Catch-and-kill: como o National Enquirer comprava histórias para as silenciar

O testemunho de Lachlan Cartwright ajuda a compreender uma prática que permitia adquirir histórias potencialmente embaraçosas e impedir a sua circulação pública.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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CONTEXTO · Media e Poder · Estados Unidos · Catch-and-kill e controlo da informação

Como funcionava o mecanismo catch-and-kill

O essencial
  • O mecanismo catch-and-kill consistia na aquisição de histórias para impedir a sua publicação.
  • Lachlan Cartwright descreveu essa prática numa entrevista publicada no Substack.
  • O caso ajuda a compreender formas indiretas de controlo da informação.

Conhecia o nome de Lachlan Cartwright. Não muito mais do que isso. Um nome encontrado nos corredores da imprensa anglo-saxónica, daqueles que aparecem quando se lê sobre bastidores dos media, tabloides, dinheiro, reputações, guerras entre publicações. Sabia que era jornalista. Sabia que tinha passado por lugares onde se ouvem coisas antes de chegarem ao público. Mas não conhecia a espessura da história.

Foi uma entrevista publicada no Substack que me obrigou a parar.

Não pelo formato. Há entrevistas longas todos os dias, demasiadas talvez, umas feitas para revelar, outras para vender proximidade. Esta tinha outra vibração. Hamish McKenzie, cofundador do Substack, conversava com Cartwright sobre jornalismo, fontes, newsletters, negócios próprios, risco. À primeira vista, nada que parecesse fugir muito ao universo habitual dos media contemporâneos: o jornalista que sai de uma redação, cria uma marca pessoal, funda um projeto independente, tenta sobreviver num mercado onde a atenção se tornou a primeira moeda.

Depois apareceu o National Enquirer.

Para um leitor português, o nome talvez precise de ser colocado no lugar certo. O National Enquirer não foi apenas um tabloide de supermercado, desses que vivem de capas agressivas, divórcios de celebridades, doenças escondidas e escândalos familiares. Foi também uma máquina de informação popular com uma força particular: desprezada por muitos, lida por milhões, temida por alguns. Um jornal que podia parecer menor aos olhos da imprensa respeitável, mas que sabia aroximar-se de vidas privadas, recolher histórias, pressionar reputações, farejar fraquezas.

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Cartwright não falava dele como historiador. Falava como alguém que lá esteve.

Foi editor executivo. Esteve dentro da sala, perto das chamadas, dos editores, das fontes, das decisões. Não era um comentador a reconstruir o caso anos depois, com a segurança limpa de quem nunca teve de escolher entre publicar, esperar, obedecer ou desconfiar. Era alguém que dizia ter começado a perceber, a partir de dentro, que certas histórias não eram tratadas para chegar ao público.

Eram tratadas para desaparecer.

A expressão inglesa é catch-and-kill. Convém mantê-la, porque nela cabe uma violência seca que a tradução perde parcialmente. Catch é apanhar, capturar, chegar primeiro. Kill é matar. No contexto jornalístico, significa comprar uma história, assegurar direitos exclusivos sobre ela e depois nao a publicar. Em português: comprar para silenciar.

A ideia é quase infantil de tão simples. Amguém tem uma história embaracçosa sobre uma figura poderosa. Uma publicação aproxima-se. Paga. Garante exclusividade. A fonte assina. A história fica presa. Nenhum concorrente a pode publicar com facilidade. O leitor nunca a vjê.

Nada explode. Não há proibição oficial. Não há censura visível.

Na entrevista, Cartwright recorda um episódio ligado a Harvey Weinstein. Uma fonte ter-lhe-á indicado uma alegação grave. Havia matéria para investigar. Havia, segundo o seu relato, uma possibilidade real de avançar. O reflexo normal de um jornalista seria trabalhar a história, confirmar, pressionar, tentar publicar.

Mas a reação que descreve não foi essa.

O que o inquietou não foi apenas a cautela. A cautela faz parte do jornalismo. Foi a ontade súbita de pagar por uma história que, aparentemente, já podia ser perseguida editorialmente.

Porque se compra uma história que se podia publicar?

A resposta, quando surge, é pior do que a suspeita: por vezes compra-se precisamente para nao publicar.

Trump, Weinstein, o National Enquirer, os nomes próprios, as guerras de bastidores — tudo isso pertence a uma paisagem política e mediática muito concreta. Mas o mecanismo não fica preso à América. Mostra uma forma de poder que nao precisa de se fazer ouvir. Não precisa de desmentir. Não precisa sequer de convencer.

Basta chegar antes.

A censura clássica ainda tem alguma coisa de teatral. Há uma ordem, um corte, uma autoridade, uma violência reconhecível. O catch-and-kill é mais limpo. Tem contrato, recibo, advogado, cláusula, silêncio. Não destrói a notícia em público. Retira-a antes de ela nascer.

Uma mentira publicada pode ser contestada. Uma notícia comprada e escondida não pode sequer ser lida.

Cartwright viria depois a tornar-se uma peça relevante na exposição pública desse mecanismo. Segundo o próprio, falou como fonte anónima, enfrentou riscos legais, viveu sob o peso de acordos de confidencialidade, escreveu mais tarde sobre o que vira e sobre o que lhe custou escrever. Na entrevista, há um momento em que ele conta a dificuldade de voltar aos ficheiros, às mensagens, à memória. A história não aparece como troféu. Aparece como coisa pesada.

Há uma tentação muito atual de imaginar o jornalismo como opinião rápida, reação, pose, frase cortante. Cartwright vem de outro sítio: fontes, rua, insistência, bares, telefonemas, confiança construída ao longo do tempo. Chama-lhe newshound — Cģo de notícias, farejador de histórias. A palavra tem qualquer coisa de antiga, quase suja, e por isso mesmo útil. Recorda que a informação não cai limpa no ecrã. Alguém a procura. Alguém a confirma. Alguém paga um preço por a trazer para fora.

A história que ele conta mostra o avesso desse ofício: há quem procure informação para a controlar.

O escândalo não está apenas em comprar uma história. Publicações pagam por informação, entrevistas, fotografias, testemunhos. A fronteira moral e jornalística começa a mudar quando o pagamento serve para fechar a porta ao público. A notícia deixa de ser tratada como matéria de interesse comum e passa a ser gerida como risco privado.

O mesmo cheque pode abrir uma página ou fechá-la.

Ao terminar a entrevista, fiquei menos interessado no exotismo do tabloide americano do que nessa pergunta simples: quantas coisas sabemos não porque eram inevitáveis, mas porque ninguém chegou a tempo de as comprar? E quantas nunca soubemos porque alguém chegou primeiro?

Cartwright não é, para nós, uma celebridade. Talvez isso ajude. Permite olhar para a história sem o a imagem habitual da fama. Um jornalista australiano, passado por Londres e Nova Iorque, entra numa das casas mais ambíguas da imprensa popular americana e descobre que, em certos casos, o furo podia ser apenas a primeira etapa do silêncio.

É pouco provável que a maioria dos leitores portugueses tenha acompanhado o percurso dele. Também não é necessário. Basta perceber o que a sua história ilumina.

Numa época em que se fala tanto de desinformação, talvez se fale pouco da informação que nunca chega a nascer. Falamos das mentiras que circulam, dos algoritmos que amplificam, dos conteúdos fabricados, das campanhas digitais. Tudo isso importa. Mas há uma forma mais antiga, mais discreta e, por vezes, mais eficaz de manipular o espaço público: impedir que uma verdade verificável encontre caminho até ao leitor.

Não é preciso apagar uma notícia depois.

Basta comprá-la antes.

Cronologia mínima
  • Cartwright trabalha no National Enquirer.
  • Toma contacto com práticas associadas ao catch-and-kill.
  • O mecanismo torna-se objeto de escrutínio público.
  • Cartwright publica posteriormente o seu testemunho.
  • Retoma o tema numa entrevista publicada no Substack.

Leia também: Quando o jornalista se torna a empresa.

Leia também: Os tabloides contam-nos mais do que gostamos de admitir.

No mesmo contexto: O último farejador de notícias.

Na mesma sequência: A IA escreve depressa. Mas não encontra fontes..

Dossiê: Quem controla a informação?.

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