Linha editorial: Análise · Geopolítica e Poder · Estados Unidos · A monetização da presidência através de criptomoeda
Trump, a World Liberty Financial e o litígio com Justin Sun
Em 2025, cerca de duzentos e vinte pessoas sentaram-se a jantar num clube de golfe pertencente a Donald Trump, na Virgínia. Não eram doadores de campanha, nem convidados de Estado. Eram os duzentos e vinte maiores detentores do $TRUMP, o memecoin lançado pelo Presidente dias antes da sua tomada de posse — um ativo digital sem participação em nenhuma empresa, sem direito a resgate, cuja única promessa aos compradores era um voto futuro e indefinido sobre o que a estrutura por detrás dele viria a fazer. Entre os presentes estava Justin Sun, o bilionário nascido na China que se tinha tornado, publicamente, o “maior fã” do Presidente.
Um ano depois, Sun processava a empresa da família Trump num tribunal federal. E a empresa de Trump processava Sun.
O essencial deste artigo
- Trump declarou 2,2 mil milhões de dólares em rendimentos de 2025, mais do triplo de 2024.
- Mais de 1,4 mil milhões desses rendimentos vieram da criptomoeda ligada à sua presidência.
- Justin Sun, o maior investidor privado nesses ativos, processa agora a World Liberty Financial.
- A empresa da família Trump contra-processou Sun por difamação.
- O token da World Liberty perdeu 81% do valor no último ano.
Uma fortuna que dobrou em cima de si própria
No início de julho, ao abrigo das regras de divulgação financeira presidencial, Trump apresentou o seu relatório relativo a 2025: novecentas e vinte e sete páginas, registando mais de 2,2 mil milhões de dólares em rendimentos — mais do triplo dos 622 milhões declarados em 2024. Mais de 1,4 mil milhões vieram diretamente da criptomoeda: cerca de 800 milhões ligados à World Liberty Financial, a plataforma fundada pelos filhos do Presidente em 2024, e mais de 600 milhões atribuídos à parceria que vende o $TRUMP.
A World Liberty Financial é, ao mesmo tempo, uma incorporadora imobiliária de luxo — prepara a tokenização de receitas de empréstimo do Trump International Hotel & Resort, nas Maldivas, em parceria com a Securitize — e um patrocinador desportivo: tornou-se a parceira oficial do UFC Freedom 250, evento realizado nos terrenos da Casa Branca a 14 de junho deste ano.
A pergunta que Sun forçou a fazer
A venda secreta de metade da participação na World Liberty Financial à família real dos Emirados Árabes Unidos, por 263 milhões de dólares, na véspera da tomada de posse, nunca foi divulgada na altura. Foi descoberta mais tarde pelo Wall Street Journal, e aparece registada no relatório de 2025 sob as rubricas vagas de “venda de capital próprio” e “contribuição de capital”, sem nomear a origem real do dinheiro.
O litígio entre Sun e a World Liberty Financial torna impossível evitar uma segunda pergunta: o que acontece quando uma estrutura construída para recompensar a lealdade tem de decidir, internamente, quem continua a merecer essa recompensa?
Sun tinha investido trinta milhões de dólares na World Liberty em novembro de 2024, ajudando a manter a plataforma viva numa altura em que as vendas do primeiro mês tinham gerado apenas vinte e dois milhões. Depois desse investimento inicial, outros compradores entraram, e a empresa acabou por angariar cerca de quinhentos e cinquenta milhões de dólares. Sun investiu mais quarenta e cinco milhões em tokens da própria World Liberty, e duzentos milhões no $TRUMP.
A armadilha oculta no contrato
Segundo o processo que Sun apresentou a 21 de abril de 2026, num tribunal federal da Califórnia, a World Liberty Financial alterou silenciosamente o contrato inteligente que regia os seus tokens, dando a si própria o poder de bloquear transferências — pouco antes da data prevista para o desbloqueio, a 1 de setembro de 2025. Sun alega ter descoberto, através de investigação própria, que os endereços detentores de tokens tinham sido divididos em pelo menos dezanove categorias sujeitas a restrições diferentes. O seu era o único endereço colocado numa categoria de bloqueio total.
A World Liberty nega qualquer irregularidade, e sustenta que o poder de congelamento estava sempre previsto nos termos de venda que Sun assinou. A 4 de maio, contra-processou-o por difamação num tribunal da Florida, acusando-o de ter ameaçado, através dos seus advogados, “pôr a World Liberty a arder” — e de ter lançado, depois de a empresa recusar ceder a essa ameaça, uma campanha pública para a desacreditar junto dos quase quatro milhões de seguidores que tem nas redes sociais. A empresa contratou Tom Clare, advogado que já representou Johnny Depp e Brigitte Macron em processos de difamação. Sun respondeu na mesma rede social, chamando ao processo “um golpe de relações públicas sem mérito nenhum”.
Os dois processos correm agora em paralelo, em dois tribunais diferentes, sem previsão de desfecho.
O que aconteceu entretanto ao resto da máquina
Em março de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos abandonou o processo civil que mantinha contra Sun desde 2023, por manipulação de mercado através de negociação simulada — em troca de uma multa de dez milhões de dólares, paga por uma das empresas de Sun, sem admissão de culpa. Meses antes, Trump tinha perdoado Changpeng Zhao, fundador da Binance, condenado por violar as leis de combate ao branqueamento de capitais; parte dos lucros da World Liberty veio, entretanto, de uma parceria com a própria Binance.
O relatório de 2025 regista ainda mais de oitenta milhões de dólares obtidos por Trump ao resolver processos civis que ele próprio tinha movido contra grandes empresas de comunicação social. E, segundo cálculos do grupo de vigilância Citizens for Responsibility and Ethics in Washington, mais de cento e dezassete milhões vieram de negócios fora dos Estados Unidos, sobretudo desenvolvimento imobiliário nas monarquias do Golfo Pérsico — mais do triplo da média anual do primeiro mandato. O relatório já está desatualizado: não inclui a oferta de um Boeing 747 avaliado em quatrocentos milhões de dólares, dada pelo Emir do Qatar, e que Trump revelou como o seu novo avião presidencial.
O preço que os crentes pagaram
O token da World Liberty perdeu cerca de oitenta e um por cento do seu valor no último ano, negociando agora a cerca de seis cêntimos. Só desde o desbloqueio de setembro, caiu mais de vinte e cinco por cento. O $TRUMP, que chegou a valer quase setenta e cinco dólares antes da tomada de posse, vale hoje pouco mais de um dólar e setenta cêntimos.
Nenhum desses números afeta o património de Trump da forma como afeta o de quem comprou depois dele — os investidores que os seus próprios filhos, em discursos públicos, incentivaram repetidamente a “comprar o máximo que pudessem”. Foram esses investidores, não a família Trump, que financiaram a fortuna registada no relatório de julho.
Cronologia — o caso Sun/World Liberty
- Novembro de 2024 — Sun investe 30 milhões de dólares na World Liberty.
- 2024 — World Liberty Financial é fundada pelos filhos de Trump.
- 1 de Setembro de 2025 — Data prevista para o desbloqueio dos tokens.
- Março de 2026 — SEC abandona o processo contra Sun, mediante multa de 10 milhões.
- 21 de Abril de 2026 — Sun processa a World Liberty Financial na Califórnia.
- 4 de Maio de 2026 — World Liberty contra-processa Sun por difamação, na Florida.
- 14 de Junho de 2026 — World Liberty patrocina evento do UFC na Casa Branca.
- Início de Julho de 2026 — Trump divulga relatório financeiro de 2025.
O jantar que continua a acontecer
A World Liberty Financial não abrandou depois dos dois processos. Continua a preparar a tokenização do hotel nas Maldivas. Continua associada ao UFC nos relvados da Casa Branca. Está a propor, segundo documentos recentes, o desbloqueio de sessenta e dois mil milhões de tokens adicionais ao longo dos próximos cinco anos, mais liquidez a entrar num mercado onde o preço já caiu oitenta e um por cento desde o pico.
A história de Justin Sun mostra apenas que, nesta máquina em particular, ninguém sabe ao certo, antes de se sentar à mesa, de que lado do congelamento vai ficar.
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