A crise de 2020 entre a China e a Índia expôs os limites de uma relação em que o comércio e a participação em instituições comuns avançavam enquanto persistiam divergências sobre o território.
China e Índia
Em 2020, a China e a Índia podiam negociar, receber investimento e participar nas mesmas organizações sem chegarem a acordo sobre a fronteira. Cada uma dessas relações tinha o seu âmbito. Uma transação comercial não definia onde terminava o território de um país; uma reunião diplomática não estabelecia, por si só, onde os militares de cada lado podiam patrulhar.
A aproximação entre Pequim e Nova Deli era real, mas deixava por resolver um problema com consequências militares: os dois Estados não reconheciam da mesma forma todos os limites entre os territórios que reclamavam.
Em junho de 2020, o confronto no vale de Galwan matou 20 militares indianos. As mortes mostraram que os mecanismos usados para conter os incidentes na fronteira não tinham impedido uma escalada letal.
Por que não bastaram o comércio e a cooperação diplomática para evitar a violência na fronteira, e que apoio podia a Índia procurar nos seus outros parceiros?
China e Índia: Uma disputa que chegava às patrulhas
A China e a Índia tinham travado uma guerra em 1962. Nas décadas seguintes, a questão fronteiriça continuou a provocar atritos, apesar dos esforços para gerir a convivência entre os dois países, como descreve o relatório do Congressional Research Service de junho de 2020.

Se ambos os lados reclamavam uma área, podiam interpretar de forma diferente a presença de uma patrulha, a instalação de tropas ou a construção de uma posição.
Em 2020, Nova Deli acusou Pequim de avançar em zonas disputadas ou de impedir o acesso de patrulhas indianas. As autoridades chinesas atribuíram à Índia a responsabilidade pelo confronto. Estas posições incompatíveis dificultavam a definição de um ponto de partida comum para reduzir a tensão.
Era possível negociar a separação de forças sem resolver a questão mais ampla da soberania. Um entendimento operacional podia diminuir o risco imediato e deixar intactas as reclamações territoriais.
Infraestruturas e acesso ao terreno
Na década anterior à crise, a Índia tinha reforçado as suas infraestruturas na região, procurando acompanhar os investimentos chineses.
A capacidade de chegar a uma área é relevante para a presença militar que nela se consegue manter. As infraestruturas eram parte das condições materiais em que os dois países exerciam as suas posições.

A crise de 2020 também se distinguia dos episódios anteriores pela sua dispersão. Tinham ocorrido confrontações em Depsang, em 2013, em Chumar, em 2014, e em Doklam, em 2017. Nesta última, numa área disputada pela China e pelo Butão, a intervenção indiana levou a um impasse militar de 73 dias entre a China e a Índia.
Em 2020, as tensões surgiram em vários pontos do Ladakh e também em Sikkim.
Conter os incidentes não era resolver a disputa
Os acordos e os procedimentos fronteiriços tinham uma função imediata: permitir a gestão das tensões entre forças que operavam numa região contestada.
Galwan revelou uma falha nessa contenção. As mortes foram as primeiras registadas na fronteira sino-indiana desde 1975.
Depois das mortes, os responsáveis militares e diplomáticos mantiveram contactos para reduzir a tensão. Negociar um afastamento das forças e reconstruir a confiança eram tarefas diferentes.
As perdas humanas acrescentavam uma dificuldade política às negociações. Na Índia, a indignação pública aumentava a pressão sobre o Governo de Narendra Modi.
O alcance da relação económica
Enquanto a fronteira continuava por resolver, a relação entre os dois países tinha-se alargado a outros domínios. A China era um dos principais parceiros comerciais da Índia. Existia investimento chinês, incluindo no setor tecnológico, e tinham aumentado os contactos ligados ao estudo e ao turismo.
Os dois países participavam também nos BRICS e no Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas.

A existência de interesses económicos não impediu a violência na fronteira. Depois do confronto, surgiram na Índia apelos ao boicote de produtos chineses.
A relação bilateral tinha ainda outros pontos de tensão, entre eles a presença do Dalai Lama e de refugiados tibetanos na Índia, as preocupações indianas com as águas do Brahmaputra e as divergências sobre o equilíbrio das relações económicas.
No quadro de 2020, reduzir a tensão exigia um entendimento concreto sobre a presença das forças no terreno. Resolver a disputa territorial exigia aproximar posições sobre os limites que os dois países reconheciam. O comércio e os encontros diplomáticos podiam sustentar o contacto entre Pequim e Nova Deli, mas não substituíam nenhuma dessas tarefas.
A Índia entre Washington, Moscovo e Pequim
Em 2020, a procura de apoio perante a China colocava Nova Deli perante parceiros com utilidades diferentes e relações que não eram facilmente substituíveis.
Os Estados Unidos e a Rússia ocupavam lugares distintos nas opções externas da Índia em 2020. Washington era um parceiro de crescente aproximação perante as preocupações com a China. Moscovo continuava a ser um fornecedor importante de equipamento militar e um interlocutor com relações com Pequim.
O confronto fronteiriço de junho de 2020 tornou essas escolhas mais urgentes. Não criou, contudo, as relações que Nova Deli precisava de gerir.

As funções diferentes dos parceiros
As preocupações com o comportamento chinês contribuíam para aproximar a Índia e os Estados Unidos.
Essa aproximação tinha limites. Entre as preocupações indianas estavam a fiabilidade dos compromissos americanos e a continuidade da política dos Estados Unidos em relação a Pequim.
A Rússia colocava um problema diferente. A sua importância como fornecedora de equipamento militar dava à relação uma dimensão material que não podia ser substituída apenas por afinidade diplomática com outro país. Ao mesmo tempo, os vínculos russos à China faziam de Moscovo um possível interlocutor junto de Pequim.
Uma aproximação aos Estados Unidos tinha de ser ponderada também pelos seus efeitos sobre Moscovo.
Uma rivalidade com dimensão regional
As preocupações indianas não terminavam na fronteira dos Himalaias. Pequim tinha reforçado as suas relações com o Paquistão, rival de longa data da Índia, e ampliado a sua presença em países como o Bangladesh, o Nepal e o Sri Lanka, além do espaço mais vasto do oceano Índico.
A Índia também tinha aprofundado as relações com a Austrália, o Japão e países do Sudeste Asiático.
Pequim acompanhava com preocupação a aproximação indiana a Washington e a outras potências asiáticas.
Cooperar e disputar nas mesmas instituições
A Índia e a China mantinham espaços de participação comum, incluindo os BRICS e o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas. A pertença às mesmas instituições não pressupunha um acordo sobre a distribuição de influência internacional.
Nova Deli considerava que Pequim dificultava algumas das suas ambições, nomeadamente a entrada no Grupo de Fornecedores Nucleares e a obtenção de um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Participar em conjunto podia permitir negociações sobre determinadas matérias e, ao mesmo tempo, expor desacordos noutras.
O que o apoio externo podia oferecer
A crise de 2020 colocou a Índia perante decisões que envolviam recursos militares, infraestruturas fronteiriças e relações diplomáticas.
Nenhuma dessas decisões dispensava a negociação direta com a China sobre a fronteira. Uma relação mais estreita com Washington não estabelecia as posições a ocupar pelas tropas. A manutenção dos vínculos com Moscovo também não assegurava, por si só, um entendimento com Pequim.
Sobre a dimensão económica posterior da relação, leia Comércio Índia-China: porque persiste o desequilíbrio?. Para outro exemplo das escolhas de parceiros e fornecedores de Nova Deli, leia Índia e Japão disputam o futuro do comboio de alta velocidade.
Imagem de capa: Narendra Modi e Xi Jinping em Tashkent, no Uzbequistão, a 23 de junho de 2016. Fotografia anterior à crise de Galwan. Crédito: Prime Minister’s Office, Government of India / Flickr / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0, conforme revisão da licença da publicação no Flickr. Fonte · Condições de utilização.
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