Ativos russos: quem decide sobre o dinheiro congelado?

Se o capital for transferido, importa estabelecer quem o recebe e com que fundamento. Se for libertado, é necessário resolver o efeito sobre os rendimentos comprometidos.

Economia

Luís Avelar
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Luís Avelar é autor no Arcana News. A História e as dinâmicas do poder estão entre os seus principais interesses, a par das mudanças sociais e da política internacional. Escreve sobre os acontecimentos e as relações que ajudam a compreender como chegámos ao presente.
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A União Europeia já utiliza rendimentos associados às reservas russas para apoiar a Ucrânia. Transferir o capital ou devolvê-lo a Moscovo exige outras decisões, com consequências para os empréstimos e para as instituições que guardam os ativos.

Os ativos russos imobilizados na União Europeia incluem cerca de 210 mil milhões de euros em reservas do Banco Central da Rússia. O valor é suficientemente elevado para ocupar um lugar central na discussão sobre o financiamento da Ucrânia. Mas não corresponde a dinheiro disponível num orçamento europeu: está sujeito a restrições que impedem a sua movimentação e a mecanismos que já destinam parte dos rendimentos ao apoio a Kiev.

Manter os ativos imobilizados impede a Rússia de os utilizar. Aproveitar os rendimentos permite financiar apoio sem transferir o capital. Retirar esse capital ao seu titular para o entregar a outro beneficiário exige uma base jurídica própria.

A instituição financeira que guarda os ativos não pode executar uma transferência proibida apenas porque dois governos chegaram a um entendimento.

Quem pode autorizar a utilização do capital congelado e o que acontece aos empréstimos se os rendimentos que os sustentam deixarem de existir?

O dinheiro continua dentro do sistema financeiro

Depois da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a União Europeia proibiu transações relacionadas com a gestão das reservas e dos ativos do banco central russo. As instituições financeiras europeias ficaram impedidas de realizar essas operações.

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Os ativos permaneceram registados no sistema financeiro. Em fevereiro de 2024, o Conselho da União Europeia determinou que as centrais de depósito de títulos abrangidas pelas regras contabilizassem separadamente os saldos extraordinários de tesouraria acumulados em consequência das restrições e os respetivos rendimentos.

Edifício da sede da Euroclear em Bruxelas
Sede da Euroclear em Bruxelas, em abril de 2022. A instituição mantém ativos russos sujeitos a sanções no seu balanço. Fotografia de arquivo: Marek Śliwecki / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Fonte · Condições de utilização.

Uma dessas instituições é a Euroclear, sediada em Bruxelas. No final de junho de 2026, o seu balanço incluía 202 mil milhões de euros relacionados com ativos russos sujeitos a sanções. Esta categoria não corresponde automaticamente ao total das reservas imobilizadas em toda a União.

A Euroclear comunicou também que os rendimentos de juros associados aos ativos russos sancionados tinham atingido 2,3 mil milhões de euros no primeiro semestre de 2026, menos 13% do que no período homólogo. A descida refletiu taxas de juro inferiores.

Como os rendimentos se transformam em apoio

Em maio de 2024, a União Europeia aprovou a utilização dos lucros líquidos extraordinários obtidos pelas centrais de depósito em consequência da imobilização. O mecanismo criou uma contribuição financeira dessas instituições para apoiar a defesa e a reconstrução ucranianas.

A legislação previu também a possibilidade de reter provisoriamente uma parcela da contribuição para cumprir os requisitos de capital e de gestão de risco.

Moedas de euro, imagem ilustrativa do financiamento europeu
Moedas de euro, numa fotografia de arquivo de 2016. Imagem ilustrativa; não representa reservas russas nem uma transferência de fundos. Crédito: Pixabay / PICRYL; autor não identificado na ficha, CC0 1.0. Fonte · Condições de utilização.

Posteriormente, os rendimentos passaram a sustentar uma operação de crédito mais ampla. A iniciativa do G7 conhecida pela sigla ERA foi concebida para disponibilizar à Ucrânia cerca de 45 mil milhões de euros em empréstimos, cujo serviço e reembolso seriam apoiados pelos fluxos futuros de receitas extraordinárias.

A lógica financeira permite antecipar recursos: os credores entregam dinheiro à Ucrânia antes de todos esses rendimentos terem sido recebidos. O mecanismo europeu de cooperação para os empréstimos canaliza depois as receitas para ajudar Kiev a pagar a dívida. As regras estabeleceram que 95% das contribuições transferidas para a União fossem destinadas a esse mecanismo, ficando 5% para o Mecanismo Europeu de Apoio à Paz. Esta repartição começou a aplicar-se no segundo semestre de 2025.

Se uma alteração reduzir os rendimentos futuros utilizados no pagamento dos empréstimos, terá de se esclarecer como serão cumpridas as obrigações financeiras que dependem desses fluxos.

O empréstimo de 90 mil milhões tem outra estrutura

O apoio europeu à Ucrânia inclui ainda um empréstimo de 90 mil milhões de euros para 2026 e 2027, financiado através de dívida emitida pela União nos mercados de capitais e apoiado pelo orçamento europeu. O Conselho concluiu a aprovação do enquadramento legislativo em 23 de abril de 2026.

Militares americanos carregam munições num avião destinado à Ucrânia
Carregamento de munições para a Ucrânia na Base Aérea de Travis, Califórnia, em junho de 2024. Fotografia de arquivo que ilustra a assistência militar; não documenta uma operação financiada pelos ativos russos. Crédito: Robert Nichols / U.S. Air Force / DVIDS, domínio público. Fonte · Condições de utilização.

Segundo o Conselho, o financiamento destina-se às necessidades orçamentais e de defesa ucranianas. O reembolso deverá ser assegurado pelas reparações de guerra devidas pela Rússia. Esta estrutura distingue-se dos empréstimos do G7 apoiados pelos rendimentos extraordinários dos ativos imobilizados.

Nas conclusões de dezembro de 2025, os dirigentes europeus acordaram esse financiamento enquanto prosseguia o trabalho técnico e jurídico sobre um eventual empréstimo baseado nos saldos associados aos ativos russos. Declararam também que a União reservava o direito de recorrer aos ativos para reembolsar o empréstimo, em conformidade com o direito europeu e internacional.

A referência a esse direito não equivale a uma transferência já executada.

Quem pode autorizar uma transferência

Em dezembro de 2025, o Conselho aprovou uma proibição temporária de transferir, direta ou indiretamente, para a Rússia os ativos e as reservas do seu banco central imobilizados na União. A medida abrange também entidades que atuem em seu nome ou sob a sua direção.

O Conselho justificou-a com os riscos económicos para a União decorrentes da disponibilização de recursos que pudessem financiar a continuação da guerra. Estabeleceu condições para a manutenção da medida, relacionadas com a persistência desses riscos.

Edifício Berlaymont, sede da Comissão Europeia em Bruxelas
Edifício Berlaymont, sede da Comissão Europeia em Bruxelas, em maio de 2016. Fotografia de arquivo. As decisões de utilização dos ativos exigem o enquadramento europeu aplicável. Crédito: almathias / Wikimedia Commons, CC0 1.0. Fonte · Condições de utilização.

É neste quadro que uma negociação diplomática teria de produzir efeitos. Um entendimento com participação norte-americana pode propor um destino para os ativos. Para movimentar os que estão sujeitos às regras europeias, seria necessário assegurar a compatibilidade da operação com essas regras ou alterá-las através das instituições competentes.

A Euroclear enfrenta, entretanto, processos nos tribunais russos relacionados com a imobilização. A instituição contesta a jurisdição desses tribunais e as pretensões apresentadas contra si. A disputa já produz custos e litígios para quem executa as restrições.

Se o capital for transferido, importa estabelecer quem o recebe e com que fundamento. Se for libertado, é necessário resolver o efeito sobre os rendimentos comprometidos.

O valor congelado dá à Europa capacidade de pressão e uma fonte de financiamento. Para o transformar numa solução duradoura, será preciso definir quem pode autorizar cada utilização e quem responde pelas obrigações que ficam depois dela.

Para compreender o papel das instituições que guardam e movimentam títulos, leia Quem controla as infraestruturas financeiras da Europa?. Sobre o reforço do apoio material a Kiev, leia Sabotagens russas: comandante da NATO defende mais apoio à Ucrânia.

Imagem de capa: Banco Central da Rússia, na rua Neglinnaya, em Moscovo, em março de 2016. Fotografia de arquivo. Crédito: A.Savin, Wikipedia. Free Art License. Fonte · Condições de utilização.

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