Dívida francesa: juros a 10 anos já superam os de Itália

A França paga mais do que Itália e Grécia para se financiar a dez anos, enquanto a dívida cresce e o orçamento de 2027 se aproxima.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Os juros da dívida francesa a dez anos ultrapassaram os de Itália e da Grécia. A dívida cresce e o próximo orçamento terá de ser negociado antes das presidenciais.

Juros da dívida francesa: o prémio face à Alemanha

A 25 de setembro, os juros da dívida francesa a dez anos rondavam 4,73%. A Itália, cuja notação da dívida fora melhorada pela Moody’s em 2025, pagava cerca de 4,50% e a Grécia 4,42% pelo mesmo prazo. São taxas exigidas no mercado naquele momento, não o custo médio de toda a dívida que cada Estado tem por pagar.

Em 17 de agosto, a taxa francesa a dez anos já ultrapassava os 4%, o valor mais elevado desde 2009. A alemã também subia. Naquele dia, a diferença entre as duas era de cerca de 0,84 pontos percentuais. Em setembro, ultrapassou um ponto, antes de voltar a oscilar.

Sede do Banco Central Europeu em Frankfurt, cujas taxas influenciam os juros da dívida francesa e de outros países da zona euro.
Sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt, fotografada em 2019. Fotografia: acediscovery / Wikimedia Commons, CC BY 4.0. Sem alterações.

A dívida francesa e o orçamento de 2027

No fim do primeiro trimestre de 2026, a dívida francesa atingia 3.536,1 mil milhões de euros, segundo o INSEE. Representava 117,5% do produto interno bruto e tinha aumentado 75,6 mil milhões de euros em três meses. No fim de 2024, correspondia a 112,6% do PIB: quase cinco pontos percentuais menos, quinze meses antes.

Na previsão publicada na primavera, a Comissão Europeia apontava para uma dívida de 118,1% do PIB em 2026 e 120,2% em 2027. Em setembro, o Ministério das Finanças francês apresentou projeções mais altas: 119,3% e 121,7%.

A Fitch manteve a classificação da França em A+ no fim de agosto. Previu, contudo, que a dívida chegaria a 122,7% do PIB em 2028, mais 1,7 pontos percentuais do que calculara na avaliação anterior. A agência apontou os défices elevados, a subida da despesa com juros e a dificuldade de obter maiorias para reduzir o défice. A dimensão da economia francesa, o setor bancário e a base de investidores continuam a sustentar a classificação. À pressão dos juros junta-se a discussão europeia sobre a meta de 5% da NATO, com consequências para as escolhas orçamentais.

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O Governo estimava em julho que a despesa com juros chegaria a 64,8 mil milhões de euros em 2026 e a 74,2 mil milhões no ano seguinte. A Agência France Trésor apresentava 59,3 mil milhões para 2026, numa rubrica referente à dívida do Estado. O aumento das taxas de mercado não passa inteiro para essas contas de um dia para o outro: as obrigações já emitidas conservam as suas condições até ao vencimento.

François Bayrou perdeu o cargo de primeiro-ministro em 2025, depois de procurar apoio para um ajustamento de cerca de 44 mil milhões de euros. Sébastien Lecornu só conseguiu fazer passar o orçamento de 2026 em fevereiro, após a rejeição de duas moções de censura. Agora prepara o orçamento seguinte, antes das presidenciais da primavera de 2027.

Fachada do Palais Bourbon, sede da Assembleia Nacional francesa, onde são debatidos os orçamentos do Estado.
Palais Bourbon, sede da Assembleia Nacional francesa, fotografado em 2009. Fotografia: Ex13 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0. Sem alterações.

A Fitch prevê que a fragmentação parlamentar continue a dificultar a redução do défice mesmo depois das eleições. Entretanto, as obrigações de outros países europeus também encareceram, perante a inflação, os preços da energia e as expectativas sobre as taxas do Banco Central Europeu. Os juros da dívida francesa subiram nesse mercado; o diferencial face à Alemanha aumentou dentro dele.

Paris enfrenta, assim, a negociação de outro orçamento com uma dívida em crescimento e uma taxa de financiamento a dez anos superior às de Roma e Atenas. Quanto dessa taxa chegará à despesa anual com juros depende das obrigações que tiver de emitir para financiar o Estado e substituir as que vencem.

Imagem de capa: edifício Colbert do Ministério das Finanças francês, em Bercy (2012). Fotografia: Dinkum / Wikimedia Commons. Domínio público (CC0 1.0).

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