A inteligência artificial nos bancos e nas fintech europeias é usada para avaliar riscos, prevenir fraudes e automatizar serviços. Parte essencial dessa transformação depende de infraestruturas, modelos e fornecedores tecnológicos externos. A concentração desses recursos coloca novas questões sobre concorrência, supervisão e autonomia financeira.
Uma instituição europeia pode desenvolver aplicação própria de inteligência artificial sem controlar tecnologia que a faz funcionar. Os dados pertencem à instituição ou são tratados sob sua responsabilidade, o serviço é apresentado aos seus clientes e as decisões produzem consequências económicas na Europa, mas o processamento pode depender de infraestruturas de computação e modelos desenvolvidos por empresas internacionais.
Durante décadas, os bancos procuraram controlar diretamente grande parte dos sistemas informáticos usados nas suas operações. A expansão da computação em nuvem e, mais recentemente, da inteligência artificial introduziu novas formas de dependência. Uma instituição pode contratar serviços externos para analisar documentos, identificar operações suspeitas ou apoiar atendimento. Em contrapartida, passa a depender de disponibilidade, segurança e condições comerciais desses fornecedores.
O problema não é contratar tecnologia externa. É muitas instituições dependerem ao mesmo tempo de um número reduzido de empresas para executar funções importantes.
Inteligência artificial nos bancos: a infraestrutura como fonte de poder
A inteligência artificial nos bancos exige capacidade de processamento, armazenamento, redes e software especializado. Sistemas mais avançados podem precisar de recursos que seria demasiado dispendioso instalar e manter individualmente em cada instituição financeira. A contratação de serviços em nuvem permite distribuir esses custos e usar capacidade conforme necessidades.
Um banco pode experimentar novas aplicações sem construir previamente centro de dados. Uma fintech pode desenvolver produto e disponibilizá-lo a clientes de diferentes países sem possuir infraestrutura física equivalente.
A facilidade de acesso não significa ausência de dependência. Migrar sistemas entre fornecedores pode envolver custos elevados, alterações de software, transferência de dados e novos procedimentos de segurança. Quanto mais profundamente aplicação estiver integrada numa plataforma, mais difícil substituí-la. O controlo da infraestrutura de computação torna-se uma questão de poder. O fornecedor deixa de ser apenas despesa operacional. Pode tornar-se condição necessária para continuidade do serviço financeiro.
Três empresas ocupam posição central:
Amazon Web Services oferece infraestrutura de computação, armazenamento e ferramentas para desenvolvimento e execução de aplicações de inteligência artificial.
Microsoft Azure integra serviços empresariais, ferramentas de análise de dados e recursos de inteligência artificial usados por organizações de diferentes setores.
Google Cloud disponibiliza infraestrutura, modelos e ferramentas de desenvolvimento para sistemas de inteligência artificial e processamento de informação.
Estas empresas ocupam posições relevantes no mercado internacional de computação em nuvem. A importância decorre não apenas da capacidade instalada, mas também da integração entre infraestrutura, software e serviços especializados. A dimensão dos investimentos necessários para construir centros de dados e adquirir equipamentos cria barreiras à entrada de novos concorrentes. Uma empresa que pretenda competir precisa de reunir capital, energia, equipamentos, conhecimento técnico e clientes suficientes para justificar investimentos de grande escala. A concentração pode proporcionar economias de escala e serviços tecnologicamente avançados, mas dificuldades operacionais num fornecedor importante podem afetar numerosas organizações ao mesmo tempo.

Os modelos de inteligência artificial acrescentam outra dependência
Na inteligência artificial nos bancos, a infraestrutura representa apenas parte do problema. As instituições financeiras também podem depender de modelos desenvolvidos por terceiros. Um banco pode contratar capacidade de processamento a uma empresa e utilizar, sobre essa infraestrutura, modelo fornecido por outra. Essa combinação cria diferentes níveis de responsabilidade técnica e contratual.
Se o modelo produzir resultados incorretos, a instituição terá de avaliar consequências para clientes. Se o fornecedor modificar funcionamento do sistema, pode ser necessário repetir testes e rever procedimentos. Se o serviço ficar indisponível, a organização precisa de assegurar continuidade das operações essenciais.
A utilização de modelos abertos pode reduzir algumas dependências, mas não elimina custos de implementação, segurança e manutenção. Também não resolve automaticamente problemas associados à qualidade dos dados e à explicação das decisões. A escolha entre desenvolver tecnologia própria e contratar serviços externos depende de fatores que ultrapassam preço inicial.
Inteligência artificial nos bancos: quem responde por uma decisão errada?
A inteligência artificial pode apoiar decisões com consequências diretas para pessoas e empresas. Um sistema pode ajudar a avaliar pedidos de crédito, identificar transações potencialmente fraudulentas ou classificar riscos associados a determinados clientes.
A utilização de tecnologia externa não transfere automaticamente para o fornecedor todas as responsabilidades da instituição financeira. O banco continua sujeito a obrigações legais aplicáveis à sua atividade e ao tratamento dos dados dos clientes.
Esta responsabilidade torna-se especialmente importante quando decisão automatizada pode prejudicar acesso ao crédito ou produzir discriminações injustificadas. O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, no artigo 22.º, estabelece regras para decisões exclusivamente automatizadas que produzam efeitos jurídicos ou afetem significativamente pessoas, incluindo direitos e salvaguardas nas situações abrangidas. O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial prevê obrigações específicas para determinadas aplicações classificadas como de risco elevado, incluindo certos sistemas de avaliação da solvabilidade de pessoas singulares. O calendário de aplicação é faseado: segundo a Comissão Europeia, as regras para os casos de risco elevado do anexo III aplicam-se a partir de 2 de dezembro de 2027. Supervisão humana, documentação dos sistemas e possibilidade de avaliar resultados tornam-se elementos essenciais. Não basta saber utilizar ferramenta. É preciso compreender riscos da sua aplicação e demonstrar que existem mecanismos adequados para os controlar.
O regulamento DORA procura limitar os riscos
A União Europeia começou a responder à dependência tecnológica do setor financeiro através de regras específicas sobre resiliência operacional. O Regulamento de Resiliência Operacional Digital, conhecido pela sigla DORA, aplica-se desde 17 de janeiro de 2025.
O diploma estabelece requisitos relacionados com gestão de riscos tecnológicos, comunicação de incidentes, testes de resiliência e contratação de serviços de tecnologias de informação e comunicação. Uma das suas dimensões mais relevantes é criação de quadro europeu de supervisão de prestadores terceiros de serviços tecnológicos considerados críticos para o setor financeiro. O objetivo é reconhecer que determinados fornecedores podem representar riscos sistémicos mesmo sem serem bancos ou instituições financeiras. A falha de uma plataforma utilizada por várias instituições pode afetar simultaneamente serviços de pagamento, operações bancárias ou outras atividades.
O DORA não proíbe contratação de fornecedores externos nem exige que todas as instituições desenvolvam infraestrutura própria. Procura assegurar que dependência é identificada, avaliada e acompanhada. A supervisão europeia passa, deste modo, a considerar não apenas solidez individual das instituições financeiras, mas também vulnerabilidades resultantes das suas relações tecnológicas.
Em 18 de novembro de 2025, as autoridades europeias de supervisão publicaram a lista de prestadores tecnológicos designados como críticos, dando um passo concreto na aplicação deste quadro de acompanhamento.

A concentração pode criar riscos comuns
A diversificação constitui princípio importante da gestão financeira. Uma instituição procura evitar que exposição excessiva a um único ativo, cliente ou contraparte comprometa estabilidade. Na tecnologia, porém, diversificação pode ser mais difícil.
Duas instituições financeiras concorrentes podem utilizar mesmo fornecedor de nuvem, mesmo modelo de inteligência artificial ou componentes desenvolvidos pela mesma empresa. Embora negócios sejam independentes, partilham vulnerabilidades. Uma falha de segurança, interrupção prolongada ou alteração técnica pode atingir simultaneamente organizações que, à primeira vista, não apresentam relações diretas.
A situação torna-se mais complexa quando os próprios fornecedores dependem de outros operadores para assegurar determinados serviços. A cadeia pode envolver centros de dados, redes de comunicação, fabricantes de equipamentos, fornecedores de modelos e empresas especializadas em segurança. Conhecer esta cadeia é fundamental para avaliar riscos de continuidade operacional. A concentração tecnológica não significa necessariamente que ocorrerá falha sistémica. Significa que determinados acontecimentos podem produzir consequências mais amplas do que resultariam de sistemas completamente independentes.
A Europa procura construir alternativas
A dependência de fornecedores internacionais levou União Europeia a atribuir maior importância a capacidade tecnológica própria. Programas europeus de investigação, iniciativas de computação de elevado desempenho e investimentos em infraestruturas digitais procuram reforçar disponibilidade de recursos tecnológicos no espaço europeu.
A EuroHPC, iniciativa europeia dedicada à computação de alto desempenho, constitui um dos instrumentos usados para desenvolver capacidade de processamento. A expansão desta infraestrutura pode beneficiar investigação científica e desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial.
Mas existência de capacidade computacional não equivale automaticamente à criação de alternativas comerciais competitivas. Instituições financeiras necessitam de serviços permanentemente disponíveis, mecanismos de segurança, assistência técnica, certificações e integração com sistemas já existentes. A construção de infraestrutura pública ou apoiada por financiamento europeu não resolve, por si só, todas estas necessidades. Este é também o debate sobre a soberania tecnológica europeia. Autonomia tecnológica exige também empresas capazes de transformar capacidade de processamento em serviços usados regularmente pelo mercado.

O custo de mudar de fornecedor
Uma das questões centrais da concorrência tecnológica é possibilidade efetiva de abandonar um fornecedor. Em teoria, uma instituição pode escolher entre várias plataformas de computação. Na prática, essa escolha pode tornar-se progressivamente mais limitada.
O desenvolvimento de aplicações sobre ferramentas específicas cria relações técnicas difíceis de desfazer. Trabalhadores adquirem experiência com determinados sistemas, processos internos são adaptados e contratos passam a refletir essas escolhas. A mudança pode exigir reescrever aplicações, transferir grandes volumes de informação e interromper temporariamente serviços.
Este fenómeno, frequentemente designado por dependência tecnológica do fornecedor, pode reduzir pressão concorrencial. Uma empresa pode continuar a utilizar serviço mesmo quando surgem alternativas mais económicas, porque custo de transição ultrapassa poupança esperada.
O Regulamento dos Dados (Data Act), aplicável desde 12 de setembro de 2025, inclui regras destinadas a facilitar a mudança entre serviços de processamento de dados e a reduzir parte destes obstáculos. Contudo, portabilidade dos dados não garante que aplicações complexas funcionem imediatamente noutra plataforma. A concorrência depende também de interoperabilidade dos sistemas e de capacidade técnica para substituir componentes sem reconstruir toda operação.
Inteligência artificial nos bancos portugueses: o mesmo problema em menor escala
Os bancos e as fintech portugueses participam no mercado financeiro europeu e estão sujeitos a grande parte do mesmo enquadramento regulamentar. A dimensão relativamente reduzida do mercado nacional torna particularmente importante acesso a fornecedores externos. Desenvolver internamente todas as tecnologias necessárias pode não ser economicamente viável para muitas instituições.
A contratação de serviços especializados permite beneficiar de ferramentas que exigiriam investimentos elevados se fossem construídas individualmente. Esta vantagem é relevante para empresas que pretendem competir internacionalmente.
Mas dependência também limita autonomia. Uma fintech portuguesa pode desenvolver aplicação inovadora e conquistar clientes em vários países sem controlar modelos ou infraestrutura que utiliza. O seu valor económico estará concentrado no conhecimento financeiro, na relação com clientes, na qualidade do serviço e na capacidade de integrar tecnologias externas. Sustentabilidade do negócio dependerá também de possibilidade de manter essas tecnologias disponíveis em condições comerciais aceitáveis.
A supervisão não substitui a concorrência
A regulação europeia procura assegurar que sistemas financeiros continuam a funcionar mesmo quando dependem de fornecedores tecnológicos complexos. Esta preocupação é distinta da política de concorrência.
Uma plataforma pode cumprir requisitos elevados de segurança e, simultaneamente, ocupar posição de mercado que dificulte entrada de concorrentes. Da mesma forma, existência de vários fornecedores não garante que todos apresentem níveis adequados de resiliência operacional.
A União Europeia precisa, por isso, de combinar instrumentos diferentes. Supervisão financeira deve identificar riscos associados à contratação e utilização de serviços tecnológicos. Política de concorrência deve avaliar práticas que possam restringir injustificadamente acesso ao mercado. Política industrial pode contribuir para desenvolver alternativas tecnológicas. Nenhuma destas dimensões resolve isoladamente problema. A concentração pode proporcionar eficiência, mas também criar dependências difíceis de controlar. A fragmentação pode favorecer concorrência, mas aumentar custos e dificultar criação de infraestruturas com dimensão internacional. O equilíbrio dependerá das condições concretas de cada mercado e da capacidade de fiscalização das autoridades.
O poder financeiro já não está apenas nos bancos
A transformação digital criou situação em que empresas sem licença bancária podem controlar recursos indispensáveis ao funcionamento de instituições financeiras. Estas empresas não recebem depósitos nem concedem necessariamente crédito por conta própria. Ainda assim, fornecem sistemas usados para executar operações essenciais.
O poder económico deixa de estar concentrado apenas em quem controla capital financeiro ou relação com clientes. Passa também por quem controla capacidade de processamento, modelos tecnológicos e sistemas que permitem transformar informação em decisões.
Esta mudança não elimina importância dos bancos. Torna mais complexa rede de organizações das quais depende seu funcionamento.
A inteligência artificial nos bancos poderá aumentar eficiência dos serviços financeiros europeus, reduzir custos e facilitar desenvolvimento de novos produtos. Mas benefícios serão acompanhados por questão de autonomia. Uma instituição pode conservar responsabilidade jurídica pelas suas decisões e, ao mesmo tempo, depender de fornecedores externos para as executar tecnicamente.
O desafio europeu será garantir que essa dependência não compromete concorrência, continuidade dos serviços e capacidade das autoridades para supervisionar sistema financeiro. O futuro da inteligência artificial nos bancos não será decidido apenas por quem desenvolver melhores algoritmos. Dependerá também de quem possuir infraestrutura, definir condições de acesso e conservar capacidade de interromper ou modificar serviços dos quais restantes operadores dependem.
Imagem de capa: Supercomputador Athena, no centro Ames da NASA, nos Estados Unidos. A inteligência artificial nos bancos depende também de capacidade física de processamento. Imagem ilustrativa; não representa uma instalação bancária europeia. Crédito: NASA/Brandon Torres-Navarrete. Fonte da imagem.
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