Andy Burnham, o primeiro-ministro sem eleição

Da substituição de Starmer à recuperação nas sondagens, Burnham chega ao congresso trabalhista com o partido à frente, mas longe da maioria absoluta.

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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Andy Burnham tornou-se primeiro-ministro britânico a 20 de julho de 2026, sem eleições gerais, depois de uma crise interna que derrubou Keir Starmer. Antes do seu primeiro congresso trabalhista como líder, em Liverpool, uma sondagem devolveu ao partido uma vantagem que não tinha há um ano.

Como Andy Burnham se tornou o primeiro-ministro sem eleição

No Reino Unido, trocar de primeiro-ministro não exige eleições gerais quando quem sai e quem entra pertencem ao mesmo partido com maioria na Câmara dos Comuns. Foi o que aconteceu a 20 de julho de 2026. Keir Starmer viajou até ao Palácio de Buckingham para entregar a demissão ao rei Carlos III, e pouco depois o monarca encarregou Andy Burnham de formar governo. Burnham tinha sido eleito líder do Partido Trabalhista a 17 de julho. Tornou-se o sétimo primeiro-ministro britânico em dez anos.

Em maio, o Partido Trabalhista sofrera derrotas pesadas nas eleições autárquicas inglesas, nas eleições para o Parlamento escocês e para o Senedd galês. Havia também desconforto com a nomeação de Peter Mandelson, amigo próximo do falecido Jeffrey Epstein, como embaixador em Washington. Starmer demitiu-o antes de anunciar, a 22 de junho, a intenção de se demitir.

Um regresso ao Parlamento feito por medida

Para poder candidatar-se à liderança, Andy Burnham teve primeiro de voltar à Câmara dos Comuns. Estava afastado desde 2017, quando trocou o mandato de deputado por Leigh pela presidência da Câmara de Manchester. O deputado trabalhista de Makerfield, Josh Simons, demitiu-se do lugar para lhe abrir caminho, um gesto sem paralelo desde a eleição intercalar de Leyton, em 1965, também desenhada para dar assento parlamentar a um dirigente sem mandato. Andy Burnham venceu a 18 de junho com mais de nove mil votos de margem, superando as previsões das sondagens.

Interior da Câmara dos Comuns do Parlamento britânico, com os bancos verdes frente a frente.
Câmara dos Comuns, em Londres. Crédito: UK Parliament, CC BY 3.0; imagem revista por colaboradores da Wikimedia Commons. Ficha da imagem.

Reuniu depois o apoio de 379 dos então 403 deputados trabalhistas na Câmara dos Comuns. Foi o único candidato registado e acabou eleito líder sem votação, a 17 de julho.

Já tinha disputado a liderança do partido em 2010 e em 2015, sem sucesso. Presidiu à Câmara de Manchester entre 2017 e 2026 e devolveu a rede de autocarros da região ao controlo público. Foi também durante esses anos que ganhou a alcunha de «Rei do Norte». O programa económico de Burnham foi tratado anteriormente pelo Arcana News.

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No segundo dia como primeiro-ministro, anunciou o corte do IVA da eletricidade doméstica de 5% para 0% a partir de 1 de outubro. O governo estima que a medida reduza em 45 libras o limite anual de preços fixado pela Ofgem; o valor não é uma poupança garantida por agregado. Neste ano fiscal, o corte será financiado pelo cancelamento do programa de identificação digital lançado por Starmer, orçado em 1,8 mil milhões de libras ao longo de três anos.

Na Irlanda do Norte, as regras de IVA sobre bens, incluindo eletricidade, continuam alinhadas com as da União Europeia ao abrigo dos termos da saída britânica. Aplicar ali a redução exige acordo prévio de Bruxelas. Entretanto, o executivo norte-irlandês vai receber financiamento comparável para apoiar as famílias com o custo de vida.

Uma vantagem que não existia há um ano

A YouGov publicou a 24 de setembro um modelo MRP de Patrick English e Dylan Difford, baseado em 16 758 pessoas inquiridas entre 23 de agosto e 18 de setembro. A estimativa central dá ao Labour 241 lugares numa eleição geral realizada agora, contra 130 dos Conservadores e 123 do Reform UK de Nigel Farage. A transformação da direita britânica ajuda a situar a disputa entre estes dois partidos. Entre os restantes resultados apresentados estão 71 lugares para os liberais-democratas, 40 para o Partido Nacional Escocês, 15 para o Plaid Cymru galês e nove para os verdes.

O modelo cobre a Grã-Bretanha. A YouGov não calcula a distribuição partidária dos 18 lugares da Irlanda do Norte. Com 241 lugares na estimativa central, o Labour ficaria 85 aquém dos 326 necessários para uma maioria absoluta na Câmara dos Comuns.

Em 2024, o partido conquistou 411 lugares. A estimativa atual representa uma perda de 170 face a essa eleição. No modelo que a YouGov publicou a 26 de setembro de 2025, o Labour surgia com 144 lugares e o Reform UK com 311, a 15 de uma maioria absoluta. A estimativa para o partido de Farage é agora 188 lugares inferior à de há um ano.

O primeiro encontro com Trump

A 22 de setembro, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, Andy Burnham reuniu-se pela primeira vez presencialmente com Donald Trump. Segundo o comunicado oficial, falaram do comércio bilateral e da migração, da reabertura do Estreito de Ormuz e da exigência de que o Irão nunca tenha armas nucleares. Abordaram também uma via para uma paz duradoura na Ucrânia e a situação de Diego Garcia.

Andy Burnham e Donald Trump reunidos na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, em 22 de setembro de 2026.
Andy Burnham e Donald Trump na sede das Nações Unidas, 22 de setembro de 2026. Fotografia: Daniel Torok / Casa Branca, domínio público nos Estados Unidos. Ficha da imagem.

Burnham reafirmou a posição britânica sobre as Ilhas Falkland perante qualquer ameaça e voltou a exigir a libertação imediata de Jimmy Lai, cidadão britânico detido em Hong Kong.

O que vem a seguir

John Healey, o novo chanceler do Tesouro, marcou o primeiro orçamento do governo Andy Burnham para 28 de outubro. O orçamento anterior tinha sido apresentado em novembro de 2025. Andy Burnham defende mais descentralização para cidades e regiões, controlo público de serviços essenciais e reindustrialização, propostas que apresenta como alternativa a quatro décadas de política económica anterior.

Ao abrigo da Dissolution and Calling of Parliament Act 2022, que substituiu a antiga Fixed-term Parliaments Act, o Parlamento dissolve-se automaticamente cinco anos depois da sua primeira reunião, com eleições nos 25 dias úteis seguintes. A próxima eleição geral terá, por isso, de realizar-se até 15 de agosto de 2029, salvo dissolução antecipada. Circulam rumores de uma convocatória para o próximo ano.

 

 

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