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A rede Epstein: poder, impunidade e o que os ficheiros tornaram público
Jeffrey Epstein morreu a 10 de agosto de 2019 numa cela de segurança máxima em Manhattan, oficialmente por enforcamento. Tinha 66 anos, estava preso há pouco mais de um mês à espera de julgamento por tráfico sexual, e deixou para trás uma rede de contactos que incluía presidentes, príncipes, primeiros-ministros, financeiros, cientistas e celebridades em quatro continentes. A sua morte encerrou o processo criminal. Não encerrou mais nada.
Os documentos foram sendo libertados por ordem judicial, aos lotes, sob pressão do Congresso e de grupos de defesa das vítimas. O que revelaram não foi o perfil de um predador individual. Foi a anatomia de um sistema — de como o dinheiro, o acesso e a cumplicidade entre poderosos podem proteger durante décadas algo que, exposto à luz, é indefensável.
De onde veio e o que construiu
Epstein nasceu em 1953 no Brooklyn, filho de uma família da classe média. Não terminou o doutoramento na Universidade de Nova Iorque, mas conseguiu um posto de professor de matemática no Dalton School, uma das escolas privadas mais exclusivas de Manhattan. Foi ali que conheceu Alan Greenberg, executivo do Bear Stearns, que o contratou para o banco em 1976. Sem formação formal em finanças, subiu rapidamente. Em 1981 já tinha saído e fundado a sua própria firma, J. Epstein & Company, que afirmava gerir exclusivamente fortunas superiores a mil milhões de dólares.
A origem exata da sua riqueza nunca foi esclarecida. Epstein dizia gerir o dinheiro de um pequeno número de clientes ultra-ricos. O nome mais frequentemente citado foi o de Leslie Wexner, fundador da L Brands, empresa-mãe da Victoria’s Secret. Wexner deu-lhe poderes extraordinários — incluindo procuração geral sobre os seus ativos — e durante anos cedeu-lhe a sua mansão em Nova Iorque, uma das maiores residências privadas da cidade. Depois da prisão de Epstein, Wexner afirmaria ter sido enganado e manipulado. Os investigadores e os jornalistas nunca encontraram uma explicação satisfatória para a escala desse controlo.
A partir dos anos 90, mantinha uma mansão em Manhattan, uma propriedade em Palm Beach, uma ilha privada nas Ilhas Virgens Americanas — Little Saint James, que as vítimas passaram a chamar “Ilha Pedófila” — um rancho no Novo México e um apartamento em Paris. Tinha um Boeing 727 e uma lista de passageiros que se tornaria um dos documentos mais politicamente explosivos da história americana recente.
A rede e como funcionava
O mecanismo de recrutamento foi descrito em detalhe nos processos judiciais contra Ghislaine Maxwell, condenada em 2021 por tráfico sexual e outros crimes. Maxwell, filha do magnata da comunicação social Robert Maxwell, conheceu Epstein nos anos 90 e tornou-se a sua recrutadora principal e, segundo o Ministério Público americano, cúmplice direta nos abusos.
Epstein e Maxwell identificavam raparigas jovens — muitas vezes com problemas financeiros, em famílias desestruturadas, sem redes de apoio — e ofereciam dinheiro em troca de massagens. As massagens transformavam-se em abuso sexual. As vítimas eram depois incentivadas a recrutar outras, recebendo pagamento por cada novo nome. Epstein chamava a isto um “modelo de negócio”.
Virginia Giuffre foi recrutada aos 16 anos, numa loja onde trabalhava em Palm Beach. Maxwell aproximou-se dela. Dias depois, estava na mansão de Epstein. Ao longo dos anos seguintes, foi traficada para outros homens poderosos. Num dos processos judiciais, acusou o príncipe André do Reino Unido de relações sexuais com ela quando era menor. André sempre negou. Em 2022, chegou a acordo extrajudicial por valor não revelado, sem admissão de responsabilidade, e abdicou das suas funções públicas.
A primeira investigação e o acordo que escandalizou
Em 2005, a polícia de Palm Beach começou a investigar Epstein após a queixa de uma família. A investigação revelou dezenas de vítimas. O caso foi entregue ao FBI e ao Ministério Público federal. Em 2007, o procurador federal do sul da Florida — Alexander Acosta, que viria a ser secretário do Trabalho de Donald Trump — negociou com os advogados de Epstein um acordo que chocou investigadores e vítimas: Epstein declarou-se culpado de dois crimes estaduais menores, cumpriu 13 meses numa prisão do condado com autorização para sair seis dias por semana, e o Ministério Público federal arquivou o processo, imunizando Epstein e todos os seus “co-conspiradores” — sem os nomear e sem notificar as vítimas, como era legalmente obrigatório.
A jornalista Julie K. Brown, do Miami Herald, passou anos a investigar este acordo. A sua reportagem, publicada em 2018, foi o gatilho para a reabertura do caso. Brown entrevistou dezenas de vítimas que nunca tinham falado publicamente e documentou como o acordo tinha sido construído para proteger Epstein — e, potencialmente, outros. Um juiz federal considerou-o posteriormente ilegal, por violar os direitos das vítimas à notificação.
Em 2019, o Ministério Público federal de Nova Iorque indiciou Epstein por tráfico sexual de menores. Foi preso em julho. Em agosto, morreu. A câmara de vigilância da sua cela não estava a funcionar. Os guardas que deviam verificá-lo de hora a hora estavam a dormir. O médico legista de Nova Iorque concluiu pelo suicídio; um médico legista independente contratado pela família concluiu pelo homicídio.
Os ficheiros e o que revelaram
A partir de 2023, por ordem judicial, começaram a ser divulgados documentos selados do processo civil movido por Virginia Giuffre contra Maxwell — nomes, depoimentos, emails, registos de viagens.
O registo de passageiros dos voos de Epstein tornou-se o documento mais analisado. Entre os nomes constavam Bill Clinton (cuja equipa admitiu ter voado no avião pelo menos 26 vezes), o príncipe André, Alan Dershowitz — advogado de defesa de Epstein que chegou a acordo extrajudicial com Giuffre — e Kevin Spacey. Constar da lista não implica crime, mas a pressão reputacional propagou-se por vários países.
Nos Estados Unidos, a divulgação dos ficheiros pelo Departamento de Justiça no final de 2025 incluía alegações não verificadas envolvendo Donald Trump. A administração Trump, que controlava o próprio processo de divulgação, rejeitou as alegações. Pam Bondi, procuradora-geral, recusou pedir desculpa às vítimas numa audiência no Congresso, exigindo em vez disso desculpas ao presidente. O DOJ falhou o prazo legal. O Congresso ameaçou consequências que não chegaram.
Em França, Jack Lang abandonou a liderança do Instituto do Mundo Árabe após a abertura de um procedimento de averiguações. Na Noruega, a diplomata Mona Juul demitiu-se após a revelação de ligações financeiras ao círculo de Epstein. Na Eslováquia, o conselheiro Miroslav Lajčák demitiu-se após a divulgação de emails considerados incompatíveis com o cargo. No Reino Unido, a relação entre Peter Mandelson e Epstein alimentou o debate sobre nomeações no gabinete de Keir Starmer. Em Israel, Netanyahu usou documentos sobre o seu crítico Ehud Barak como munição política interna.
O que o caso revela sobre o poder
O valor de Epstein para outros homens ricos e influentes estava no acesso que proporcionava — a festas, a mulheres, a espaços onde as regras normais não se aplicavam — e na dependência mútua que esse acesso criava. A opacidade sobre a origem da sua riqueza alimentou a especulação de que a sua função real incluía a gestão de informação comprometedora sobre os seus contactos. O acordo de 2007 demonstrou que dinheiro suficiente e advogados suficientes podem dobrar uma investigação criminal em qualquer fase. O silêncio das vítimas foi mantido por uma combinação de ameaças legais, acordos de confidencialidade e o peso intimidatório dos nomes envolvidos.
As vítimas passaram a ter voz, os documentos passaram a ser públicos, e a questão de quem sabia, quem participou, quem facilitou e quem protegeu tornou-se, em vários países, uma questão política ativa. Sem que isso, até agora, tenha produzido responsabilização proporcional.
O que permanece por resolver
Quem eram os “co-conspiradores” imunizados e nunca nomeados? O que contêm os documentos que a administração americana continua a reter? Qual era a natureza real da relação entre Epstein e os serviços de informações — hipótese que circula há anos sem confirmação? E o que aconteceu, de facto, na noite de 9 para 10 de agosto de 2019 na Metropolitan Correctional Center?
A câmara não funcionava. Os guardas dormiam. O médico legista assinou o relatório. E o homem que sabia mais do que qualquer outro sobre o que se passava nas suas festas, nos seus aviões e na sua ilha nunca chegou a julgamento.
O essencial deste artigo
- Jeffrey Epstein construiu uma rede de acesso entre poderosos que funcionou durante décadas sem consequências.
- O acordo judicial de 2007 imunizou Epstein e os seus cúmplices sem os nomear — e foi posteriormente considerado ilegal.
- Os ficheiros divulgados desde 2023 expuseram nomes, viagens e ligações em vários países, sem produzir responsabilização proporcional.
Cronologia mínima
- 1976 — Epstein entra no Bear Stearns sem formação formal em finanças.
- 1981 — Funda a J. Epstein & Company.
- 2005 — Polícia de Palm Beach abre investigação após queixa de uma família.
- 2007 — Acordo com o procurador Acosta: dois crimes menores, 13 meses de prisão, imunidade federal para cúmplices.
- 2018 — Reportagem de Julie K. Brown no Miami Herald reabre o caso.
- 2019 — Epstein indiciado em Nova Iorque. Preso em julho. Morto em agosto.
- 2021 — Ghislaine Maxwell condenada por tráfico sexual e outros crimes.
- 2023 — Início da divulgação dos documentos selados do processo Giuffre vs. Maxwell.
- 2025 — DOJ divulga novos ficheiros; efeitos políticos em vários países.
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