A 15 de setembro de 2020, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos assinaram os Acordos de Abraão com Israel na Casa Branca. Na fotografia da cerimónia, os representantes dos quatro países surgem alinhados diante das bandeiras. Washington apresentava a aproximação entre Israel e os Estados árabes como parte de uma nova ordem regional, protegida pelo poder militar americano.
Em agosto de 2026, os petroleiros pararam no Estreito de Ormuz, cuja abertura os Estados Unidos prometem assegurar desde 1991. Na mesma altura, as bases americanas no Bahrein e nos Emirados tinham pistas inutilizadas e radares fora de serviço. Os mísseis que as atingiram foram disparados pelo Irão em resposta a uma guerra iniciada por Washington sem consulta prévia aos países que essas bases deveriam proteger. Entre os Estados do Golfo, os dois signatários árabes dos Acordos de Abraão receberam a maior concentração de ataques.
Durante 35 anos, a presença americana prometera aos aliados do Golfo duas formas de segurança: impedir ataques contra o seu território e dispensá-los de negociar diretamente com Teerão. Em 2026, as bases não evitaram os ataques. Os países que as acolhiam ficaram expostos às consequências de uma decisão militar que não tinham tomado.
O que sustentava os Acordos de Abraão
A ordem nascera da Guerra do Golfo de 1990-91, quando uma coligação liderada pelos Estados Unidos expulsou o Iraque do Kuwait. Washington instalou bases para conter primeiro Bagdade e depois Teerão. O processo de paz árabe-israelita desenvolveu-se ao lado dessa arquitetura militar, não como condição para que ela existisse. A força americana garantia a estabilidade externa; os regimes aliados preservavam uma ampla margem de ação interna e regional.
Em 2017, os Emirados e a Arábia Saudita bloquearam o Qatar, dividindo a frente árabe que a Casa Branca pretendia unir contra o Irão. Durante a década anterior, os mesmos regimes tinham intervindo no Sudão, na Síria, no Iémen e na Líbia sem grande preocupação com os objetivos proclamados por Washington. Quase todos se opuseram ao acordo nuclear de 2015.
A garantia americana protegia-os de ameaças externas e dava-lhes espaço para enfrentar as internas. Com a breve exceção das revoltas de 2010-11, os regimes atravessaram a instabilidade regional e saíram dela com o controlo reforçado. Cada aliado podia prosseguir os seus próprios interesses, mesmo quando estes colidiam com os dos restantes membros da arquitetura americana.
A garantia concedida a Israel era particularmente sólida. Essa segurança permitiu que sucessivos governos adiassem uma resposta à questão palestiniana, subordinando-a às necessidades da sobrevivência política interna. A ocupação e as intervenções militares estenderam-se, em diferentes momentos, ao Líbano, à Síria, à Cisjordânia e à Faixa de Gaza. O ataque de 7 de outubro interrompeu essa acomodação e abriu caminho à escalada seguinte.
Os primeiros limites da proteção americana
Em 2019, um ataque atribuído ao Irão atingiu refinarias sauditas sem provocar uma resposta americana à altura das expectativas de Riade. Em 2022, drones Houthis alcançaram Abu Dhabi. As bases permaneceram, os acordos de defesa continuaram e as alianças sobreviveram aos dois episódios. Ficara, contudo, demonstrado que a presença dos Estados Unidos não obrigava Washington a responder a qualquer ataque nos termos esperados pelos aliados.
Em janeiro de 2026, a Arábia Saudita conduziu a saída de um dirigente separatista apoiado pelos Emirados do governo de Adem e acusou Abu Dhabi de fomentar o secessionismo no Iémen. As duas capitais divergiam também sobre a Síria pós-Assad.
Nos meses seguintes, Riade aprofundou as relações de defesa com o Paquistão e a Turquia e reforçou a coordenação com o Egito e o Qatar. Vários analistas interpretaram estes movimentos como um contrapeso ao eixo que aproximava os Emirados de Israel. A frente comum contra o Irão já não correspondia às alianças que se estavam a formar na região.
A guerra chegou às bases
Quando a guerra começou, no final de fevereiro de 2026, Omã mediava havia meses um entendimento entre Washington e Teerão. Os Estados do Golfo tinham-se oposto ao ataque nos bastidores, mas só souberam da decisão depois de ela ter sido tomada.
O Irão lançou mísseis contra vários países da região. Entre os atingidos estavam Omã e o Qatar, que até então desempenhavam funções de mediação. A maior concentração de ataques recaiu sobre o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos, os dois Estados que tinham assinado os Acordos de Abraão em 2020. Em poucas semanas, várias pistas ficaram inutilizáveis e vários radares deixaram de funcionar.

A aproximação a Israel e a presença militar americana não impediram a retaliação. Para Teerão, o Bahrein e os Emirados ocupavam um lugar identificável no dispositivo regional dos Estados Unidos. A escolha dos alvos tornou esse lugar visível.
A campanha aérea não removeu o regime iraniano. Teerão sobreviveu apoiado numa estratégia construída ao longo de anos de sanções que esvaziaram a economia sem desarmar o país. A rede de aliados não estatais continuou a encontrar espaço nos vazios de autoridade da região. Mísseis e drones relativamente baratos bastaram para saturar sistemas defensivos concebidos para enfrentar ameaças muito mais caras.
Washington construíra uma rede de bases, radares e alianças capaz de desencorajar um ataque em grande escala. O Irão distribuiu os lançamentos por vários pontos, multiplicou os alvos possíveis e aumentou o custo de proteger simultaneamente todos os aliados.
Em março de 2026, Israel atacou depósitos de combustível no Irão, provocando incêndios que cobriram Teerão de fumo tóxico. Três meses depois, os Estados Unidos bombardearam instalações iranianas de tratamento de água, um tipo de alvo pouco comum nos conflitos anteriores da região.
O Irão não respondeu com ataques diretos contra infraestruturas civis equivalentes no Golfo. Mas os aliados americanos tinham entrado numa guerra sem participar na decisão. Nenhum deles sabia que alvos seriam escolhidos numa escalada posterior.
A fotografia do desembarque britânico em Port Said, durante a crise do Suez de 1956, reapareceu nas comparações com o Golfo. As circunstâncias são diferentes. A imagem regista, porém, uma potência ainda capaz de mobilizar forças numa região em que já não conseguia determinar sozinha o curso dos acontecimentos.

A Grã-Bretanha conservou forças, aliados e interesses depois do Suez. A crise revelou os limites políticos desse poder. Os Estados Unidos conservam no Golfo bases, armamento e capacidade de ataque. Em 2026, usaram essa capacidade sem obter o apoio dos países aliados e sem os poupar à resposta iraniana.
Os Acordos de Abraão assentavam na expectativa de que a aproximação a Israel, dentro de uma arquitetura garantida pelos Estados Unidos, reduziria o risco para os países árabes participantes. Quando Washington atacou sem os consultar, a posição desses Estados dentro da arquitetura americana deixou-os expostos à retaliação.
Os governos do Golfo começaram então a avaliar entendimentos diretos com Teerão. Durante décadas, a proteção americana tornara essas negociações menos necessárias. Agora, teriam de servir para limitar riscos que Washington já não conseguia controlar.
A garantia estabelecida em 1991 deveria impedir que as bases americanas fossem incapazes de proteger o território e que os petroleiros ficassem imobilizados no Estreito de Ormuz. Em agosto de 2026, as duas coisas aconteceram no mesmo mês. Os aliados do Golfo passaram a ter de procurar diretamente no Irão parte da segurança que as bases americanas já não lhes asseguravam.
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