Arábia Saudita e hutis expõem duas falhas de segurança
O ataque ao oleoduto East-West e o avanço huti junto de Bab al-Mandab retiraram a Riade as duas garantias em que assentava a resposta à crise: uma rota alternativa para o petróleo e o apoio militar dos Estados Unidos.
A Arábia Saudita preparou uma redundância para o petróleo e outra para a segurança. Nesta crise, descobriu que nenhuma das duas estava inteiramente sob o seu controlo.
Arábia Saudita e hutis voltaram a medir forças numa semana em que um petroleiro saudita foi atingido no estreito de Ormuz, com dois mortos, e o oleoduto que permitia levar petróleo até ao Mar Vermelho sem passar pelo estreito foi encerrado depois de um ataque de drones lançados do Iraque.
A sul, os hutis mantêm o bloqueio aos carregamentos sauditas no Mar Vermelho e conquistam território junto de uma das principais rotas de navegação mundial. De Washington chega, entretanto, outra mensagem: os hutis não querem combater os Estados Unidos. O problema, na leitura transmitida pela administração americana, é com a Arábia Saudita.
Nos primeiros meses da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão, a Arábia Saudita tinha sido relativamente poupada pelos ataques de retaliação quando comparada com alguns dos seus vizinhos. Isso mudou. Com as hostilidades sem fim à vista e Teerão à procura de maior alavanca sobre Washington, o reino passou a estar muito mais exposto.
Três frentes cercam a Arábia Saudita
Em duas semanas, essa exposição apareceu em três frentes. A leste, no estreito de Ormuz. A sul, no Mar Vermelho, onde os hutis avançaram sobre território controlado por forças iemenitas apoiadas por Riade. A norte, o ataque ao oleoduto East-West obrigou ao encerramento temporário da infraestrutura que se tornara essencial para contornar Ormuz.

O oleoduto atravessa a Península Arábica e liga a região petrolífera oriental ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. A Arábia Saudita aumentara a sua utilização precisamente porque o tráfego de petroleiros em Ormuz tinha sido severamente reduzido pela guerra. A Agência Internacional de Energia identifica o sistema Abqaiq–Yanbu como uma das poucas alternativas operacionais ao estreito.
Quando essa alternativa foi atingida, os hutis reforçavam ao mesmo tempo a sua posição junto de Bab al-Mandab, na outra extremidade da rota para o Mar Vermelho. A redundância existia para impedir que o bloqueio de um estreito estrangulasse as exportações sauditas. Deixou de oferecer essa segurança quando a rota alternativa passou também a estar sob ameaça.
A segunda redundância estava em Washington
Havia outra redundância, construída durante anos em Washington. Mohammed bin Salman investiu milhares de milhões de dólares e uma quantidade considerável de capital político na relação com Donald Trump e com a sua família. Ao mesmo tempo, Riade aprofundou uma parceria de segurança com os Estados Unidos concebida, entre outras coisas, para proteger o reino perante ameaças externas graves.

A ameaça chegou. Na semana passada, a Arábia Saudita procurou apoio americano para uma ação militar contra os hutis. Esse apoio militar não avançou.
Washington já combate o Irão numa guerra sem desfecho definido. A Marinha americana está sob pressão e as reservas de algumas munições diminuíram. Abrir outra frente no Iémen significaria acrescentar uma campanha militar a um dispositivo que já opera sob forte exigência.
A posição americana ganhou uma formulação ainda mais clara durante uma deslocação à Irlanda. Foi transmitido que os hutis tinham entrado em contacto para dizer que não pretendiam combater os Estados Unidos e que o seu diferendo era com a Arábia Saudita.
Os hutis negaram essa versão. Disseram não ter feito essa comunicação nem pedido aos Estados Unidos que deixassem de os atacar. A divergência importa porque muda a natureza do problema que Washington aceita como seu. É nesse ponto que a disputa entre Arábia Saudita e hutis deixa de ser automaticamente tratada como uma ameaça direta aos Estados Unidos.
Arábia Saudita e hutis: um conflito que Washington separa
Se o confronto for tratado como uma disputa entre os hutis e a Arábia Saudita, a pressão sobre Riade deixa de exigir automaticamente uma resposta militar americana, mesmo quando a força que a exerce é apoiada pelo Irão.
A Arábia Saudita conhece o custo de tentar resolver o problema sozinha. A campanha militar que liderou no Iémen a partir de 2015 prolongou-se durante anos sem eliminar o poder dos hutis e deixou o reino preso a uma guerra que não conseguiu vencer.

Riade não mostra vontade de repetir essa experiência sem apoio internacional. A procura desse apoio ocorre agora quando os hutis voltam a avançar no terreno, atacam alvos sauditas e ameaçam as rotas que ganharam importância depois do bloqueio de Ormuz. A Associated Press confirmou que o oleoduto atingido deverá permanecer condicionado durante semanas.
O Arcana News analisou já esta progressão em «Iémen regressa à guerra e ameaça as rotas do petróleo». O que agora se torna mais claro é a coincidência entre o avanço no terreno e a redução da margem política de Riade.
A via diplomática também se estreitou
A alternativa diplomática também está estreita. Uma reunião entre responsáveis do Irão, da Arábia Saudita e de outros países do Golfo foi adiada quando as diferenças entre as partes continuavam por resolver. Ao mesmo tempo, Washington mantém apoio de informações, mas evita assumir uma nova campanha militar no Iémen.
A China permanece uma possibilidade diplomática. Foi Pequim que intermediou a reaproximação entre Riade e Teerão em 2023, mas essa aproximação não produziu uma arquitetura capaz de impedir a crise atual. Para a Arábia Saudita, procurar novamente uma mediação significa negociar numa posição diferente daquela que esperava ter construído através da relação com Washington.
É essa diferença que os acontecimentos das últimas semanas expõem. A relação entre Arábia Saudita e hutis tornou-se, para Washington, uma crise a conter sem assumir como guerra própria.
Duas garantias que Riade não controlava
Quando Ormuz deixou de funcionar como antes, Riade tinha uma alternativa física: enviar petróleo para oeste através do país e exportá-lo pelo Mar Vermelho. Essa alternativa foi atingida enquanto os hutis reforçavam a sua capacidade de ameaçar a saída meridional do próprio Mar Vermelho.
Quando a pressão militar aumentou, Riade tinha também uma alternativa política: a parceria de segurança cultivada durante anos com Washington. Pediu apoio militar e não o obteve.
Arábia Saudita e hutis estão agora ligados por uma crise que atinge simultaneamente a energia, a navegação e a credibilidade da proteção americana. A Arábia Saudita preparou uma redundância para o petróleo e outra para a segurança. Nesta crise, descobriu que nenhuma das duas estava inteiramente sob o seu controlo.
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