O que pode o Congresso travar a Trump?

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A conquista do Senado acrescentaria uma capacidade que a Câmara dos Representantes não possui: intervir na confirmação de numerosas nomeações presidenciais.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Uma mudança de maioria pode bloquear leis, condicionar o financiamento e reforçar as investigações. O alcance depende da câmara conquistada, dos votos disponíveis e dos poderes que continuam na Presidência.

O resultado das eleições norte-americanas de novembro pode alterar a relação entre o Congresso e Trump. Mas a mudança parlamentar não acontece na noite da votação. A Constituição fixa o início dos novos mandatos dos representantes e senadores em 3 de janeiro. Até lá, continuam em funções os eleitos do Congresso cessante. Uma eventual vitória democrata produziria, portanto, dois momentos distintos: o resultado político de novembro de 2026 e a transferência dos poderes parlamentares em janeiro de 2027.

Nas eleições intercalares de 2026 estão em disputa todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes e uma parte dos lugares do Senado. A Presidência não vai a votos. Essa separação permite que os eleitores alterem a composição do poder legislativo sem substituir quem dirige o executivo.

Que decisões de Trump poderia uma maioria democrata travar numa só câmara e quais exigiriam mais votos ou o acordo de outras instituições?

Uma câmara pode impedir uma lei

A legislação federal tem, em regra, de ser aprovada pelas duas câmaras antes de ser apresentada ao Presidente. Isso dá a uma oposição que controle apenas a Câmara dos Representantes ou apenas o Senado capacidade para impedir a aprovação de novos projetos que dependam desse percurso. O controlo das duas câmaras permite aprovar legislação no Congresso, mas permanece a intervenção presidencial.

Uma maioria democrata poderia recusar uma proposta apoiada por Trump. Para estabelecer uma política diferente por lei, teria de obter a aprovação das duas câmaras e enfrentar a possibilidade de veto. Ultrapassá-lo exige os votos de dois terços dos membros presentes e votantes em cada uma, desde que exista quórum. Uma vitória eleitoral que entregue maiorias simples aos democratas não lhes daria, por si só, votos suficientes para vencer essa resistência.

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Na legislação sujeita ao procedimento habitual no Senado, encerrar a obstrução parlamentar exige três quintos dos senadores devidamente eleitos e empossados, normalmente 60 votos. Existem procedimentos com regras diferentes, pelo que esse número não constitui um requisito universal de aprovação. Ainda assim, ajuda a perceber por que razão controlar o Senado não equivale a conseguir aprovar todo um programa legislativo.

Primeira página da Constituição dos Estados Unidos, com o artigo I sobre o Congresso
Primeira página da Constituição de 1787, com o início do artigo I, relativo ao Congresso. Reprodução do documento original. Crédito: National Archives. Domínio público.

Congresso e Trump: o financiamento obriga a negociar

O Congresso dispõe de outro instrumento: a aprovação de verbas para o funcionamento do Estado e para os programas federais. O Presidente apresenta prioridades orçamentais, mas cabe ao Congresso aprovar as dotações que permitem à Administração assumir compromissos e realizar pagamentos. A execução da despesa cabe ao executivo, dentro dos limites legais. Uma mudança de maioria pode, por isso, alterar as condições em que são negociados os financiamentos seguintes.

Uma câmara não consegue transformar sozinha as suas preferências numa lei de financiamento. A necessidade de acordo entre instituições mantém-se, e o fracasso das negociações pode produzir uma interrupção das dotações orçamentais. Quando as dotações expiram sem que tenha entrado em vigor outra lei que assegure a continuidade do financiamento, ocorre o chamado shutdown, a paralisação das atividades federais afetadas pela falta de financiamento, com exceções previstas na lei.

A legislação de controlo da retenção de fundos estabelece um procedimento para o Presidente propor ao Congresso o cancelamento de verbas. A apresentação dessa proposta não equivale à sua aprovação parlamentar.

Em 25 de setembro de 2026, Trump propôs cancelamentos em 11 contas orçamentais, acompanhados da retenção dos montantes em causa. Numa decisão de 29 de setembro, o Government Accountability Office, organismo de fiscalização que apoia o Congresso, concluiu que esse procedimento não autorizava a Administração a manter os fundos retidos para além do prazo de validade das dotações. Segundo o organismo, o Presidente não pode provocar a expiração de uma autorização de despesa que o Congresso aprovou e não cancelou.

Sessão histórica da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos em 1890
A Câmara dos Representantes em 19 de setembro de 1890. As leis de financiamento dependem da aprovação das duas câmaras e da intervenção presidencial. Fotografia histórica: C. M. Bell / Library of Congress. Domínio público.

Investigar não depende de aprovar uma nova lei

As comissões parlamentares fiscalizam organismos, programas e atividades dentro das respetivas competências. A investigação é uma função própria do Congresso, associada ao exercício dos seus poderes legislativos. Pode incluir audições, pedidos de documentos e intimações para prestar depoimento ou entregar informação.

Nesta área, uma só câmara dispõe de instrumentos relevantes. Não precisa de obter a aprovação da outra nem a assinatura presidencial para exercer os seus poderes de investigação.

O executivo pode invocar a confidencialidade de determinadas comunicações e contestar o pedido. A exigência de cumprimento pode dar origem a negociações e a processos judiciais.

Por isso, o reforço da fiscalização pode ter efeitos diferentes ao longo do tempo. Uma audição permite questionar publicamente responsáveis; a obtenção de documentos contestados pode exigir um percurso mais demorado.

Capitólio em Washington, sede do Congresso dos Estados Unidos
O Capitólio em Washington, em 20 de janeiro de 2021. Cada câmara dispõe de poderes de investigação próprios, sujeitos a limites constitucionais. Fotografia de arquivo: Amanda Bodony / U.S. Air National Guard, DVIDS. Domínio público. A utilização não implica apoio institucional ao Arcana News.

O Senado decide sobre nomeações

A conquista do Senado acrescentaria uma capacidade que a Câmara dos Representantes não possui: intervir na confirmação de numerosas nomeações presidenciais.

O Presidente propõe os juízes federais e os titulares de determinados cargos superiores do executivo, entre outros responsáveis. Cabe ao Senado prestar o consentimento necessário às nomeações abrangidas por esse procedimento. Os candidatos podem ser confirmados, rejeitados ou ficar sem decisão.

Uma maioria democrata no Senado poderia, portanto, condicionar a escolha de responsáveis para esses lugares. Se os democratas conquistassem apenas a Câmara dos Representantes, esse poder continuaria fora do seu alcance.

As nomeações também seguem regras diferentes das aplicadas a grande parte da legislação. Os precedentes adotados pelo Senado permitem encerrar o debate sobre nomeações por maioria simples. A barreira habitual dos 60 votos na legislação não se aplica da mesma forma a essas decisões.

O efeito concentra-se nas escolhas que ainda tenham de passar pelo Senado. Uma alteração da maioria não abre automaticamente uma nova votação sobre todos os titulares anteriormente confirmados.

As ordens executivas não desaparecem com a eleição

Trump conservaria a Presidência e os poderes que lhe correspondem. As ordens executivas são um dos instrumentos através dos quais um Presidente dirige a Administração. A sua autoridade tem de assentar na Constituição ou numa competência concedida por lei; a designação de ordem executiva não cria, por si só, um poder ilimitado.

O Congresso pode aprovar legislação para contrariar determinadas ordens ou alterar a competência legal em que assentam. Contudo, volta a encontrar o percurso legislativo: aprovação nas duas câmaras e apresentação ao Presidente, com possibilidade de veto. Além disso, não pode retirar por lei um poder que a Constituição atribua exclusivamente ao Presidente.

Segunda página da Constituição dos Estados Unidos com disposições sobre o poder presidencial
Segunda página da Constituição de 1787, que inclui o início do artigo II, relativo à Presidência. A divisão de competências condiciona a relação entre o Congresso e Trump. Crédito: National Archives. Domínio público.

Assim, a eleição de uma maioria oposicionista não revoga em conjunto as decisões presidenciais anteriores. Na relação entre o Congresso e Trump, cada medida exige examinar a sua base jurídica e o instrumento disponível para a modificar.

Também não destitui o Presidente. O processo de impeachment separa a acusação, aprovada por maioria simples na Câmara dos Representantes, do julgamento no Senado. A condenação que determina o afastamento exige dois terços dos senadores presentes.

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