Que resultados sustentam a minha confiança numa vitória de Lula, apesar da vantagem numérica do adversário na última sondagem?
Deixo a Lula os meus parabéns antecipados. Pela vitória que espero ver confirmada nas urnas e pelo que ela poderá significar: a continuidade de uma orientação política que considera a vida dos mais pobres uma responsabilidade do país.
Sei que uma eleição não se ganha por merecimento atribuído por quem escreve. Ganha-se com votos. E sei que o Brasil chega a esta segunda volta dividido, com razões de descontentamento que nenhum editorial honesto deve apagar. Acredito que o balanço social deste mandato pode dar a Lula a força necessária para vencer uma disputa apertada.
Os resultados sociais que sustentam a minha preferência
O IBGE estimou que 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024. A proporção da população abaixo da linha de pobreza utilizada nesse estudo recuou de 27,3% para 23,1%. São dados relativos a esse período, não uma contagem da situação de outubro de 2026.
Para mim, esse resultado tem um peso político maior do que muitas demonstrações de força numa campanha. Um presidente não produz sozinho um resultado económico. Intervêm o trabalho das pessoas, as empresas, os governos estaduais e municipais, as condições externas e as políticas públicas. Mas a orientação do Governo federal faz parte dessa realidade. E uma orientação que procura aumentar os rendimentos mais baixos tem de ser avaliada também pelos resultados que alcança.
Em 2025, a taxa média anual de desemprego foi de 5,6%, o valor mais baixo da série do IBGE iniciada em 2012. O rendimento real habitual do trabalho aumentou 5,7% face a 2024. A informalidade continuava elevada, atingindo 38,1% da população ocupada.
Há progresso e há insuficiência nestes dados. Ambos pertencem ao mesmo país. O emprego pode melhorar a autonomia de uma família. O rendimento pode aumentar e continuar a ser curto. Ter trabalho não garante proteção adequada, e a informalidade mostra quanto falta fazer. A diferença entre obter rendimento e ter segurança no trabalho continua a merecer atenção.
Apoiar Lula exige levar essa insuficiência a sério, porque quem o eleger terá o direito de esperar mais do que a celebração do que já foi conseguido. Também considero decisivo o reconhecimento, em 2025, da saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO. O resultado baseou-se na média de 2022 a 2024, abaixo do limiar técnico de 2,5% de prevalência de subalimentação. Não significa que a fome tenha desaparecido. Significa que houve uma melhoria reconhecida por um organismo internacional especializado.

A vitória de Lula é uma expectativa, não um resultado
Não escondo o dado eleitoral que contraria uma leitura confortável. Na última sondagem Datafolha, divulgada em 24 de outubro, Flávio Bolsonaro surgia com 51% dos votos válidos e Lula com 49%, com margem de erro de dois pontos percentuais. A vantagem numérica era do adversário. Esse resultado não permite apresentar Lula como favorito seguro. Permite reconhecer uma disputa ainda competitiva.
A primeira volta também mostrou a dimensão do apoio de ambos: segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos e Lula 45,16%. A diferença teria de ser ultrapassada através das escolhas dos restantes eleitores e da participação na segunda volta das eleições no Brasil.
Acredito que a experiência de melhoria social, a presença política de Lula e a capacidade de mobilização da sua candidatura podem produzir os votos necessários para inverter a vantagem do adversário.

A confiança também exige mais de quem governa
Os meus parabéns antecipados não oferecem a Lula um mandato sem condições. Se vencer, espero que trate os resultados sociais como um ponto de partida. A pobreza que permanece, o trabalho desprotegido, a desigualdade e as dificuldades dos serviços públicos continuarão a exigir decisões. A confiança de quem apoia deve traduzir-se em exigência sobre o que vier a ser feito.
Espero também que uma eventual vitória seja exercida como responsabilidade perante todo o Brasil. Os eleitores de Flávio Bolsonaro não desaparecerão com a contagem dos votos. Terão os mesmos direitos e a mesma legitimidade para fiscalizar o poder.
Escrevo de Portugal, com respeito por uma decisão que pertence aos brasileiros. A minha preferência é clara. Quero ver confirmado um caminho em que o desenvolvimento do Brasil seja medido também pela vida de quem tem menos.
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