Corno de África: o mar, as fronteiras e a guerra

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No Corno de África, as disputas sobre a costa, a água e a soberania cruzam-se com guerras que exigem negociações distintas.

Economia

Aurelian Draven
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Aurelian Draven é correspondente e analista do Arcana News, onde escreve sobre conflito, segurança internacional e memória estratégica. É autor de mais de cem artigos de análise e inteligência, com atenção particular ao Médio Oriente, às zonas de tensão global e ao impacto de longo prazo das decisões de poder.
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No Corno de África, a procura etíope de uma saída para o mar através da Somalilândia abriu uma disputa com a Somália, que considera o território parte do país. O desacordo envolve acesso a uma costa, autoridade para negociar sobre ela e reconhecimento político. A Declaração de Ancara, de dezembro de 2024 estabeleceu posteriormente uma via de negociação entre a Etiópia e a Somália para um acesso comercial ao mar sob soberania somali.

A Etiópia perdeu o acesso ao mar quando a Eritreia se tornou independente, em 1993. A intenção de recuperar uma ligação marítima tornou-se um ponto de tensão com os vizinhos. Para Adis Abeba, está em causa obter uma saída para a costa. Para os governos que contestam essa política, está em causa preservar fronteiras e autoridade sobre os seus territórios.

Corno de África: bandeira da Etiópia em Adis Abeba
A bandeira etíope em Adis Abeba enquadra a discussão sobre o acesso marítimo no Corno de África. Imagem de contexto. Hippopx / domínio público.

Estas divergências enquadram a leitura do comunicado emitido após o encontro de 4 de outubro de 2026, em El Alamein, no Egito, entre os dirigentes egípcio, eritreu, sudanês e somali. O documento rejeitou o reconhecimento ou apoio à Somalilândia, reservou aos Estados ribeirinhos a governação do mar Vermelho e contestou medidas unilaterais no Nilo que prejudiquem os países a jusante. Não nomeou a Etiópia nem a sua barragem: a ligação a essas disputas constitui uma interpretação das posições expressas.

A reunião juntou numa posição comum problemas que envolvem os mesmos governos, mas tratam de matérias distintas. O acesso marítimo remete para a relação da Etiópia com os territórios costeiros do Corno de África. A barragem remete para a água do Nilo. A Somalilândia remete para a soberania e o reconhecimento.

Uma saída para o mar envolve mais do que uma costa

A Somalilândia é um território com governo próprio que se declarou independente, mas que a Somália e a maioria dos Estados continuam a considerar parte do território somali. Israel anunciou o reconhecimento da sua independência em dezembro de 2025, sem encerrar a controvérsia. A diferença entre ter um governo próprio e obter reconhecimento internacional amplo está no centro da disputa.

A aproximação etíope envolve dois interlocutores com posições incompatíveis sobre quem pode negociar. O governo da Somalilândia apresenta-se como responsável pelas suas relações externas. O governo somali contesta iniciativas que tratem o território como um Estado separado.

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Por isso, o que a Etiópia apresenta como resposta a uma necessidade de acesso ao mar, a Somália contesta como interferência num território sobre o qual mantém uma reivindicação de soberania. O comunicado conjunto emitido no Egito mostra que essa divergência ultrapassou a relação bilateral entre Adis Abeba e Mogadíscio. Outros governos associaram-se à rejeição do reconhecimento ou apoio à Somalilândia.

A inclusão da questão do Nilo no mesmo documento alarga essa coordenação em torno do Corno de África. Os governos aproximam posições sobre assuntos diferentes quando enfrentam divergências com o mesmo país.

Rio Nilo em Assuão, no Egito, no contexto das relações com o Corno de África
O Nilo em Assuão, no Egito: a água é uma das matérias que ligam as relações egípcias às disputas no Corno de África. Imagem de contexto. Hippopx / domínio público.

Os conflitos internos entram nas relações entre Estados

A guerra que começou no Tigray em 2020 opôs o governo central etíope a forças de uma região cujo principal movimento político tinha anteriormente dominado a política nacional. O acordo de paz alcançado em 2022 procurou pôr termo a esse conflito. O regresso dos combates, referido pelo secretário-geral da ONU em outubro de 2026, mostra que a assinatura não encerrou as disputas entre os intervenientes.

O conflito entre o governo central etíope e as forças regionais coexistiu com as divergências sobre o acesso ao mar, a barragem no Nilo e a Somalilândia. O acordo de 2022 incidia sobre a guerra no Tigray; essas disputas envolvem também outros governos do Corno de África e da sua vizinhança.

O Sudão acrescenta outra guerra a este quadro. As Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido disputam o controlo do país. A guerra sudanesa e as suas ligações externas fazem com que a região enfrente, em simultâneo, a negociação política para cessar os combates, a proteção de civis e a assistência humanitária.

Vários dos governos envolvidos nestas guerras participam também em iniciativas diplomáticas sobre países vizinhos. Um mesmo governo pode estar numa mesa a discutir o Sudão e noutra a contestar a Etiópia sobre o mar ou sobre o Nilo. As relações entre eles abrangem mais do que um assunto, e uma negociação ocorre num contexto marcado por outras divergências.

Corno de África: paisagem árida de Halli, na região etíope de Afar
Paisagem de Halli, em Afar, na Etiópia. A região integra o quadro territorial dos conflitos no Corno de África. Imagem de contexto, sem ligação a um episódio de combate. Hippopx / domínio público.

A presença de potências externas e os limites da mediação

Os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Qatar, a Turquia e o Egito têm interesses e presença numa área que liga o Corno de África ao mar Vermelho e ao Médio Oriente. As vias marítimas, os recursos e a influência política fazem parte dessa relação.

Essa presença não corresponde a uma política comum. Os países externos participam através de relações diferentes. A Turquia mantém cooperação militar e atividades de formação na Somália, o que a coloca numa relação direta com a segurança e com a autoridade do governo somali sobre o seu território. Outros participam em esforços diplomáticos sobre a guerra sudanesa, onde o interesse nas vias marítimas e na estabilidade regional se cruza com a disputa pelo controlo do país.

No Sudão, um grupo formado pelos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Egito e Arábia Saudita procura promover uma solução. Existe também uma iniciativa que reúne a União Africana, a IGAD, a Liga Árabe, a União Europeia e a ONU. A multiplicidade de participantes mostra a dimensão internacional da tentativa de mediação. Até agora, não produziu o fim da guerra.

Uma estrutura diplomática reúne interlocutores e permite apresentar propostas. A interrupção dos combates exige que as partes em guerra aceitem compromissos e os cumpram. Participar numa iniciativa de paz não significa que todas as divergências entre os seus membros tenham sido resolvidas.

Os efeitos sobre a população exigem respostas que não podem ficar dependentes do desfecho político. No Sudão, a FAO alertou para os riscos que a continuação dos combates e a insuficiência de financiamento representam para a produção agrícola. A capacidade de produzir alimentos condiciona a assistência às comunidades afetadas. Um processo de paz pode discutir a cessação das hostilidades e o futuro político. A resposta humanitária tem de lidar com necessidades que já existem.

Grande Mesquita de Cartum, no Sudão, país ligado às disputas do Corno de África
Grande Mesquita de Cartum, no Sudão, país envolvido nas relações diplomáticas com o Corno de África. Fotografia de arquivo; não documenta o estado atual do edifício. Hippopx / domínio público.

O alcance de cada acordo

A interligação regional ajuda a perceber por que razão uma iniciativa diplomática isolada tem limites. Um acordo sobre acesso marítimo não encerra a guerra no Tigray. Um entendimento sobre o Nilo não resolve o estatuto da Somalilândia. A mediação no Sudão não elimina as divergências entre a Etiópia e os seus vizinhos.

Ao mesmo tempo, estes processos não decorrem separados das relações entre os governos. Os participantes reencontram-se em diferentes negociações. O comunicado emitido no Egito tornou essa ligação explícita ao reunir, numa mesma tomada de posição, a costa, a água e a soberania territorial.

No Corno de África, a paz depende de vários entendimentos com objetos e participantes diferentes. O alcance de cada um mede-se pelo problema que consegue resolver e pelas condições que cria para os seguintes.

Imagem de capa: Corno de África: Raas Caseyr, na Somália, junto à ligação entre o golfo de Áden e o oceano Índico. Imagem de arquivo de 4 de junho de 2018. NASA / tripulação da Expedição 56. Fonte / condições de utilização.

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