ANÁLISE · Geopolítica e Poder · EUA/Ocidente · Palantir.
Alex Karp passou anos a apresentar a Palantir como uma empresa disposta a fazer o trabalho que parte de Silicon Valley já não queria tocar. Enquanto a Google, a Meta ou outras plataformas tentavam preservar a distância em relação ao aparelho militar norte-americano, a Palantir aproximava-se dele deliberadamente. Não como fornecedor ocasional, mas como parceiro estrutural.
A Palantir já não vende apenas software. A distância já não se mede só em contratos.
Nos últimos anos, Karp começou a falar menos como diretor executivo de uma empresa tecnológica e mais como alguém convencido de que os Estados Unidos entraram num período de desgaste institucional profundo. Karp passou a usar menos a palavra inovação e mais o vocabulário da defesa, da disciplina e da capacidade nacional.
Cronologia mínima
- Pós-11 de Setembro: fundação da Palantir num contexto de contraterrorismo e vigilância.
- Anos 2010: expansão para defesa, inteligência e administração pública.
- Project Maven: debate sobre colaboração tecnológica com o Pentágono.
- Pós-2022: guerra na Ucrânia acelera centralidade estratégica da IA.
- The Technological Republic: Alex Karp formaliza visão política sobre tecnologia e Estado.
A própria história da empresa ajuda a perceber essa mudança. A Palantir nasceu nos anos seguintes ao 11 de Setembro, num ambiente dominado por contraterrorismo, vigilância e integração de informação. Peter Thiel defendia que a indústria tecnológica precisava de abandonar a frivolidade do primeiro ciclo dot-com e voltar-se para problemas considerados sérios: segurança nacional, guerra, inteligência, estabilidade do Ocidente.
O nome da empresa vinha de Tolkien. Os palantíri eram pedras capazes de ver à distância. O nome já apontava para vigilância, alcance e visão à distância.
Durante muito tempo, a empresa foi vista em simultâneo como ferramenta útil e objeto suspeito. Organizações de defesa das liberdades civis criticavam os seus sistemas de análise de dados; outros acusavam a empresa de exagerar capacidades tecnológicas para conquistar contratos públicos. Mesmo assim, a Palantir manteve as relações próximas com o aparelho de segurança norte-americano e sobreviveu até encontrar um contexto político mais favorável ao tipo de tecnologia que desenvolvia.
A guerra na Ucrânia, a rivalidade tecnológica com a China, a corrida à inteligência artificial e o regresso da política industrial mudaram o ambiente em Washington. As empresas capazes de integrar dados, apoiar operações militares e acelerar decisões passaram a ocupar uma posição diferente dentro do ecossistema tecnológico.
A empresa tinha construído a sua posição antes de essa procura se tornar dominante.
O essencial deste artigo
- A Palantir cresceu ligada ao aparelho de segurança norte-americano.
- A empresa defende uma aproximação entre tecnologia, defesa e Estado.
- A inteligência artificial surge como infraestrutura estratégica, não apenas como produto comercial.
- O debate europeu inclui soberania digital e dependência operacional.
- A análise centra-se no projeto político e institucional associado à Palantir.
Enquanto parte de Silicon Valley insistia numa imagem pós-política — nas plataformas globais, na neutralidade tecnológica, nos mercados sem fronteiras —, a empresa construía outra narrativa. A tecnologia não devia existir acima dos Estados. Devia reforçá-los. Mais concretamente: devia reforçar o poder estratégico do Ocidente.
O livro The Technological Republic, associado a Karp e Nicholas Zamiska, formaliza essa visão. O alvo não é apenas a burocracia norte-americana. O livro é também um ataque cultural a uma indústria tecnológica que, segundo os autores, trocou ambição estratégica por produtos de consumo, publicidade digital e aplicações destinadas a maximizar atenção e lucro rápido.
Há uma passagem importante nesse raciocínio. A crítica da Palantir não parte da ideia de que o Estado é demasiado forte. Parte da ideia oposta: o Estado perdeu capacidade, confiança e vontade política. Karp não fala como um libertário clássico interessado em desmontar instituições públicas. Fala como alguém que considera as instituições demasiado frágeis para competir num ambiente geopolítico mais agressivo.
Musk tende a tratar o Estado como máquina obesa a disciplinar. A Palantir olha para o Estado como um instrumento enfraquecido que precisa de nova infraestrutura tecnológica para voltar a funcionar com eficácia.
Na prática, essa diferença muda o tipo de relação que se estabelece entre a empresa e o Estado.
Uma coisa é substituir a administração pública por plataformas privadas e autoridade pessoal. Outra é criar uma relação estrutural entre governos, defesa e empresas tecnológicas especializadas em operações críticas. A Palantir aposta claramente na segunda hipótese.
Por isso, a empresa insiste tanto na linguagem de missão coletiva. Defesa nacional, inteligência artificial e reorganização tecnológica aparecem como partes do mesmo esforço. O modelo implícito não é o das startups orientadas para consumo rápido. É o complexo militar-industrial da Guerra Fria adaptado à era da IA.
A comparação surge repetidamente no discurso de Karp. A bomba atómica e o programa nuclear funcionam como exemplos de coordenação entre a ciência, o Estado e a indústria. A inteligência artificial ocuparia agora um lugar semelhante: tecnologia capaz de redefinir o equilíbrio estratégico, a capacidade militar e a hierarquia internacional.
O argumento ganha força num contexto em que Washington trata cada vez mais os semicondutores, os modelos de IA e a infraestrutura computacional como matérias de segurança nacional. A rivalidade com Pequim acelerou essa transformação. A linguagem económica já não chega para descrever a disputa tecnológica entre os Estados Unidos e a China.
A Palantir percebeu isso cedo e posicionou-se como empresa preparada para esse ambiente.
A questão é que os sistemas desenhados para operações militares ou contraterrorismo raramente ficam confinados a esses domínios. As plataformas de integração de dados começaram a entrar em áreas como a imigração, o policiamento, a saúde pública e a gestão administrativa. O problema político surge aí, não apenas no campo de batalha.
Quando uma administração pública passa a depender de sistemas privados para organizar informação crítica, definir prioridades operacionais ou acelerar decisões, a relação entre Estado e fornecedor altera-se. A empresa deixa de vender apenas software. Passa a participar na própria capacidade institucional de agir.
Essa dependência não acontece de forma dramática ou instantânea. Instala-se nos procedimentos. Nos fluxos de trabalho. Nos sistemas que ninguém consegue desligar sem perturbar operações inteiras.
É por isso que vários governos europeus começaram a discutir a soberania digital em termos mais duros. O debate já não é apenas sobre o armazenamento de dados ou privacidade. Inclui a capacidade operacional. Quem controla a infraestrutura através da qual as instituições públicas analisam a informação, coordenam recursos e executam decisões que ganha inevitavelmente um peso político.
É nesse ponto — entre dados públicos, software privado e decisão estatal — que a Palantir se tornou difícil de classificar.
A empresa costuma responder que os dados permanecem sob controlo dos clientes e que o software apenas organiza a informação já existente. A distinção conta nos contratos, mas não elimina a dependência criada quando uma instituição passa a trabalhar dentro de uma arquitetura que não controla.
Karp parece considerar esse risco secundário face ao problema maior: a incapacidade do Ocidente para mobilizar talento tecnológico à volta de objetivos estratégicos comuns.
Daí a insistência quase obsessiva em palavras como propósito, dever, missão e patriotismo tecnológico. O livro critica engenheiros que recusaram colaborar com projetos militares norte-americanos, incluindo o protesto interno contra o Project Maven na Google. Para Karp, essa recusa não representava humanismo nem pacifismo. Representava a perda de vontade política.
Há aqui uma inversão pouco comum dentro da cultura tecnológica norte-americana. Durante décadas, Silicon Valley apresentou-se como espaço de criatividade libertária, anti-hierárquica e desconfiada do poder estatal. A Palantir recupera outra tradição americana: a ideia de que a guerra, a investigação científica e a organização nacional podem funcionar em conjunto.
Essa tradição produziu avanços tecnológicos reais. Também produziu vigilância massiva, expansão securitária e concentração de poder administrativo. O livro tende a valorizar o primeiro lado e a relativizar o segundo.
Ainda assim, seria simplista reduzir a empresa a caricatura distópica. A Palantir cresce porque responde a necessidades reais de governos e instituições. Os Estados sobrecarregados procuram coordenação. Os exércitos querem vantagem tecnológica. Os serviços públicos tentam a integrar sistemas fragmentados. A procura existe antes da ideologia.
Só que a empresa não apresenta essa procura como simples mercado.
A empresa deixou claro que vê a inteligência artificial menos como produto de consumo e mais como infraestrutura de conflito. Não apenas conflito militar clássico, mas competição estratégica contínua entre potências, sistemas políticos e modelos de organização social.
Esse enquadramento altera o modo como a tecnologia é legitimada. A promessa já não é conectar pessoas ou facilitar serviços. A promessa é recuperar capacidade estatal e superioridade estratégica.
A promessa deixou de ser apenas pôr tecnologia nas mãos dos indivíduos; passou a ser pô-la ao serviço de instituições armadas, serviços públicos e governos pressionados.
Durante muito tempo, Silicon Valley apresentou o futuro como expansão de autonomia individual. A Palantir apresenta o futuro como reorganização operacional do Estado.
Isso ajuda a perceber por que razão a empresa gera simultaneamente fascínio e desconforto. Não apenas pelo software que vende, mas pelo tipo de ordem política que pressupõe. Uma ordem mais integrada, mais securitária, mais dependente de sistemas técnicos complexos e menos convencida de que mercados de consumo conseguem sustentar sozinhos uma civilização tecnológica.
Os lugares onde isto se decide são menos teóricos: contratos militares, sistemas de imigração, plataformas de análise operacional, hospitais, ministérios.
A empresa não inventou a procura por Estados mais rápidos e armados de dados. Mas organizou-se cedo para vender essa capacidade.
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