A estabilidade financeira não depende apenas da solidez dos bancos. Uma parte crescente do crédito, do financiamento empresarial e das operações nos mercados de capitais envolve fundos de investimento e outras instituições que não estão sujeitas às mesmas regras prudenciais da banca tradicional. Esta transformação criou novas fontes de financiamento, mas também tornou mais difícil identificar onde se acumulam os riscos. Estarem fora do setor bancário não significa, porém, que esses riscos estejam necessariamente fora dos balanços dos bancos.
Um banco pode apresentar indicadores de capital satisfatórios e, simultaneamente, manter exposições relevantes a fundos de investimento que dependem de financiamento de curto prazo ou de ativos difíceis de vender. Quando as instituições estão ligadas por empréstimos, garantias e investimentos cujo comportamento pode mudar rapidamente durante uma crise, não basta saber se os bancos resistiriam a uma nova crise. É preciso perceber se a informação sobre o conjunto das relações financeiras permite identificar antecipadamente dificuldades que podem transmitir-se de uma instituição para outra.
Durante décadas, os bancos ocuparam uma posição central no financiamento das empresas. Recebiam depósitos, concediam empréstimos e mantinham uma parte significativa dos riscos nos seus balanços. Este modelo continua a desempenhar uma função essencial, mas deixou de representar a totalidade do sistema de crédito. Fundos de dívida privada, sociedades de investimento, veículos de titularização e outras entidades passaram a participar diretamente no financiamento de empresas e na aquisição de ativos financeiros. Uma empresa que encontra dificuldades para obter crédito bancário pode recorrer a investidores especializados, enquanto os fundos de investimento oferecem aos participantes acesso a estratégias diferentes das tradicionais. Quando os bancos financiam fundos ou participam nas mesmas operações, os riscos podem permanecer ligados ao sistema bancário, embora distribuídos por diferentes entidades. Como se pode aumentar a dimensão de um investimento através da utilização de capital emprestado?
A alavancagem dos fundos de investimento
A alavancagem permite aumentar a dimensão de um investimento através da utilização de capital emprestado. Um fundo que disponha de recursos próprios pode contrair financiamento adicional para adquirir ativos. Se estes valorizarem, o rendimento sobre o capital inicialmente investido poderá aumentar. O mesmo mecanismo amplia as perdas quando os preços descem. Os empréstimos associados a garantias cujo valor varia com as condições de mercado tornam esta dificuldade particularmente importante. Uma descida dos preços pode levar os financiadores a exigir garantias adicionais. Se o fundo não dispuser de liquidez suficiente, poderá ser obrigado a vender ativos. Estas vendas podem contribuir para novas descidas dos preços, desencadeando exigências adicionais de garantias a outros participantes. A transmissão depende da dimensão das posições, da concentração dos financiadores e da capacidade dos participantes para obter liquidez sem provocar perturbações adicionais.

O que o relatório do FSB avalia
Num relatório divulgado em 9 de outubro de 2026, o Conselho de Estabilidade Financeira, organismo internacional que acompanha riscos para o sistema financeiro, examinou a aplicação das recomendações sobre mecanismos públicos de financiamento temporário, em último recurso, para bancos sistémicos em resolução. Das 19 jurisdições analisadas, apenas quatro foram classificadas como plenamente conformes: Estados Unidos, Reino Unido, Japão e Hong Kong. A avaliação incidiu num instrumento específico, não no conjunto da capacidade de resposta a crises nem no financiamento de emergência dos fundos. O relatório identificou lacunas na disponibilidade, na dimensão e na rapidez de mobilização dos recursos, recomendando que os mecanismos sejam preparados antes de uma crise. Estas conclusões não permitem afirmar que as restantes jurisdições sejam incapazes de responder a qualquer crise financeira.
Em 2023, o Credit Suisse enfrentou uma perda acelerada de confiança e uma retirada significativa de depósitos, acabando por ser adquirido pelo UBS numa operação de emergência. A FINMA aprovou a aquisição em 19 de março e assinalou o risco de o banco ficar sem liquidez, mesmo permanecendo solvente. O caso revelou que uma crise de liquidez pode desenvolver-se rapidamente, mesmo numa instituição sujeita a supervisão e com presença internacional.

Os bancos centrais podem disponibilizar liquidez extraordinária, nas condições previstas nos respetivos regimes, para evitar que dificuldades de financiamento provoquem a interrupção de atividades essenciais. Estes instrumentos não devem ser confundidos com soluções para problemas de insolvência. Uma instituição que possui ativos suficientes, mas não consegue convertê-los rapidamente em dinheiro, enfrenta uma situação diferente da de outra cujos ativos já não cobrem as responsabilidades. A concessão de liquidez pode ajudar no primeiro caso. No segundo, não substitui o reconhecimento das perdas e a reposição do capital. Um banco em resolução pode precisar de financiamento temporário depois da absorção de perdas e da recapitalização. Esta distinção exige informação fiável sobre a situação financeira das instituições e mecanismos de decisão capazes de funcionar sob pressão. Quando uma instituição desenvolve atividades em vários países, as autoridades nacionais podem ter competências diferentes, os ativos podem estar distribuídos por diversas jurisdições e as decisões tomadas num país podem afetar depositantes e investidores noutros mercados.
A expansão das instituições financeiras não bancárias coloca uma questão distinta, embora relacionada com a preparação para crises. Os fundos de investimento podem recorrer a bancos para obter financiamento, executar operações ou garantir posições nos mercados. Estas relações criam canais através dos quais uma dificuldade inicialmente localizada fora do setor bancário pode atingir instituições tradicionais. Um fundo obrigado a vender rapidamente ativos pode provocar perdas de mercado que afetem outros investidores. Se o mesmo fundo não conseguir cumprir as obrigações perante um banco, a instituição financiadora poderá enfrentar perdas de crédito. Quando vários participantes utilizam estratégias semelhantes, as dificuldades podem surgir simultaneamente. O risco não decorre necessariamente da existência dos fundos, mas da combinação entre alavancagem, concentração de posições e dependência de financiamento. Num relatório conjunto publicado em 12 de fevereiro de 2026, o BCE e o Comité Europeu do Risco Sistémico identificaram vulnerabilidades nestas ligações, embora não representassem riscos agudos para a estabilidade financeira à data da avaliação.

A informação que falta à supervisão
Os bancos estão sujeitos a exigências de capital, liquidez e divulgação de informação. O enquadramento aplicável aos fundos de investimento e a outras instituições financeiras não bancárias varia de acordo com a natureza das entidades e das atividades desenvolvidas. Isso não significa que estejam isentos de regulação ou supervisão. Esta diversidade dificulta a construção de uma visão completa do sistema. As autoridades podem conhecer a exposição de um banco a determinado fundo sem disporem de informação equivalente sobre todas as posições assumidas por esse fundo junto de outros financiadores. O problema agrava-se quando existem estruturas empresariais complexas ou operações distribuídas por diferentes jurisdições. A informação fragmentada pode levar a uma avaliação insuficiente dos riscos comuns. Durante os períodos de estabilidade, as relações financeiras parecem funcionar sem dificuldades. A liquidez disponível permite renovar empréstimos, manter posições e realizar transações. Quando as condições se deterioram, vários participantes podem procurar reduzir simultaneamente a exposição. A capacidade de vender ativos ou obter financiamento, considerada suficiente em circunstâncias normais, pode desaparecer precisamente quando se torna mais necessária.
A crise de 2008 revelou riscos associados ao financiamento imobiliário, à titularização de créditos e à interligação entre bancos e outros intermediários. Em março de 2020, o início da pandemia provocou perturbações significativas em vários mercados financeiros, exigindo intervenções extraordinárias dos bancos centrais. Estes episódios não permitem prever a origem de uma futura crise. Mostram que a estabilidade das instituições individuais não garante necessariamente a estabilidade do sistema. Uma perturbação pode começar em fundos de investimento, num mercado de dívida ou numa instituição especializada e atingir os bancos através das relações financeiras existentes.
A resposta europeia e os seus limites
A União Europeia dispõe de mecanismos de supervisão bancária e de resolução de instituições em dificuldades. O Mecanismo Único de Supervisão atribui ao Banco Central Europeu responsabilidades diretas sobre os bancos significativos dos países participantes. O Mecanismo Único de Resolução procura assegurar uma resposta coordenada quando determinadas instituições entram em situação de inviabilidade ou de risco de inviabilidade, desde que estejam preenchidas as condições legais para a resolução. Estas estruturas representam uma evolução importante relativamente à fragmentação institucional que existia antes da crise da dívida soberana. Persistem diferenças nacionais e limitações na integração financeira. A União Bancária continua incompleta, nomeadamente pela ausência de um sistema europeu comum de seguro de depósitos plenamente estabelecido. Além disso, a supervisão das instituições não bancárias envolve autoridades e regimes regulamentares diferentes. A existência de mecanismos europeus de resposta não elimina a necessidade de coordenação com as autoridades nacionais e internacionais. O desafio consiste em assegurar que as decisões possam ser tomadas com rapidez suficiente quando uma crise ultrapassa fronteiras ou envolve diferentes tipos de instituições.

A regulamentação financeira tende a evoluir depois de episódios que revelam fragilidades anteriormente subestimadas. A crise de 2008 conduziu ao reforço das exigências de capital e liquidez bancária. As dificuldades posteriores evidenciaram outros riscos, incluindo a velocidade das retiradas de depósitos e a exposição a alterações abruptas das condições de mercado. Os instrumentos concebidos para responder a crises conhecidas podem não abranger todas as vulnerabilidades futuras. A expansão do crédito privado, o crescimento das estratégias alavancadas e a utilização de estruturas financeiras complexas exigem acompanhamento permanente. Não basta determinar se os bancos dispõem de capital suficiente para absorver perdas previsíveis. É necessário avaliar a rapidez com que podem surgir necessidades de liquidez, a concentração das exposições e a capacidade das autoridades para intervir. A resistência de uma instituição depende também das condições em que operam os seus financiadores e parceiros, incluindo os fundos de investimento.
O crescimento dos fundos de investimento e de outras instituições financeiras não bancárias alterou a distribuição do financiamento e dos riscos na economia. Oferece vantagens, incluindo uma maior diversidade de investidores e fontes alternativas de crédito. Não significa que os riscos tenham desaparecido dos bancos. Uma parte pode regressar através de empréstimos, garantias e operações nos mercados financeiros. O alerta do Conselho de Estabilidade Financeira acrescenta outra preocupação: nem todas as jurisdições avaliadas dispõem de mecanismos públicos de financiamento em resolução plenamente alinhados com as recomendações examinadas. Um sistema financeiro pode apresentar instituições individualmente sólidas e continuar vulnerável a perturbações que se propagam através das suas interligações. A próxima crise não terá necessariamente origem num banco. Mas a capacidade de a conter continuará a depender, em grande medida, dos bancos centrais, das autoridades de supervisão e dos mecanismos de financiamento de emergência.
Imagem de capa: Frankfurt, na Alemanha. As ligações entre bancos e fundos de investimento podem transmitir riscos entre instituições e mercados. Fotografia de contexto. Fotografia: Hippopx. Domínio público. Fonte da imagem · Direitos de utilização.
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