Os tabloides contam-nos mais do que gostamos de admitir

A entrevista de Lachlan Cartwright ajuda a olhar para os tabloides sem caricatura: publicações excessivas, incómodas e, por vezes, mais influentes do que se admite.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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CONTEXTO · Media e Poder · Jornalismo · Tabloides e cultura mediática

O que os tabloides revelam sobre os media

O essencial
  • Os tabloides ocupam uma margem incómoda, mas real, da história do jornalismo.
  • O seu excesso não elimina o seu poder de captar temas que outros meios ignoram.
  • A cultura mediática não pode ser compreendida apenas através das publicações respeitáveis.

Quase ninguém admite ler tabloides.

Mas quase toda a gente sabe o que eles publicam.

É uma daquelas pequenas hipocrisias que atravessam a vida pública há décadas. O leitor respeitável compra o jornal respeitável. Cita o jornal respeitável. Confia no jornal respeitável. Depois aparece uma história escandalosa, uma revelação embaraçosa, uma indiscrição sobre uma figura poderosa, e toda a gente sabe do que se está a falar.

Algures pelo caminho, alguém leu o tabloide.

A entrevista recente de Lachlan Cartwright trouxe-me essa ideia de volta. Cartwright passou por um dos nomes mais controversos da imprensa americana, o National Enquirer, uma publicação que durante anos viveu num lugar estranho: demasiado popular para ser ignorada, demasiado embaraçosa para ser respeitada.

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Os tabloides são muitas vezes descritos como se fossem um mundo separado do jornalismo. Não acredito nisso. São a sua margem incómoda, excessiva, por vezes irresponsável, mas continuam dentro da mesma história.

Talvez o erro comece quando confundimos forma e conteúdo.

Os tabloides têm uma estética agressiva. Gostam de títulos grandes, conflitos pessoais, histórias que apelam à curiosidade humana mais imediata. Isso torna-os mais fáceis para serem descartados. A aparência, porém, nem sempre diz tudo sobre a matéria que transportam.

Ao longo da história dos media, houve temas que chegaram primeiro aos tabloides porque os jornais mais respeitáveis não lhes prestaram atenção suficiente. Houve figuras públicas escrutinadas primeiro por publicações consideradas menores. Houve histórias que pareciam mexericos até deixarem de o ser.

Nem sempre porque os tabloides eram melhores.

Muitas vezes porque estavam dispostos a ir onde outros não queriam ir.

A reputação dos tabloides foi construída sobre uma contradição permanente: precisam de chamar a atenção, e a atenção nem sempre recompensa a prudência. É por isso que acumulam erros, exageros, invasões de privacidade e histórias difíceis de defender. A lista existe e é longa. Ignorá-la seria desonesto.

Também seria desonesto fingir que sobreviveram durante décadas apenas porque enganavam leitores.

Sobreviveram porque perceberam algo que o jornalismo mais institucional, por vezes, esquece: as pessoas interessam-se por pessoas.

Interessa-lhes o poder, claro.

Mas interessa-lhes igualmente quem o exerce, como vive, o que esconde, quem protege e quem prejudica.

É uma curiosidade humana antiga. Os tabloides aprenderam a explorá-la, umas vezes de forma legítima, outras não.

O National Enquirer ocupou esse território durante anos. Ridicularizado por muitos jornalistas, era seguido atentamente por políticos, celebridades e empresários que sabiam que uma história publicada ali podia causar estragos reais.

Uma publicação pode ser considerada vulgar e influente ao mesmo tempo. Pode ser alvo de piadas e de receio. Pode ser tratada como secundária e continuar a condicionar comportamentos.

Talvez porque o poder nem sempre circula pelos lugares onde gostamos de o encontrar.

Ao ouvir Cartwright, fiquei com a sensação de que uma parte da história dos media continua por contar. Não a história dos grandes jornais, das capas históricas ou das investigações premiadas. Essa conhecemo-la relativamente bem.

A outra história é a das publicações que vivem nas margens da respeitabilidade. As que raramente aparecem nos cursos de jornalismo como exemplo. As que são citadas com embaraço. As que quase ninguém reivindica.

E, no entanto, continuam lá.

Porque respondem a uma procura real.

Os leitores podem dizer que procuram apenas informação rigorosa e análise profunda. E procuram. Mas também procuram conflito, personalidade, escândalo, ambição, queda, redenção. Procuram histórias.

Os tabloides perceberam isso antes de muitos outros.

Por vezes compreenderam-no demasiado bem.

Talvez seja essa a razão pela qual continuam a incomodar. Não porque representem o oposto do jornalismo respeitável, mas porque revelam uma parte da natureza humana que o jornalismo respeitável prefere nem sempre reconhecer.

A fronteira entre os dois mundos existe.

Mas talvez nunca tenha sido tão sólida como gostamos de imaginar.

Leia também: Catch-and-kill: como o National Enquirer comprava histórias para as silenciar.

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Photo by seymasungr on Pexels.com

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