Em março de 2001, uma pergunta sobre o défice público levou Zhu Rongji a explicar aos jornalistas o que acontecera à economia chinesa desde a crise financeira asiática. Falou da quebra das exportações, dos problemas nas instituições financeiras e dos riscos da política orçamental seguida pelo Governo. A resposta prolongou-se por vários minutos e entrou nos pormenores das decisões tomadas em Pequim.
Quando o primeiro-ministro chinês ainda respondia

A transcrição dessa conferência de imprensa permite acompanhar o raciocínio do então primeiro-ministro. Como acontecia nesses encontros, a pergunta fora selecionada e a sessão obedecia às regras do regime. O Senhor Zhu respondeu perante os jornalistas chineses e estrangeiros e ficou pessoalmente associado à política que estava a defender.
Zhu Rongji morreu esta quarta-feira, 12 de agosto, em Pequim, aos 97 anos. Chefiou o Governo entre 1998 e 2003, durante a reestruturação das empresas estatais e a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. A sua morte trouxe de volta à memória uma prática política que Pequim abandonou: a conferência de imprensa anual do primeiro-ministro no encerramento da Assembleia Popular Nacional.
Em março de 2024, a Assembleia anunciou que essas conferências deixariam de se realizar nos anos seguintes da atual legislatura, exceto em circunstâncias especiais. A decisão oficial manteve-se em 2026. Li Qiang apresentou o relatório do Governo e foram divulgadas as metas económicas. No final das sessões, não compareceu perante os jornalistas.
As conferências eram controladas. As perguntas passavam por uma seleção prévia e vários assuntos permaneciam fora dos limites permitidos. Dentro desse formato, os jornalistas podiam interrogar um dos principais responsáveis pelo Governo acerca das políticas adotadas e dos resultados obtidos.
A última vez que um primeiro-ministro chinês foi interrogado
Durante o mandato de Zhu, as respostas tornaram-se mais longas e pormenorizadas. O primeiro-ministro conhecia os processos administrativos, contestava algumas perguntas e mostrava, por vezes, impaciência. O cargo adquiriu uma presença pública que, na China atual, se concentra sobretudo no presidente e secretário-geral do Partido Comunista.
A carreira de Zhu fora construída dentro da administração económica. Engenheiro de formação, foi afastado do aparelho político durante a era maoista e submetido a trabalhos de reeducação. Depois de reabilitado, tornou-se presidente da Câmara de Xangai em 1988. Foi nomeado vice-primeiro-ministro três anos mais tarde e assumiu a chefia do Governo em 1998.
A economia que encontrou já crescera durante as reformas iniciadas por Deng Xiaoping. Persistiam empresas públicas deficitárias e bancos com um elevado volume de empréstimos problemáticos. Os interesses das administrações locais dificultavam algumas das mudanças pretendidas pelo Governo central.
Zhu acelerou a reestruturação. Milhões de trabalhadores perderam o emprego. A administração central aumentou a sua participação nas receitas fiscais e o antigo sistema de atribuição de habitação pelos locais de trabalho começou a desaparecer.
A competitividade aumentou em vários setores. Para muitos trabalhadores, a mesma transformação trouxe desemprego e a perda da segurança anteriormente garantida pelas empresas estatais. Zhu é hoje recordado como um administrador eficiente, mas essa imagem deixa frequentemente em segundo plano os custos sociais das suas decisões. No plano político, manteve-se dentro dos limites fixados pelo Partido Comunista e não propôs a liberalização do regime.
A adesão à Organização Mundial do Comércio foi o principal resultado internacional do seu mandato. A China passou a ser o 143.º membro da organização em 11 de dezembro de 2001, depois de 15 anos de negociações. Zhu acreditava que as regras externas poderiam acelerar reformas que encontravam resistência dentro do país. A abertura dos mercados internacionais favoreceu posteriormente o crescimento das exportações chinesas.
Na conferência de imprensa de 2002, Zhu voltou às promessas que fizera quando assumira o cargo. Apresentou os resultados alcançados pelas empresas estatais, pela banca e na redução da administração central. A sessão tinha uma função de comunicação política do Governo e obrigava o primeiro-ministro a confrontar os compromissos anteriores com os resultados que dizia ter alcançado.
Os registos dessas conferências revelam as restrições impostas aos jornalistas. Revelam igualmente um chefe do Governo que aceitava responder sobre as decisões tomadas durante o seu mandato. Essa exposição pública do primeiro-ministro desapareceu. Quando Zhu Rongji morreu, a China atravessava o terceiro ano sem a conferência anual que o próprio ajudara a tornar relevante.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado