Publicidade com IA: o aviso não prova a eficácia

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Identificar imagens artificiais informa sobre a produção do anúncio. As alegações de eficácia de um cosmético exigem elementos comprovativos próprios.

Economia

Luís Avelar
Luís Avelarhttps://www.arcananews.com/
Luís Avelar é autor no Arcana News. A História e as dinâmicas do poder estão entre os seus principais interesses, a par das mudanças sociais e da política internacional. Escreve sobre os acontecimentos e as relações que ajudam a compreender como chegámos ao presente.
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Uma pele gerada por computador pode perder todas as rugas sem que um cosmético tenha sido aplicado. Na publicidade com IA, a imagem mostra uma transformação, mas essa transformação pode ter ocorrido inteiramente na produção do anúncio. Para o comprador, a distinção é decisiva: o que vê no ecrã pode ilustrar uma promessa sem demonstrar que ela foi cumprida.

Um aviso sobre o uso de IA responde à origem das imagens. A questão sobre o produto exige informação de outra natureza. Na venda de cosméticos, esta diferença tem consequências concretas. Uma personagem fictícia pode contar uma história de recuperação da confiança. Mas, quando a história associa uma mudança visível na pele à utilização de uma máscara ou de um sérum, importa examinar também a mensagem sobre a eficácia.

O que demonstra um aviso de IA sobre o efeito do produto anunciado?

Publicidade com IA: uma transformação escolhida na produção

O problema torna-se mais claro com um exemplo hipotético. Um vídeo apresenta uma mulher antes e depois de usar determinado creme. O rosto, a iluminação e a passagem do tempo foram inteiramente gerados. Não houve uma utilizadora a acompanhar, uma aplicação a observar ou um resultado individual a registar. Houve uma decisão sobre a aparência que a personagem teria em cada momento. A prova, se existir, terá de ser procurada fora da transformação fabricada.

Também uma atriz pode representar uma utilizadora sem estar a dar um testemunho pessoal. A distinção relevante está entre dramatizar uma experiência e apresentar elementos que a confirmem. O uso de IA acrescenta possibilidades de produção, mas não elimina essa diferença.

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O risco de confusão surge quando a montagem aproxima as duas coisas. O espectador acompanha uma dificuldade, vê a aplicação do produto e assiste à melhoria. Essa ordem oferece uma explicação causal pronta a aceitar. Contudo, numa cena produzida artificialmente, a aparência final foi escolhida por quem fez o anúncio.

Publicidade com IA: sequência hipotética, sem resultado observado
No exemplo hipotético do texto, a transformação visual é escolhida na produção do vídeo. Não constitui um resultado observado numa utilizadora. Esquema Arcana News, CC0.

As imagens também podem comunicar uma alegação

Na União Europeia, as regras sobre alegações cosméticas abrangem mensagens explícitas e implícitas, incluindo fotografias e imagens. O Regulamento n.º 655/2013 exige elementos comprovativos adequados e verificáveis. Quando são usados estudos, estes devem ser relevantes para o produto e para o benefício anunciado, com metodologias válidas, fiáveis e reprodutíveis.

Uma imagem pode comunicar um efeito que a locução evita formular. O mesmo regulamento distingue, porém, as alegações que exigem sustentação dos exageros manifestos que o consumidor comum não toma à letra. Avaliar um caso concreto implica considerar a mensagem transmitida e o seu contexto.

A questão já existia antes dos anúncios gerados por IA. Em julho de 2025, o Infarmed voltou a recordar aos operadores os critérios aplicáveis às alegações cosméticas, incluindo veracidade, sustentação de prova e honestidade. A circular incidia sobre expressões usadas na rotulagem, não sobre personagens artificiais.

Transparência da IA e prova das alegações cosméticas
As regras de transparência da IA e as regras sobre alegações cosméticas têm objetos distintos. Esquema Arcana News, CC0.

O aviso pode alterar a confiança no anúncio

Identificar o uso de IA tem utilidade própria. Um estudo de B. Koning e H. A. M. Voorveld, publicado em 2025 no Journal of Interactive Advertising, comparou as respostas de 304 participantes a publicidade gerada por IA, apresentada com ou sem essa indicação.

Os resultados associaram a identificação a maior reconhecimento do uso de IA e da intenção persuasiva, com efeitos de redução da confiança no anúncio e na organização. Os investigadores encontraram também uma relação de sentido positivo entre uma das medidas de reconhecimento da persuasão e a confiança. O resultado aconselha prudência perante a ideia de que um aviso produz sempre uma reação simples e uniforme.

O estudo não demonstra que identificar conteúdo artificial impede uma compra, nem mede a eficácia de cosméticos. Ajuda a perceber como a informação sobre a produção pode interferir na avaliação da mensagem.

Estudo de confiança na publicidade com IA: 304 participantes
O estudo de Koning e Voorveld (2025), com 304 participantes, analisa confiança na publicidade e nas organizações. Não mede eficácia cosmética. Esquema Arcana News, CC0.

Transparência sobre a produção e prova do benefício

As regras europeias de transparência da IA tratam da identificação de determinadas utilizações e conteúdos. A Comissão Europeia distingue obrigações de marcação técnica dos fornecedores e deveres de informação de quem utiliza os sistemas, nomeadamente quanto a deepfakes. O alcance de cada obrigação depende do conteúdo e das condições previstas nas regras; a existência de uma personagem artificial não resolve, por si só, toda a classificação jurídica.

Um anúncio pode ser transparente sobre a sua produção e continuar a deixar por esclarecer a promessa comercial. Pode também usar uma personagem inventada para comunicar benefícios que tenham sustentação. A avaliação da eficácia precisa de examinar a prova do benefício anunciado, separadamente da informação sobre a origem das imagens.

Leia também: crianças e vídeos gerados por IA no YouTube e a confiança nas mensagens e nos meios de comunicação.

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