Alex Pretti e Renée Good: Duas Mortes em Minneapolis

Um enfermeiro de cuidados intensivos e uma mãe de três filhos. Duas mortes em Minneapolis, com dezassete dias de intervalo, nas mesmas operações de aplicação da lei — e o risco de ficarem reduzidos a estatística.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Linha editorial: Revista · Humanas · Estados Unidos · O nome antes do número

Alex Pretti trabalhava numa unidade de cuidados intensivos. Passava os dias — e muitas noites — junto de corpos em estado crítico, a decidir, em segundos, o que podia salvar uma vida e o que já não podia. Não sabemos o que o levou, num dia de janeiro, a filmar com o telemóvel uma operação policial na rua onde vivia. Foi dominado no chão por vários agentes. Perderam a arma que trazia, legalmente, consigo. Morreu poucos minutos depois.

Renée Good era mãe de três filhos. Dezassete dias antes de Pretti, foi morta a tiro por um agente federal, também em Minneapolis, também durante uma operação de aplicação da lei de imigração. Não sabemos os nomes dos três filhos, nem que idade têm, nem quem lhes vai explicar, daqui a dez anos, o que aconteceu à mãe deles numa rua da sua própria cidade.

Alex Pretti e Renée Good: Duas Mortes em Minneapolis

É tentador escrever sobre estes dois nomes como prova de qualquer coisa maior: uma tese sobre o Estado, sobre os limites da força, sobre o que acontece quando a autoridade deixa de se explicar. Esse texto já foi escrito — no Arcana News, em «A chamada que abriu uma falha na justiça federal nos EUA» — e continuará a ser preciso escrevê-lo. Mas há um risco nessa operação: transformar duas vidas inteiras em ilustração de um argumento. Good e Pretti deixam de ser, nesse género de texto, pessoas com uma biografia própria, e passam a ser dados de apoio — números com nome, mas já não exatamente pessoas.

Alex Pretti não passou a vida a preparar-se para morrer numa rua, filmando um acontecimento que julgava dever documentar. Passou a vida a aprender a manter outras pessoas vivas. Renée Good não passou a vida a preparar-se para se tornar um símbolo de coisa nenhuma. Passou a vida, presumivelmente, a fazer o que a maior parte das mães faz: acordar cedo, resolver problemas pequenos e grandes, estar presente. Nenhuma das duas escolheu o dia em que a sua biografia se cruzou com um acontecimento maior do que ela própria.

Multidão reunida numa vigília noturna por Renée Good em Minneapolis
Vigília por Renée Good em South Minneapolis, no dia em que foi morta por um agente do ICE. O memorial público devolveu um rosto coletivo a uma vida que rapidamente se tornou matéria de disputa institucional. Fotografia: Chad Davis/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

A dignidade de não ser reduzido a um facto

Há uma diferença moral entre lembrar alguém pelo que fez com a sua vida e lembrá-lo apenas pelo modo como essa vida terminou. As instituições — os tribunais, os relatórios, a imprensa, e sim, também os ensaios como este — tendem para a segunda opção, porque é a que se pode documentar, citar, verificar. A primeira exige memória, testemunho, o tipo de conhecimento que só quem amou uma pessoa possui de facto, e que raramente chega a quem escreve de fora.

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Não temos acesso a essa memória mais funda de Good e de Pretti. Só temos os factos que as tornaram, contra a sua vontade, matéria pública: o que faziam, onde estavam, como morreram. É pouco, e é ao mesmo tempo o suficiente para nos obrigar a uma pausa antes de qualquer análise mais ampla — porque nenhuma reflexão sobre legitimidade institucional deveria começar sem esse instante de reconhecimento simples: aqui esteve uma pessoa inteira, com um nome, uma profissão, uma família, muito antes de se tornar um caso.

Velas acesas e cartazes no memorial de Alex Pretti em Minneapolis
Velas e cartazes no memorial de Alex Pretti, em Minneapolis, poucas horas depois de ter sido morto por agentes federais. A homenagem recorda o enfermeiro antes de o caso o reduzir a um número ou a uma narrativa política. Fotografia: Chad Davis/Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

O que resta, quando o resto se esquece

Os casos institucionais têm uma vida própria: geram inquéritos, processos, estatísticas comparadas, memória coletiva que se vai gastando com o tempo. Dentro de alguns anos, é provável que os nomes de Alex Pretti e Renée Good sobrevivam sobretudo em bases de dados, em listas de incidentes, em notas de rodapé de trabalhos sobre políticas de imigração de uma determinada década americana.

Talvez seja essa a única coisa que ainda podemos fazer por eles, nós que os não conhecemos e que só chegámos até eles através do que aconteceu no fim: escrever os seus nomes antes do número. Dizer que um era enfermeiro, e a outra mãe. Dizer que ambos tinham, até um determinado dia de janeiro, exatamente o mesmo direito que qualquer um de nós tem — o de continuar a ser uma pessoa comum, e não um argumento.

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