agosto na revista The Strand Magazine, explicou que Conan Doyle fizera muito a partir de uma base reduzida. A memória afetuosa do aluno, sugeria, tinha ampliado o retrato do professor. Bell reconhecia a ligação, mas atribuía ao talento imaginativo do escritor a novidade das histórias.
Doyle reconhecia no professor um modo de observar e explicar; Bell salientava o trabalho necessário para converter esse ensino numa personagem.
O que permitem estas fontes atribuir a Joseph Bell e o que pertence à transformação literária de Conan Doyle?
Joseph Bell e Sherlock Holmes: a prova das cartas
A carta de maio tem uma vantagem sobre muitas histórias repetidas acerca da origem do detetive. É uma comunicação de Doyle ao próprio Bell, escrita quando ambos podiam discutir a relação entre as aulas e os contos.
O restante conteúdo torna-a particularmente útil. Doyle pede sugestões ligadas à identificação de profissões e comenta a possibilidade de uma história sobre um criminoso que recorresse à bacteriologia. Preocupa-se com a compreensão do leitor: uma ideia podia ser engenhosa e, ainda assim, falhar se exigisse conhecimentos que o público não possuía.
Bell precisava de reconhecer um caso e ensinar os alunos. Doyle precisava de escolher informação, distribuí-la pela narrativa e tornar uma explicação compreensível.

A carta de Bell a How merece atenção semelhante. Publicada numa revista que divulgava as aventuras de Holmes, destinava-se a leitores interessados em conhecer a pessoa por detrás da personagem. A reserva do cirurgião não prova que a influência fosse pequena; mostra que ele próprio recusava apresentar a criação literária como simples reprodução das suas aulas.
O que se aprendia na consulta
Bell era cirurgião e professor em Edimburgo. O arquivo do Royal College of Surgeons of Edinburgh descreve uma carreira de ensino clínico, atividade hospitalar e responsabilidades na instituição, de que foi presidente entre 1887 e 1889.
Na carta publicada em 1892, explicou o objetivo das suas demonstrações. Os alunos tinham de aprender a reconhecer pequenas diferenças entre estados de saúde e de doença. Para despertar esse hábito, podia mostrar-lhes o que a observação permitia descobrir sobre a ocupação ou a proveniência de um doente.

Bell dava exemplos concretos: as marcas de diferentes trabalhos manuais nas mãos, os sotaques e certos hábitos corporais. A sua explicação assentava em relações entre um sinal observado e conhecimentos anteriormente adquiridos.
Uma marca só permite formular uma hipótese quando o observador conhece atividades capazes de a produzir. A rapidez da resposta pode esconder esse conhecimento de fundo. Aos olhos de quem assiste, o resultado parece surgir imediatamente; para quem explica, existe uma sequência de associações a reconstruir.
As memórias de Doyle ajudam a perceber o lugar do aluno. Em Memories and Adventures, publicado em 1924, contou que Bell o escolhera como assistente nas consultas externas. Organizava os doentes, tomava notas simples e encaminhava-os para a sala do professor.
Doyle recordava demonstrações impressionantes, mas reconhecia também que o médico por vezes se enganava.
O detetive também vinha dos livros
Ao recordar a conceção de Holmes, Doyle mencionou a admiração pelas intrigas de Émile Gaboriau e por Auguste Dupin, o investigador criado por Edgar Allan Poe. A pergunta que dizia ter colocado a si próprio era o que poderia acrescentar a essa tradição. Nesse ponto, lembrara-se de Bell.
O professor oferecia-lhe exemplos de uma inteligência que precisava de ser mostrada em funcionamento. A literatura policial fornecia-lhe antecedentes para organizar o mistério e a sua resolução.
Na leitura do investigador Andrew Glazzard, em The Case of Sherlock Holmes, a influência de Bell deve ser considerada juntamente com essa ascendência literária. O resumo académico do capítulo «The Fall of the House of Musgrave» destaca Dupin como modelo e chama a atenção para a forma como o primeiro romance de Holmes reconhece e disputa essa herança.
A história médica procura identificar o professor cuja prática impressionou Doyle. A história literária procura explicar como uma personagem funciona dentro de um género que já tinha autores, convenções e leitores. Ambas encontram apoio documental.
Em Um Estudo em Vermelho, a apresentação de Holmes ocorre num laboratório hospitalar. Aí demonstra um reagente para identificar sangue e surpreende Watson ao reconhecer que estivera no Afeganistão. A personagem reúne investigação material, observação e explicação numa sequência concebida para suscitar curiosidade.

O laboratório aproxima o detetive da ciência médica. A presença de Watson dá ao leitor alguém que pergunta, se surpreende e procura compreender.
O que a associação deixa na sombra
Reduzir o cirurgião à condição de «verdadeiro Sherlock Holmes» também altera a leitura da sua vida. O arquivo do colégio de cirurgiões regista a ligação de Bell aos cuidados infantis, o interesse pela enfermagem, a participação na criação de um hospital para doentes considerados incuráveis e a direção do Edinburgh Medical Journal.

Há outra ausência no conjunto documental aqui considerado. As cartas e as memórias preservam sobretudo o olhar dos médicos e do escritor. Os doentes surgem como pessoas observadas, interrogadas e apresentadas aos alunos. Não dispomos, nestes documentos, dos seus relatos sobre essas consultas.
Bell forneceu um exemplo reconhecido de observação ensinada através de demonstrações. Doyle aproveitou-o numa criação que também devia muito às suas leituras e às exigências de contar uma história.
Na carta de maio, o escritor já distinguia esses contributos ao mencionar as situações dramáticas que podia escolher para Holmes. No mês seguinte, na carta a Harry How, Bell atribuía ao escritor o mérito da transformação.
Leitura relacionada: Daughters of the Sun and Moon, de Lisa See, sobre outra relação entre a documentação histórica e a construção de personagens.
Fontes consultadas
- Arthur Conan Doyle, carta a Joseph Bell, 4 de maio de 1892, em transcrição digital.
- Joseph Bell, carta a Harry How, 16 de junho de 1892, publicada em The Strand Magazine, em agosto de 1892.
- Royal College of Surgeons of Edinburgh, «Joseph Bell», registo biográfico e referência à correspondência conservada no arquivo.
- Arthur Conan Doyle, Memories and Adventures, 1924, capítulos III e VIII.
- Arthur Conan Doyle, A Study in Scarlet, 1887, primeira parte, capítulos I e II.
- Andrew Glazzard, «The Fall of the House of Musgrave», em The Case of Sherlock Holmes: Secrets and Lies in Conan Doyle’s Detective Fiction, Edinburgh University Press, 2018, capítulo 5, pp. 50–60. Consultado o resumo disponibilizado pela editora, não o capítulo integral.
Imagem de capa: Sherlock Holmes num retrato de Sidney Paget, de 1904. A imagem pertence à representação artística da personagem, não a um retrato de Joseph Bell. Crédito: Sidney Paget / Wikimedia Commons. Domínio público. Sem alterações de conteúdo; redimensionamento quando necessário.
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