Notícias e análises sobre Portugal, com foco em política, economia, justiça, sociedade e decisões que moldam o país no contexto europeu e internacional.
Em 2025, Portugal arquivou 61% dos inquéritos por violência doméstica. Os homicídios subiram para 27 vítimas. O RASI e o relatório do GREVIO foram publicados no mesmo mês — e não dialogam. Lidos em conjunto, mostram um sistema que funciona dentro das suas próprias regras. A pergunta sobre o que isso produz é política, e é a única que nenhum dos dois documentos responde.
Em 2025, o Estado português processou 29.644 participações por violência doméstica. Arquivou 61% dos inquéritos. Os homicídios em contexto de violência doméstica subiram para 27 vítimas. A "ligeira diminuição" que o relatório assinala e o que essa diminuição efetivamente mede são duas coisas distintas.
Em Portugal, 94% dos médicos reconhecem ter responsabilidade de detectar maus-tratos a pessoas idosas. Dois terços não suspeitaram de nenhum caso no ano anterior ao estudo. Apenas 36,5% sabiam como reportar uma suspeita. O estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto não encontrou negligência. Encontrou um sistema que não preparou os seus profissionais para ler violência quando ela não tem nome clínico.
A diplomacia vaticana assenta numa premissa raramente enunciada: o Papa não tem pátria. Robert Prevost desfez essa premissa de forma estruturalmente nova. O Arcana News analisa o que muda — e o que está verdadeiramente em jogo — quando o chefe da Igreja partilha o passaporte do país que conduz operações militares em três continentes.
O bar não tinha nome visível na fachada. Quem sabia, sabia. Era essa invisibilidade — não intencional, apenas económica — que tornava o lugar possível. Já não existe. No seu lugar há uma cervejaria com cocktails que citam bairros de Lisboa como se fossem sabores.
A credibilidade mediática não se conquista — transfere-se por diferença. Cada vaga de novos meios define a sua autenticidade em oposição àquilo em que o público já não confia. Quanto mais essa vaga tem sucesso, menos alternativa se torna — e portanto menos autêntica parece. O sucesso é o mecanismo da própria erosão. Portugal, com três ruturas mediáticas em cinquenta anos, é o laboratório onde este ciclo se vê com precisão invulgar. E o próximo contrato já está a ser escrito.
No nordeste do Qatar, a maior planta de gás natural liquefeito do mundo está parada. Não é uma metáfora — é maquinaria fria, navios sem carga, terminais à espera. Quatro semanas depois de Washington e Israel lançarem ataques sobre o Irão, o que o conflito está a revelar não é uma crise energética. É a descoberta de que a arquitectura da globalização foi construída sobre uma premissa que nunca foi escrita em nenhum tratado: que certos chokepoints nunca seriam testados.
Entre a redação e a impressão havia um passo que não era segredo: o censor riscava a lápis azul. Os leitores sabiam. Liam na mesma. Este é o mecanismo mais difícil de nomear — um conhecimento que existe na consciência mas não atravessa para o lado onde o comportamento seria alterado. O Estado Novo tinha o seu lápis azul. Berlim também. A questão não é porque aconteceu. É porque continua a ser possível.
Na noite antes da Páscoa, em igrejas por toda a América, adultos que nunca foram baptizados vão dobrar os joelhos sobre pedra fria e receber água sobre a cabeça. Receberão depois uma vela acesa. A cerimónia é a mesma há dezasseis séculos. Este ano, o número de pessoas que a pede é o mais alto em décadas. A Igreja não sabe bem explicar porquê. A resposta está provavelmente fora da Igreja.
No Palácio Nacional de Mafra, o maior conjunto sineiro do mundo ficou em silêncio quase vinte anos. O restauro chegou em 2020 e ficou pela metade — a torre norte ainda não toca. Uma análise sobre a relação portuguesa com a manutenção, os ofícios que desaparecem e o bronze que espera.