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Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
A Arte de Telefonar
O Paquistão tem o FMI à porta, um exército que governa por baixo do governo e uma fronteira de novecentos quilómetros com o Irão. Em março de 2025, era também o país que Washington e Teerão usavam como câmara de compensação. Não apesar da fragilidade — por causa dela. Os melhores mediadores são os que têm mais a perder se a crise escalar.
O Lápis Azul
Entre a redação e a impressão havia um passo que não era segredo: o censor riscava a lápis azul. Os leitores sabiam. Liam na mesma. Este é o mecanismo mais difícil de nomear — um conhecimento que existe na consciência mas não atravessa para o lado onde o comportamento seria alterado. O Estado Novo tinha o seu lápis azul. Berlim também. A questão não é porque aconteceu. É porque continua a ser possível.
Christian Petzold e a arte de sobreviver
Christian Petzold divide os seus filmes em duas categorias: os que são uma casa e os que são um barco. Uma casa é o que se constrói para durar. Um barco é o que se constrói para atravessar. A distinção parece técnica — é uma questão filosófica. A mesma que atravessa toda a sua obra: o que se constrói quando o que havia já não está? E como se distingue reparar de substituir, quando o luto confunde os dois gestos?
A água e a noite
Na noite antes da Páscoa, em igrejas por toda a América, adultos que nunca foram baptizados vão dobrar os joelhos sobre pedra fria e receber água sobre a cabeça. Receberão depois uma vela acesa. A cerimónia é a mesma há dezasseis séculos. Este ano, o número de pessoas que a pede é o mais alto em décadas. A Igreja não sabe bem explicar porquê. A resposta está provavelmente fora da Igreja.
Sarah Mullally e a Igreja sem centro
A entronização de Sarah Mullally como arcebispo de Cantuária não é apenas um marco histórico. É também o retrato de uma Igreja fragilizada, dividida entre o declínio em Inglaterra e uma Comunhão Anglicana global que já não reconhece facilmente a autoridade do seu antigo centro.
O satélite como instrumento de Estado
A Planet Labs não fez apenas uma escolha operacional: consolidou um precedente. Ao atrasar o acesso público a imagens do Médio Oriente, mostrou como empresas privadas de observação terrestre podem regular, em alinhamento prático com Estados, o arquivo visual da guerra. O problema não é só a segurança operacional. É a possibilidade de o registo verificável dos conflitos passar a depender de atores privados sem supervisão pública proporcional ao poder que exercem.
O HOMEM QUE REVIU O DIAGNÓSTICO – Marquês de Lafayette
Em agosto de 1792, Lafayette atravessou a fronteira austríaca à espera de asilo. Os austríacos prenderam-no. Ficou cinco anos em Magdeburgo. A questão não é que tipo de homem resiste a isso — é o que ele viu, naquele momento específico, que os outros não viram. E por que razão conseguiu vê-lo.
A Guerra da Ucrânia — Estrutura do Conflito, Incentivos Sistémicos e Posições Possíveis da China
No quinto ano de guerra, o conflito ucraniano é sustentado por um conjunto de incentivos estruturais que tornam a resolução improvável no curto prazo. A China ocupa neste sistema uma posição analiticamente ambígua: o seu comportamento observável é consistente tanto com uma estratégia deliberada de neutralidade instrumental como com gestão prudente de risco ou adaptação incremental. A evidência disponível não permite discriminar com segurança entre estas hipóteses.
A Guarda que é o regime: por que bombardear o Irão não muda o Irão
A IRGC controla mísseis, programa nuclear, milícias regionais e até metade da economia iraniana. Washington aposta que a pressão militar quebrará a Guarda ou a virará contra o regime. A história da organização — fundada para sobreviver exatamente a este tipo de pressão — sugere o contrário.
Quando Hollywood Perdeu o Controlo
Um filme recusado pelos distribuidores chegou a quatro mil salas porque uma comunidade online decidiu mobilizar-se. O caso Iron Lung revela como a autoridade cultural da indústria cinematográfica começa a deslocar-se para fora de Hollywood.


