Vídeo no Parlamento: Fabian Figueiredo pede inquérito

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A divulgação de imagens captadas em São Bento levou Fabian Figueiredo a pedir esclarecimentos sobre a origem da gravação e as regras de segurança parlamentar.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Fabian Figueiredo pediu à presidência da Assembleia da República o apuramento das circunstâncias de uma gravação realizada nos corredores de São Bento, segundo a exposição descrita na informação disponível. A existência de irregularidades não está demonstrada.

Os corredores da Assembleia da República são espaços de circulação de deputados, funcionários, assessores, jornalistas e visitantes autorizados. Não são locais de acesso inteiramente livre, mas também não estão sujeitos às mesmas condições de publicidade das sessões parlamentares. A utilização de imagens recolhidas nesses espaços para atacar politicamente um deputado colocou agora uma questão à presidência do Parlamento: até onde pode ir a exposição pública de um representante eleito dentro do edifício onde exerce funções?

O problema surgiu depois de André Ventura, presidente do Chega, ter divulgado nas redes sociais imagens de Fabian Figueiredo, deputado do Bloco de Esquerda, aparentemente destinadas a questionar as consequências físicas de uma intervenção da polícia de que o bloquista afirma ter sido vítima.

Fabian Figueiredo dirigiu uma exposição ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, solicitando a abertura de um inquérito para identificar quem recolheu as imagens, em que circunstâncias o fez e de que forma chegaram ao líder do Chega.

O deputado pretende igualmente que sejam preservadas as gravações de videovigilância existentes nas instalações parlamentares, de modo a permitir o esclarecimento dos acontecimentos.

O pedido não se limita à divulgação de um vídeo. Abrange também um comentário publicado por outro deputado do Chega, Marcus Santos, que Fabian Figueiredo interpreta como uma ameaça à sua integridade física, segundo a interpretação que apresentou.

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Quem recolheu as imagens e que regras se aplicam à gravação nos corredores parlamentares?

Fabian Figueiredo, deputado do Bloco de Esquerda
Fabian Figueiredo, deputado do Bloco de Esquerda. Fotografia de arquivo: Esquerda.net / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Uma gravação feita num espaço de acesso condicionado

A publicação que desencadeou a iniciativa parlamentar foi divulgada por André Ventura a 28 de outubro, em várias plataformas digitais.

O vídeo mostra Fabian Figueiredo no interior da Assembleia da República e é acompanhado por uma mensagem que põe em dúvida a condição física do deputado.

Ventura relaciona as imagens com declarações anteriores do parlamentar bloquista sobre uma alegada agressão policial durante os protestos pelo direito à habitação, realizados em Lisboa.

A publicação procura estabelecer uma contradição entre as dificuldades de mobilidade referidas por Fabian Figueiredo e aquilo que as imagens parecem mostrar.

Contudo, a observação de uma pessoa a deslocar-se num determinado momento não permite, por si só, estabelecer a existência ou inexistência de uma lesão, nem avaliar a sua gravidade.

Também não esclarece o que aconteceu durante a intervenção policial.

A questão apresentada à presidência da Assembleia da República é diferente: saber se alguém recolheu imagens de um deputado num espaço parlamentar de acesso condicionado, sem o seu conhecimento, e se essa gravação foi posteriormente utilizada para comunicação partidária.

Na exposição, Fabian Figueiredo afirma desconhecer a identidade de quem o filmou, o equipamento utilizado, o momento exato da gravação e as condições de acesso dessa pessoa ao edifício.

São esses elementos que pretende ver apurados.

Interior do Palácio de São Bento, sede da Assembleia da República
Interior do Palácio de São Bento, em Lisboa. Fotografia de arquivo: Carlos Luis M. C. da Cruz / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

O que distingue um corredor parlamentar de uma sessão pública

A atividade da Assembleia da República assenta no princípio da publicidade dos trabalhos parlamentares.

Debates, intervenções, votações e outras iniciativas institucionais são frequentemente transmitidos, fotografados e divulgados. Essa exposição permite aos cidadãos acompanhar o comportamento dos seus representantes e fiscalizar o exercício do poder político.

Mas a publicidade dos trabalhos não significa que todos os espaços do Parlamento estejam sujeitos às mesmas regras.

Os corredores e outras áreas de circulação têm funções diferentes das salas onde decorrem sessões públicas. Neles cruzam-se pessoas que trabalham no edifício, representantes políticos, visitantes e profissionais autorizados a entrar.

A existência de controlo de acessos não determina automaticamente que qualquer gravação seja proibida. Para chegar a essa conclusão seria necessário conhecer as regras internas aplicáveis, as circunstâncias da captação e a finalidade da utilização das imagens.

É precisamente essa clarificação que Fabian Figueiredo solicita.

O deputado considera que a utilização de imagens recolhidas sem o seu conhecimento para o expor publicamente ultrapassa o confronto político legítimo.

A questão merece ser distinguida do direito de crítica. Um dirigente partidário pode contestar declarações de outro deputado, questionar a sua atuação e exigir esclarecimentos sobre acontecimentos de interesse público.

O que está por determinar é se, neste caso, os meios utilizados para sustentar essa crítica respeitaram as regras de funcionamento e segurança da instituição parlamentar.

O protesto pela habitação está na origem da disputa

O confronto entre André Ventura e Fabian Figueiredo não começou com a divulgação do vídeo.

O deputado bloquista participou numa manifestação pelo direito à habitação realizada no Rossio, em Lisboa, num contexto de protestos contra as dificuldades de acesso à casa e o agravamento dos encargos habitacionais.

A intervenção policial associada a esses protestos originou relatos de manifestantes que afirmaram ter sofrido agressões ou ferimentos.

Fabian Figueiredo associou as suas dificuldades de mobilidade a esse episódio.

Desde 25 de outubro, André Ventura tem publicado mensagens dirigidas ao deputado do Bloco de Esquerda, contestando a sua versão dos acontecimentos.

O vídeo divulgado no dia 28 introduziu, porém, um elemento novo: a utilização de imagens recolhidas dentro da Assembleia da República.

É essa mudança que fundamenta a exposição dirigida a Aguiar-Branco.

O apuramento de eventuais responsabilidades pela atuação policial e a avaliação da legitimidade da gravação parlamentar são matérias distintas.

Uma investigação sobre a origem do vídeo não permitirá, por si só, determinar o que aconteceu durante a manifestação. Da mesma forma, a eventual confirmação de lesões não resolve automaticamente a questão da captação e divulgação das imagens.

Cada matéria exige elementos próprios de prova.

Um comentário de outro deputado agrava o conflito

A exposição de Fabian Figueiredo inclui ainda uma referência a Marcus Santos, deputado do Chega, que comentou uma das publicações de André Ventura.

A qualificação jurídica ou disciplinar das declarações não resulta automaticamente do seu conteúdo nem da avaliação feita pelo destinatário.

Será necessário determinar se os comentários violam deveres parlamentares e se existe fundamento para qualquer procedimento institucional.

Independentemente dessa apreciação, o episódio coloca uma questão sobre os limites do discurso político entre representantes eleitos.

A crítica parlamentar pode ser particularmente dura, mas a referência favorável à violência física contra um adversário suscita problemas que ultrapassam a divergência partidária.

Cabe às instituições competentes avaliar os factos e as eventuais consequências, sem confundir a gravidade política de uma declaração com uma conclusão jurídica antecipada.

A proteção do mandato parlamentar

Fabian Figueiredo sustenta que a possibilidade de um deputado ser filmado sem conhecimento nos corredores da Assembleia, para posterior divulgação com fins partidários, pode afetar a liberdade de exercício do mandato.

O argumento assenta na ideia de que os representantes eleitos devem poder circular e trabalhar nas instalações parlamentares sem receio de vigilância informal destinada à sua exposição pública.

A questão não é a existência de imunidade à crítica.

Os deputados estão sujeitos ao escrutínio público e devem responder pelas suas declarações e comportamentos. Mas o exercício desse escrutínio tem de ser conciliado com as regras de segurança, proteção de dados e funcionamento da Assembleia.

Se uma gravação tiver sido realizada por alguém com acesso autorizado ao edifício, importa esclarecer se essa autorização abrangia a recolha de imagens para divulgação partidária.

Se tiver sido feita através de equipamentos de vigilância, a situação poderá levantar questões adicionais quanto ao acesso e utilização das gravações.

Não existem, porém, elementos no material disponível que permitam identificar a origem do vídeo ou concluir que foram utilizadas imagens de sistemas institucionais.

Essa possibilidade não deve ser apresentada como facto.

O esclarecimento da proveniência da gravação é, por isso, essencial antes de qualquer conclusão sobre eventuais violações de regras internas.

Porque é importante preservar as imagens

Entre as medidas solicitadas por Fabian Figueiredo encontra-se a conservação imediata das gravações de videovigilância.

O objetivo é evitar que eventuais registos relevantes sejam eliminados pelos procedimentos habituais de conservação de imagens antes de os factos serem apurados.

A preservação não implica que as gravações confirmem a existência de uma infração.

Poderá, contudo, ajudar a identificar o momento em que o deputado foi filmado, as pessoas presentes e as circunstâncias da recolha das imagens.

A utilidade dessa medida depende da localização das câmaras, dos períodos de retenção e da existência de registos correspondentes ao local e à hora da gravação.

O deputado pede ainda uma clarificação das regras aplicáveis à captação de imagens nos corredores e zonas comuns do Parlamento.

Esse esclarecimento poderá ter consequências para além do episódio concreto, uma vez que envolve condições de circulação e trabalho de todos os grupos parlamentares.

A decisão cabe agora à presidência da Assembleia

O pedido dirigido a José Pedro Aguiar-Branco coloca a presidência da Assembleia da República perante uma matéria que envolve segurança interna, funcionamento institucional e relações entre deputados.

A abertura de um inquérito não pressupõe a confirmação de uma irregularidade. Constitui um meio de recolher informação, identificar os intervenientes e determinar se existem fundamentos para outras diligências.

O material disponível não permite afirmar que a presidência tenha já decidido abrir uma investigação, nem que André Ventura ou Marcus Santos tenham apresentado respostas formais à exposição.

Também não está demonstrado quem captou as imagens ou se a gravação infringiu alguma regra parlamentar.

A relevância do caso reside precisamente nessa necessidade de esclarecimento.

A Assembleia da República é um espaço de confronto político, mas também uma instituição com regras próprias de funcionamento. O direito de fiscalizar e criticar representantes eleitos não elimina a necessidade de garantir condições de segurança e liberdade no exercício das funções parlamentares.

O episódio poderá levar a uma definição mais precisa das condições em que imagens recolhidas nas instalações de São Bento podem ser utilizadas fora dos trabalhos oficiais.

Antes disso, há uma questão concreta a resolver: quem filmou Fabian Figueiredo dentro do Parlamento, em que circunstâncias e com que autorização, caso esta fosse necessária.

É dessa resposta que dependerá a avaliação institucional do sucedido.

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