Linha editorial: Opinião · Dinâmicas de Poder · América Latina / Europa · O preço que ninguém orçamenta no “modelo Bukele” · Elian Morvane
O que ninguém perguntou antes de votar no modelo Bukele
Não gosto de escrever sobre as coisas óbvias, e há uma tentação óbvia neste tema: dizer que as prisões superlotadas resolvem problemas de segurança e ponto final. Não é essa a minha opinião. A minha opinião é mais incómoda: a Colômbia e o Peru não elegeram, nestas últimas semanas, dois presidentes de mão firme contra o crime. Elegeram dois presidentes que prometeram construir uma coisa concreta — sete megaprisões, de um lado; quatro penitenciárias e uma megaprisão “como o Cecot”, do outro — sem que o eleitorado, em nenhum dos dois países, tenha sido convidado a votar no resto do pacote que normalmente acompanha essa promessa.
E há sempre um resto do pacote. Foi a diretora para as Américas da Human Rights Watch, Juanita Goebertus, quem o disse com a mais clareza à BBC: o “modelo Bukele” não se baseia apenas nas prisões em massa — traz também concentração de poder, debilitação da supervisão judicial, dezenas de milhares de pessoas detidas sem processo devido e, segundo as denúncias, acordos secretos com gangues. Ninguém fez campanha, nem em Bogotá nem em Lima, com esse parágrafo completo no cartaz eleitoral.
As margens que deviam ter assustado toda a gente
Abelardo de la Espriella foi declarado presidente eleito da Colômbia a 24 de junho, com 49,66% contra os 48,70% de Iván Cepada — 0,95 pontos percentuais de diferença, a segunda volta mais renhida desde que esse mecanismo existe no país, em 1994. Toma posse a 7 de agosto, com o apoio público de Donald Trump. No Peru, Keiko Fujimori venceu à quarta tentativa da sua carreira, com uma margem de 49.641 votos — menos de meio ponto percentual sobre Roberto Sánchez —, a eleição mais renhida da história política recente peruana. A apuração fechou a 100% a 28 de junho; a cerimónia de entrega de credenciais está marcada para 15 de julho.
Duas margens deste tamanho, em qualquer outro tema de política pública, seriam tratadas como sinal de que o país está profundamente dividido sobre o que fazer. Aqui, curiosamente, ninguém trata assim.
O que a Wolf disse, e porque acho que tem razão
A investigadora Sonja Wolf, da Universidade Panamericana da Cidade do México, autora do livro Mano Dura, deu uma entrevista à BBC News Mundo que diz uma coisa que a maior parte da cobertura sobre este tema evita dizer com todas as letras: “É preciso tomar cuidado quando se fala em ‘modelo Bukele’ porque, na verdade, não se trata de um modelo. Mas convém a Bukele que ele receba este nome e se propague para outros países.” Concordo inteiramente. Um “modelo” sugere algo replicável, testado, com condições conhecidas de sucesso. O que El Salvador tem é uma combinação muito específica de factores — território pequeno, gangues com uma estrutura hierárquica identificável, disposição de um presidente para concentrar poder sem freio constitucional relevante — que não existe da mesma forma em nenhum outro lugar da região. Chamar-lhe “modelo” é já, por si só, um argumento político, não uma descrição neutra.
Wolf descreve o regime salvadorenho como uma “autocracia eleitoral”. Jordan Bardella, presidente do Reagrupamento Nacional francês, disse à BFMTV: “Num país de seis milhões de habitantes, Bukele construiu quarenta mil vagas carcerárias em oito meses.” É um facto verdadeiro. Não é a frase toda.
Os dois países que já pagaram o preço e não receberam o produto
O que mais me irrita neste debate é que já temos dois exemplos concretos de países que pagaram o custo institucional do “modelo Bukele” sem receber, em troca, a segurança que o justificava. O Equador, desde 2023, sob o presidente Daniel Noboa, declarou um “conflito armado interno”, militarizou a segurança, encheu as prisões, anunciou novas megaprisões — e a taxa de homicídios não caiu. Subiu: de oito por cem mil habitantes em 2020 para quarenta e cinco em 2023, e cinquenta e um em 2025, o ano mais violento da história recente do país. As Honduras de Xiomara Castro seguiram a receita parecida — estados de exceção, militarização — e ficaram, em 2025, com uma taxa de homicídios de vinte e três por cem mil, sem a queda espetacular que tornou El Salvador famoso.
A parte visível do modelo — prisões, tropas na rua, declarações marciais — é fácil de copiar. A parte que produziu de facto a queda da criminalidade em El Salvador não se copia por decreto.
O que acho que a Colômbia e o Peru deviam ter perguntado antes de votar
Não escrevo isto para dizer que a insegurança na Colômbia e no Peru não é real — é, e os eleitores têm todo o direito de a colocar no centro do seu voto. Escrevo para dizer que a pergunta que devia ter sido feita não era “queres mais prisões?” — a resposta a essa pergunta é quase sempre sim, em qualquer país com criminalidade elevada. A pergunta devia ter sido a que a Goebertus coloca: querem também menos supervisão judicial, mais detenções sem processo devido, e um sistema onde a legitimidade do presidente depende cada vez mais de mostrar força e cada vez menos de respeitar contrapesos institucionais? Essa segunda pergunta nunca chegou a ser feita com a mesma clareza — nem em Bogotá, nem em Lima.
O regime de exceção salvadorenho está em vigor desde março de 2022. A Human Rights Watch e a organização Cristosal continuam, mais de quatro anos depois, a documentar tortura e maus-tratos no Cecot — não como incidentes isolados, escrevem as duas organizações em relatório conjunto, mas como violações sistemáticas, repetidas ao longo de toda a detenção. É essa frase, mais do que qualquer número de vagas carcerárias construídas em oito meses, que devia ter estado no centro do debate eleitoral colombiano e peruano. Não esteve.
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