Desvio da despesa pública: o que falta explicar em 2026

O desvio da despesa pública apontado por Centeno exige uma explicação por rubricas e uma comparação entre previsões construídas com o mesmo critério.

Economia

Luís Avelar
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Luís Avelar é autor no Arcana News. A História e as dinâmicas do poder estão entre os seus principais interesses, a par das mudanças sociais e da política internacional. Escreve sobre os acontecimentos e as relações que ajudam a compreender como chegámos ao presente.
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O desvio da despesa pública tornou-se o centro de uma disputa sobre a credibilidade do Orçamento do Estado para 2027. Mário Centeno aponta uma diferença de 6.228 milhões de euros entre a despesa inicialmente prevista para 2026 e a estimativa atualizada. O antigo ministro das Finanças apresenta esse valor como sinal de uma previsão insuficiente e contrapõe-lhe os desvios pequenos que associa à sua passagem pelo Governo.

Há uma questão legítima nessa crítica: quanto maior for a distância entre o orçamento apresentado e a despesa que se espera realizar, maior é a necessidade de explicar o que mudou. Mas o montante citado permanece uma afirmação que tem de ser reproduzida a partir dos mesmos quadros e critérios contabilísticos. Não constitui, por si só, uma demonstração de desperdício ou de incapacidade de gestão.

A primeira distinção é temporal. Em outubro de 2026, a despesa do ano ainda não está definitivamente apurada. A comparação é entre uma previsão inicial e uma estimativa posterior, elaborada com mais informação. A execução anual e o seu apuramento estatístico permitirão depois avaliar a dimensão efetiva da diferença.

Mário Centeno em Bruxelas em 2018, antigo ministro que questiona o desvio da despesa pública
Mário Centeno em Bruxelas, a 22 de janeiro de 2018, quando era ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo. Retrato de arquivo; a fotografia não corresponde às declarações de outubro de 2026. Crédito: Georges Schneider / photonews.at, divulgado pelo Ministério das Finanças austríaco. Fonte · CC BY 2.0. Recorte já existente no ficheiro de origem.

Em 2019, um desvio pequeno na despesa primária reuniu movimentos opostos nas suas componentes. O que fica escondido quando se compara apenas o total?

Desvio da despesa pública: identificar o que mudou

Uma revisão da despesa pode reunir causas diferentes. Uma obrigação que já existia, mas foi subestimada, coloca um problema de previsão. Uma medida aprovada depois do orçamento altera a política que estava prevista. Um acontecimento extraordinário pode exigir uma resposta que não fazia parte do cenário inicial. Uma alteração do tratamento contabilístico pode mudar o valor registado sem corresponder a uma nova decisão de gastar.

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Estas situações não têm a mesma responsabilidade política. Para as distinguir, é necessário identificar o valor inicial, a estimativa atualizada e as rubricas que explicam a passagem de um para o outro. Uma explicação geral sobre investimento ou intempéries não substitui essa reconciliação.

Edifício do Ministério das Finanças em Lisboa
Sede do Ministério das Finanças em Lisboa, fotografada em agosto de 2024. Imagem de arquivo para enquadrar a elaboração e a revisão das previsões da despesa. Crédito: Salwa Farwaneh / Wikimedia Commons. Fonte · CC0 1.0. Sem alterações editoriais.

Também importa saber que despesa está a ser comparada. A despesa total inclui juros. A despesa primária exclui-os. A despesa corrente primária deixa ainda de fora a despesa de capital. Valores retirados destes agregados respondem a perguntas diferentes e não podem ser tratados como equivalentes.

O que mostram as contas de 2019

O relatório do Conselho das Finanças Públicas sobre 2019 permite observar essa diferença. Na comparação que então publicou com o OE2019, a despesa total ficou 526 milhões de euros abaixo do previsto. Os juros explicaram 488 milhões dessa diferença. A despesa primária ficou 38 milhões abaixo da previsão.

Dentro da despesa primária, porém, os movimentos tiveram sentidos opostos: a despesa corrente primária superou a previsão em 180 milhões, enquanto a despesa de capital ficou 218 milhões abaixo. O resultado agregado próximo do orçamento coexistiu, portanto, com desvios nas suas componentes.

Ponte 25 de Abril sobre o Tejo, em Lisboa
A Ponte 25 de Abril, fotografada em março de 2017. Imagem de arquivo para contextualizar a distinção entre despesa corrente e investimento em infraestruturas; não identifica uma obra incluída no desvio de 2026. Crédito: Nsoqe / Wikimedia Commons. Fonte · CC BY-SA 4.0. Sem alterações editoriais.

Estes dados não permitem substituir automaticamente os números usados por Centeno. Permitem exigir que identifique o agregado, o documento de referência e a versão dos dados com que construiu a comparação.

A referência a diferenças cerca de 450 vezes menores precisa dessa identificação. Um múltiplo calculado sobre um desvio antigo muito próximo de zero pode ser elevado sem esclarecer, por si só, a dimensão do problema atual. Para avaliar o desvio da despesa pública, interessa também o seu peso no orçamento e a natureza das obrigações que o explicam.

A credibilidade do orçamento seguinte

A discussão sobre o desvio da despesa pública de 2026 interessa ao OE2027 porque as previsões do próximo ano partem da estimativa de execução deste. Se a revisão resultar de encargos permanentes, estes devem estar refletidos na base do novo orçamento. Se resultar de despesas temporárias, a sua redução deve ser identificável. O tratamento de cada parcela condiciona a leitura do crescimento previsto.

Há, além disso, um alerta independente. Em setembro, o CFP projetou um crescimento de 7,4% da despesa líquida em 2026, acima da trajetória acordada por Portugal. Assinalou que a revisão face a abril resultava sobretudo de medidas fiscais que reduzem a receita. Esse indicador não é o mesmo que o desvio de 6.228 milhões citado por Centeno.

Sede do Banco de Portugal em Lisboa
Sede do Banco de Portugal em Lisboa. Fotografia de arquivo para enquadrar a análise económica e financeira; os dados usados no artigo provêm das fontes indicadas no texto. Crédito: Jsobral / Wikimedia Commons. Fonte · CC BY-SA 3.0. Sem alterações editoriais.

A crítica obriga, assim, a duas demonstrações. Ao Governo cabe explicar as revisões das suas previsões. A Centeno cabe tornar reproduzível a comparação que apresenta. A credibilidade orçamental depende de conseguir seguir os números entre documentos, e não apenas da autoridade de quem os invoca.

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