Quando o jornalista se torna a empresa

A trajetória de Lachlan Cartwright ajuda a compreender uma mudança silenciosa: os jornalistas experientes estão a trocar as instituições mediáticas por projetos construídos com o seu próprio nome.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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CONTEXTO · Media e Poder · Jornalismo · Economia da atenção

Porque estão jornalistas a abandonar as grandes redações

O essencial
  • Muitos jornalistas experientes estão a abandonar grandes redações para criar projetos próprios.
  • O caso de Lachlan Cartwright ilustra esta mudança.
  • A relação direta com os leitores tornou-se um elemento central dos novos modelos editoriais.

Quando o jornalista se torna a empresa.

Houve um momento em que Lachlan Cartwright pensou que o projeto não chegaria ao Natal.

Não é uma metáfora. Na entrevista que deu recentemente ao Substack, fala de dinheiro a desaparecer mais depressa do que os novos subscritores apareciam. Fala de noites mal dormidas. Fala de um sócio que seguiu outro caminho. Fala de contas. Sobretudo de contas.

O curioso é que Cartwright não chegou ali vindo do nada.

Passara por Londres. Passara por Nova Iorque. Tinha trabalhado em publicações que qualquer jornalista reconheceria imediatamente. Conhecia redações grandes, equipas grandes, orçamentos grandes. Tinha passado anos dentro de empresas construídas precisamente para absorver o risco.

E, ainda assim, encontrava-se sozinho perante um problema simples: fazer sobreviver uma publicação.

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Não uma publicação qualquer.

A sua.

Há qualquer coisa de novo nesta cena, embora ela se repita cada vez mais.

Durante décadas, o percurso profissional de um jornalista parecia uma escada. O objetivo era subir. Passar para uma redação maior. Depois para outra mais influente. Aproximar-se do centro da indústria. O nome da publicação funcionava como garantia de estabilidade, alcance e reputação.

Hoje encontram-se profissionais experientes a fazer o movimento contrário.

Saem.

Alguns por cansaço. Outros por oportunidade. Outros porque acreditam que conseguem falar diretamente com os leitores sem passar por uma estrutura intermédia.

O resultado é estranho.

Pessoas que passaram anos a trabalhar para empresas mediáticas acabam por construir pequenas empresas à sua própria volta.

Newsletter.

Podcast.

Eventos.

Subscrições.

Patrocínios.

A palavra «jornalista» continua a ser verdadeira. Apenas deixou de ser suficiente.

Ao ouvir e ao ler o Cartwright, tive a impressão de que a transformação mais importante dos media contemporâneos não está onde normalmente a procuramos.

Fala-se muito de plataformas.

Fala-se muito de algoritmos.

Fala-se muito de inteligência artificial.

Mas quase toda a conversa acaba por regressar ao mesmo lugar: quem paga.

Quando um jornal tradicional perde leitores, a instituição continua a existir. Tem património, investidores, reservas e estruturas administrativas. Pode cair lentamente.

Uma publicação construída em torno de uma única pessoa vive de outra maneira. Cresce depressa. Também pode desaparecer depressa.

É um modelo mais livre.

É também um modelo mais exposto.

Cartwright descreve dias de trabalho que parecem menos próximos do jornalismo clássico do que da vida de um pequeno empresário. Escreve. Procura histórias. Organiza eventos. Grava episódios. Promove a marca. Gere receitas. Tenta aumentar a base de subscritores.

O trabalho editorial mistura-se com o trabalho comercial até se tornar difícil separar uma coisa da outra.

Talvez seja esse o paradoxo que atravessa a entrevista.

A independência regressou ao centro da conversa precisamente numa altura em que se tornou mais difícil sustentá-la.

Durante muito tempo, os jornalistas dependiam das instituições para chegar aos leitores.

Agora dependem dos leitores para sustentar instituições minúsculas, construídas muitas vezes à escala de uma única pessoa.

Não é um regresso ao passado.

Também não é o futuro brilhante que alguns imaginaram.

É outra coisa.

Uma espécie de jornalismo artesanal surgido das ruínas de um modelo industrial.

Ainda não sabemos se conseguirá durar.

Mas sabemos que cada vez mais profissionais experientes estão dispostos a arriscar a carreira para descobrir a resposta.

Cartwright é apenas um deles.

Provavelmente não será dos últimos.

Leia também: Catch-and-kill: como o National Enquirer comprava histórias para as silenciar.

Cronologia mínima
  • Cartwright constrói uma carreira nas grandes publicações internacionais.
  • Abandona as redações tradicionais.
  • Funda o projeto Breaker.
  • Procura tornar a publicação sustentável através de subscrições e eventos.
  • O caso torna-se exemplo de uma tendência mais ampla no jornalismo.

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