Pedro Sánchez anunciou a 5 de outubro eleições em Espanha para 29 de novembro de 2026, três dias depois de o Congresso dos Deputados rejeitar medidas de emergência destinadas a proteger os inquilinos. O primeiro-ministro procura uma maioria parlamentar mais ampla para um Governo que depende de acordos com outras forças para aprovar legislação.
A decisão leva às urnas uma disputa que o Executivo não conseguiu resolver no Parlamento. A habitação, que mobilizou protestos nas últimas semanas, passa a ocupar um lugar central no confronto entre o Governo de esquerda e uma oposição liderada pelo Partido Popular, com vantagem nas sondagens.
A votação que deixou o Governo sem apoio
Os dois decretos rejeitados na sexta-feira, 2 de outubro, procuravam facilitar a renovação dos contratos de arrendamento e prolongar a proteção contra despejos de inquilinos vulneráveis. O Governo tinha apresentado as medidas na semana anterior.
O Partido Popular, o Vox e o partido independentista catalão Junts votaram contra. A oposição do Junts foi decisiva: embora tenha contribuído para a investidura de Sánchez em 2023, o seu apoio não está garantido em cada votação.
Sánchez governa desde 2018 e lidera, desde 2023, uma coligação minoritária de esquerda. No anúncio das eleições, reconheceu erros e objetivos por cumprir, sobretudo no acesso à habitação, nos serviços públicos e na redução da desigualdade. Apresentou o reforço do apoio parlamentar como condição para executar as reformas pendentes.

O despejo que ampliou os protestos
A indignação com o custo da habitação ganhou nova força em setembro, quando foi televisionado o despejo de Maricarmen Abascal, uma mulher de 87 anos que vivia havia décadas num apartamento em Madrid. O caso foi seguido por semanas de manifestações.
A mulher tinha herdado dos pais um arrendamento com renda controlada, estabelecido durante o franquismo. Depois da compra do edifício por uma empresa de investimento, os aumentos da renda tornaram-se incomportáveis. O despejo deu visibilidade a um problema que já mobilizava inquilinos e organizações pelo direito à habitação.
Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística espanhol apontam para uma subida anual de 12,2% nos preços de compra das casas no segundo trimestre de 2026. No primeiro trimestre, o aumento tinha sido de 12,9%. O índice mede preços de venda de habitação nova e usada, não a evolução das rendas.
O Banco de Espanha calculou um défice acumulado de cerca de 750 mil habitações entre 2021 e 2025. A estimativa corresponde à diferença entre a criação de novos agregados familiares e as casas concluídas nesse período. As dificuldades de acesso concentram-se particularmente nas grandes áreas urbanas.
Eleições em Espanha com o PP à frente nas sondagens
Na declaração institucional de 5 de outubro, Sánchez apresentou a votação como uma escolha entre alargar a maioria progressista e entregar o poder a uma coligação de direita com a extrema-direita. Associou a sua candidatura à abertura do país, à justiça social e à responsabilidade ambiental. São os termos políticos em que o primeiro-ministro pretende disputar as eleições.

O PP obteve o maior número de lugares nas eleições de 2023, mas não reuniu apoio suficiente para formar Governo. As sondagens recentes voltam a colocá-lo à frente dos socialistas e apontam para um cenário em que precisaria do Vox para alcançar uma maioria parlamentar. Essa possibilidade depende dos resultados de novembro e das negociações posteriores.
O líder popular, Alberto Núñez Feijóo, acolheu o anúncio afirmando na rede social X que os espanhóis teriam finalmente oportunidade de decidir. O PP defende o aumento da construção como resposta à crise da habitação e contesta a intervenção no arrendamento proposta pelo Governo.
A campanha começa também sob o efeito de outras disputas. Durante o verão, milhares de migrantes chegaram a Ceuta a partir de Marrocos, e Sánchez foi criticado pela resposta do Executivo. A convocação antecipada coloca agora à prova tanto a sua capacidade de recuperar apoio como a possibilidade de PP e Vox reunirem os lugares necessários para governar.
Para outras leituras sobre respostas públicas à habitação, veja no Arcana News as medidas portuguesas sobre renda moderada e construção e os limites do poder das cidades.
Fotografia de capa: Bloco residencial La Herradura, em Moratalaz, Madrid, em 29 de março de 2018. Fotografia de contexto; não retrata o edifício do despejo referido na notícia. Fotografia: Zarateman / Wikimedia Commons. Domínio público, CC0. Fonte · Direitos de utilização.
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