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Trump, a World Liberty Financial e o litígio com Justin Sun
Em maio de 2025, duzentas e vinte pessoas sentaram-se a jantar no Trump National Golf Club, na Virgínia. Não eram chefes de Estado nem membros do Governo. Também não tinham sido escolhidas pelo Partido Republicano.
Tinham comprado $TRUMP.
O critério de entrada era matemático: os duzentos e vinte maiores detentores da memecoin associada a Donald Trump recebiam um lugar à mesa. Os primeiros vinte e cinco tinham direito a uma receção reservada. Segundo cálculos da Reuters, os investidores gastaram cerca de 148 milhões de dólares para alcançar as posições que davam acesso ao jantar. (reuters.com)
O próprio site oficial do $TRUMP insiste que o ativo não deve ser entendido como investimento, contrato de investimento ou valor mobiliário. Apresenta-o como uma forma de expressão de apoio e envolvimento com os «ideais e crenças» representados pelo símbolo $TRUMP. Na mesma página, explica como comprar o token com cartão ou criptomoeda, recorda que é livremente negociável e informa que duas entidades ligadas à marca Trump controlam, em conjunto, 80% da oferta, sujeita a um calendário de desbloqueio. (gettrumpmemes.com)
Entre os convidados estava Justin Sun.
O empresário de criptomoedas, nascido na China e fundador da blockchain Tron, tinha-se apresentado publicamente como o «TOP fan» de Trump. Era o maior detentor público identificado do $TRUMP e ocupava o primeiro lugar na classificação que dava acesso ao jantar. A Reuters estimou então a sua posição em cerca de 18,5 milhões de dólares. (reuters.com)
O investimento que acabaria por levá-lo a tribunal não era o $TRUMP. Era o $WLFI.
O essencial deste artigo
- Donald Trump declarou mais de 1,4 mil milhões de dólares em rendimentos relacionados com negócios de criptomoedas em 2025.
- A World Liberty Financial e o $TRUMP são estruturas distintas, embora ambas estejam financeiramente ligadas ao universo empresarial da família Trump.
- Justin Sun começou por ser um dos maiores financiadores da World Liberty Financial e investiu dezenas de milhões de dólares em $WLFI.
- Sun acusa a World Liberty de ter alterado o sistema técnico dos tokens e congelado unilateralmente os seus ativos.
- A World Liberty rejeita a acusação e afirma que o poder de congelamento estava previsto nos contratos.
- Os dois lados processaram-se em ações separadas, uma na Califórnia e outra na Florida.
- Entretanto, a World Liberty continuou a expandir os seus negócios para ativos imobiliários tokenizados, uma stablecoin e patrocínios desportivos realizados nos próprios terrenos da Casa Branca.
A fortuna que aparece em novecentas e vinte e sete páginas
A 30 de junho de 2026, o Office of Government Ethics dos Estados Unidos publicou a declaração financeira anual certificada de Donald Trump relativa a 2025.
O documento tem novecentas e vinte e sete páginas. (oge.gov)
Não oferece ao leitor um subtotal chamado «dinheiro ganho com criptomoedas». As receitas aparecem distribuídas por sociedades, carteiras digitais, vendas de tokens, royalties, participações e outras rubricas.
A Reuters calculou que Trump declarou mais de 1,4 mil milhões de dólares em rendimentos ligados aos negócios cripto da família durante 2025. Perto de 800 milhões estariam associados à World Liberty Financial e a negócios relacionados; outros 635 milhões aparecem na declaração como royalties de um acordo de licenciamento com a Celebration Coins, entidade associada ao universo do $TRUMP. (reuters.com)
A declaração presidencial regista 635.068.835 dólares nessa rubrica.
Há depois uma sucessão de pagamentos identificados como receitas de vendas de tokens distribuídas pela World Liberty Financial: 236,25 milhões numa linha; 42,25 milhões noutra; 56 milhões; 150,6 milhões; 33,4 milhões; e várias quantias adicionais associadas a diferentes carteiras de criptomoedas. O documento inclui ainda 65,625 milhões de dólares em receitas líquidas de uma venda de participação na WLF Holdco. (oge.box.com)
Trump continua a ter hotéis, campos de golfe, contratos de licenciamento e negócios imobiliários. Em 2025, uma parte central do dinheiro declarado já não veio de quartos de hotel, metros quadrados ou green fees.
Veio de tokens.
Dois tokens, duas máquinas diferentes
O $TRUMP é uma memecoin. O material promocional oficial descreve-o como uma forma de expressão de apoio à figura e ao símbolo de Trump e nega que tenha sido concebido como oportunidade de investimento. É negociável no mercado, e as entidades CIC Digital LLC e Fight Fight Fight LLC controlam 80% da oferta, segundo o próprio projeto. (gettrumpmemes.com)
O $WLFI pertence a uma estrutura diferente.
É o token de governação da World Liberty Financial, empresa de tecnologia financeira ligada à família Trump e apresentada como uma ponte entre as finanças descentralizadas e o sistema financeiro tradicional. A própria World Liberty afirma que os detentores de $WLFI podem apresentar, analisar e votar propostas relacionadas com a plataforma. (worldlibertyfinancial.com)
Os tokens não são ações da empresa, e a sua posse não transforma o detentor em acionista da World Liberty. Ainda assim, confere-lhe uma função de governação.
O litígio com Justin Sun nasceu do limite dessa função e do poder que a empresa conservava sobre os tokens depois de os vender.
O homem que entrou quando as vendas estavam paradas
Em novembro de 2024, o primeiro período de venda de tokens da World Liberty Financial estava muito abaixo das ambições anunciadas.
Justin Sun comprou então 30 milhões de dólares em $WLFI.
A entrada transformou-o no primeiro grande financiador público do projeto. Sun aumentaria depois a exposição à World Liberty. Diferentes apuramentos situaram o seu compromisso total com a estrutura em pelo menos 75 milhões de dólares; o processo apresentado por Sun identifica compras de 45 milhões de dólares em tokens através de entidades suas e direitos adicionais recebidos posteriormente.A Reuters descreveu-o como um dos maiores investidores individuais conhecidos da World Liberty. (reuters.com)
Sun também comprou $TRUMP. O Financial Times noticiou investimentos superiores a 100 milhões de dólares na memecoin; outras estimativas publicadas chegaram a valores mais elevados. A soma exata depende da data, das carteiras atribuídas a Sun e da forma como se valorizam ativos extremamente voláteis.
Não era um pequeno investidor à espera de uma subida rápida. Tinha colocado dezenas de milhões de dólares na arquitetura financeira ligada à família Trump e estivera sentado à mesa com o Presidente.
O dinheiro dos Emirados e o que a declaração não diz
Dias antes de Trump regressar à Casa Branca, uma entidade de investimento ligada ao xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, conselheiro de segurança nacional dos Emirados Árabes Unidos e membro da família real de Abu Dhabi, acordou adquirir 49% da World Liberty Financial por 500 milhões de dólares.
O negócio foi revelado meses depois pelo Wall Street Journal. Não tinha sido anunciado publicamente quando foi concluído. A Reuters noticiou posteriormente pedidos de senadores democratas para que a transação fosse analisada pelo Committee on Foreign Investment in the United States. (wsj.com)
A declaração financeira de Trump não escreve «Emirados Árabes Unidos» ao lado das receitas provenientes da venda de participações na World Liberty. Regista vendas de capital, contribuições e distribuições através das entidades declaradas.
A Reuters calculou em mais de 250 milhões de dólares os rendimentos declarados por Trump em 2025 provenientes da venda de interesses empresariais ligados à World Liberty. O Wall Street Journal, cruzando a declaração com o negócio dos Emirados, atribuiu cerca de 263 milhões de dólares das receitas declaradas a essa transação. (reuters.com)
O documento oficial regista a entrada do dinheiro nas estruturas declaradas por Trump. A origem emiradense foi reconstruída através do cruzamento da declaração com o negócio revelado pelo Wall Street Journal.
A armadilha, segundo Justin Sun
A 21 de abril de 2026, Justin Sun e duas entidades ligadas a si apresentaram uma ação num tribunal federal da Califórnia contra a World Liberty Financial.
Segundo Sun, a World Liberty introduziu nos contratos inteligentes do $WLFI mecanismos que permitiam restringir unilateralmente a transferência de tokens. Na sua versão, essa capacidade não tinha sido apresentada aos compradores da forma como viria a ser utilizada.
Sun alega que uma investigação às estruturas do contrato encontrou pelo menos dezanove categorias diferentes de endereços sujeitos a restrições distintas. O seu endereço, afirma, era o único colocado numa categoria de bloqueio total.
A World Liberty congelara os seus tokens em setembro de 2025, depois de o $WLFI se tornar negociável.
Sun sustenta que a empresa tinha criado uma porta técnica capaz de impedir um titular de mover ativos que continuavam registados na sua própria carteira. No processo, acusa a World Liberty de fraude, extorsão e violação dos seus direitos sobre os tokens.
A Reuters, ao analisar a ação, descreveu ativos avaliados em mais de 320 milhões de dólares cuja transferência Sun dizia estar impedido de realizar. (reuters.com)
A empresa diz que o poder de congelar sempre esteve lá
A World Liberty nega que tenha instalado secretamente um mecanismo de bloqueio para atingir Sun.
Afirma que a possibilidade de congelar tokens estava prevista nos termos de venda, nos acordos de desbloqueio assinados pelo investidor e na própria estrutura técnica visível na blockchain.
Segundo a empresa, entidades ligadas a Sun realizaram transferências não autorizadas, compras por interpostas pessoas e operações destinadas a beneficiar de uma queda do preço do $WLFI. São acusações ainda não decididas por um tribunal. (businesswire.com)
A 4 de maio, a World Liberty apresentou uma ação separada por difamação no tribunal estadual de Miami-Dade County, na Florida.
A empresa acusa Sun de ter desenvolvido uma campanha pública destinada a destruir a sua reputação depois de não conseguir obrigá-la a levantar o congelamento. Alega que o empresário ameaçou, através dos seus representantes, «pôr a World Liberty a arder» e usou depois a sua audiência de quase quatro milhões de seguidores para divulgar acusações que considera falsas.
Sun chamou à ação um «golpe de relações públicas sem mérito».
Na Califórnia, Sun sustenta que a empresa vendeu tokens e conservou um poder oculto para os imobilizar. Na Florida, a World Liberty afirma que o investidor conhecia e aceitara esse poder, violou os contratos e iniciou uma campanha de difamação quando foi impedido de continuar a agir.
Nenhuma das versões tem ainda uma decisão judicial final.
A SEC saiu de cena por outra porta
Em 2023, a Securities and Exchange Commission processou Justin Sun, a Tron Foundation, a BitTorrent Foundation e a Rainberry. Entre outras matérias, a SEC acusava a Rainberry de participação em wash trading de TRX — operações realizadas sem verdadeira mudança de beneficiário económico, destinadas, segundo a acusação, a criar uma aparência artificial de atividade no mercado.
O processo não terminou com uma decisão judicial que absolvesse Sun das alegações após julgamento.
Em março de 2026, a SEC apresentou uma resolução global do caso. A Rainberry aceitou uma sanção civil de dez milhões de dólares relacionada com a acusação de wash trading, sem admitir nem negar as alegações. As restantes pretensões contra a Rainberry e as ações contra Sun, a Tron Foundation e a BitTorrent Foundation foram extintas com caráter definitivo nos termos da resolução. (sec.gov)
Poucas semanas depois, Sun processou a World Liberty.
Em 2024, entrara com 30 milhões de dólares quando a World Liberty precisava de um grande comprador. Aumentou a exposição, comprou $TRUMP, apresentou-se como principal fã do Presidente e conseguiu o primeiro lugar no jantar dos duzentos e vinte. Em 2026, acusava uma empresa ligada à mesma família de utilizar a arquitetura de uma criptomoeda para retirar aos titulares o controlo efetivo dos seus ativos.
A máquina não parou
Em fevereiro, a World Liberty anunciou, com a Securitize e a DarGlobal, a tokenização de interesses económicos ligados ao Trump International Hotel & Resort, nas Maldivas.
A World Liberty não é a promotora imobiliária do empreendimento. Essa função pertence à DarGlobal. A empresa cripto participa, com a Securitize, na estruturação de uma oferta tokenizada que dá exposição económica ao desenvolvimento do ativo hoteleiro. A própria plataforma da Securitize descreve o produto nesses termos. (darglobal.co.uk)
Em junho, a World Liberty tornou-se parceira oficial do UFC Freedom 250, realizado nos terrenos da Casa Branca.
A empresa financiou um fundo adicional de 250 mil dólares para bónus de desempenho dos atletas. Os pagamentos foram realizados em USD1, a stablecoin emitida pela World Liberty. O comunicado do UFC dizia que a marca WLFI seria exibida no octógono e integrada na transmissão do evento. (businesswire.com)
Uma empresa financeiramente ligada à família do Presidente promovia, assim, a sua moeda digital num espetáculo desportivo realizado na Casa Branca.
A Casa Branca rejeita a existência de conflitos de interesses. Trump afirmou, depois da publicação da declaração financeira, que não intervém na gestão do seu dinheiro e que instituições externas tomam as decisões de investimento. A Trump Organization também sustenta que o Presidente e a família não dirigem as transações individuais realizadas nas contas sob gestão discricionária. (reuters.com)
A execução das operações pode estar entregue a terceiros. O valor das empresas privadas ligadas à família presidencial continua, porém, exposto a um setor sobre o qual a administração define a política pública, a regulação e as prioridades estratégicas.
Sessenta e dois mil milhões de tokens à espera de um calendário
Em abril, a equipa da World Liberty apresentou uma proposta de governação para cerca de 62,3 mil milhões de $WLFI que continuavam bloqueados.
Não são 62 mil milhões de novos tokens. São tokens existentes sujeitos a restrições.
A proposta abrange 17 mil milhões pertencentes a apoiantes iniciais e 45,2 mil milhões atribuídos a fundadores, membros da equipa, consultores e parceiros. Para os primeiros, prevê um período inicial de dois anos sem desbloqueios, seguido de dois anos de libertação linear. Para os fundadores, membros da equipa, consultores e parceiros que adiram às novas condições, prevê a destruição imediata de 10% dos tokens bloqueados dessa categoria e um calendário que pode prolongar a distribuição dos restantes até ao quinto ano.
Quem não aceitar expressamente o novo regime mantém os tokens bloqueados por tempo indeterminado, conservando a capacidade de participar na governação, sujeita a futuras propostas. É o que estabelece a proposta da própria World Liberty. (governance.worldlibertyfinancial.com)
O $WLFI é apresentado como um instrumento de governação comunitária. A empresa conserva capacidades técnicas e contratuais que, segundo a defesa apresentada no caso Sun, lhe permitem congelar carteiras em determinadas circunstâncias.
Os titulares votam; as condições em que certos ativos podem mover-se continuam sob o controlo da estrutura.
O preço que os compradores conheceram depois
Os ativos ligados ao universo cripto de Trump sofreram uma forte queda desde os máximos.
O $TRUMP chegou perto dos 75 dólares antes da tomada de posse de janeiro de 2025. No início de julho de 2026, negociava por uma fração desse valor.
O $WLFI também perdeu cerca de 80% desde os máximos, segundo os valores de mercado citados em maio pelo Financial Times. (ft.com)
Nem todos os compradores perderam dinheiro. A data da compra, o preço de entrada e as operações posteriores alteram o resultado de cada posição.
As empresas ligadas ao universo empresarial de Trump receberam receitas de vendas, royalties e outras distribuições à medida que os ativos eram comprados e negociados. Quem adquiriu os tokens ficou exposto ao preço de mercado.
A declaração financeira publicada em junho regista centenas de milhões de dólares em rendimentos. As cotações mostram o que aconteceu depois ao valor de mercado dos ativos comprados.
Cronologia — Justin Sun e a World Liberty
- Novembro de 2024 — Justin Sun compra 30 milhões de dólares em $WLFI.
- Janeiro de 2025 — uma entidade ligada ao xeque Tahnoon bin Zayed acorda comprar 49% da World Liberty por 500 milhões de dólares, segundo o Wall Street Journal.
- Maio de 2025 — Sun participa no jantar de Trump como maior detentor público identificado do $TRUMP.
- Setembro de 2025 — a World Liberty congela tokens ligados a Sun.
- 5 de março de 2026 — a SEC anuncia a resolução do processo contra Sun e entidades ligadas à Tron; a Rainberry fica sujeita a uma sanção civil de dez milhões de dólares.
- 21 de abril de 2026 — Sun processa a World Liberty Financial num tribunal federal da Califórnia.
- 4 de maio de 2026 — a World Liberty apresenta uma ação separada por difamação contra Sun na Florida.
- 14 de junho de 2026 — a World Liberty participa como parceira oficial no UFC Freedom 250, nos terrenos da Casa Branca, e financia bónus pagos em USD1.
- 30 de junho de 2026 — é publicada a declaração financeira anual certificada de Donald Trump, com novecentas e vinte e sete páginas.
O jantar que continua a acontecer
O jantar da Virgínia durou uma noite. O modelo que o tornou possível permaneceu.
A marca presidencial continuou ligada a ativos digitais. A World Liberty passou dos tokens de governação para uma stablecoin, mercados de crédito e ofertas tokenizadas associadas a ativos reais. O dinheiro declarado por Trump dá a medida financeira dessa expansão. O litígio de Justin Sun mostra o que aconteceu quando a relação entre um dos maiores financiadores e a empresa se rompeu.
A World Liberty diz que aplicou regras aceites por Sun. Sun afirma que a empresa construiu uma armadilha e decidiu utilizá-la contra ele. Os tribunais decidirão as questões jurídicas.
Durante décadas, a proximidade com um Presidente americano organizou-se através de campanhas, doações, grupos de pressão e redes de influência. Esses mecanismos deixavam rastos institucionais conhecidos: nomes de doadores, registos, intermediários, regras de financiamento, declarações públicas.
A criptomoeda introduziu outra arquitetura. Compra-se um ativo negociável; as entidades ligadas ao projeto recebem receitas; uma carteira sobe na classificação e, em determinados casos, a pessoa por detrás dela ganha um lugar à mesa.
Justin Sun conseguiu o primeiro.
Um ano depois, descobriu que, nesta máquina em particular, ninguém sabe ao certo, antes de se sentar à mesa, de que lado do congelamento vai ficar.
Via: Reuters · The Wall Street Journal · Financial Times
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