ANÁLISE | Negócios com a Rússia
Um relatório europeu descreve dez projetos preparados para avançar quando Trump conseguir um acordo na Ucrânia. Entre os possíveis participantes surgem Kushner e Witkoff, os homens envolvidos na negociação. O documento não prova que os negócios tenham determinado o plano de paz.
Há dez negócios com a Rússia à espera de uma paz.
Segundo o relatório que os enumera, não dependem de uma paz duradoura, de uma solução territorial específica ou de garantias de segurança para a Ucrânia. Dependem de Donald Trump conseguir um acordo.
O documento, produzido por uma agência de informações europeia, foi examinado diretamente pela New Yorker. Não tem data e chegou à publicação através de um único funcionário europeu. Descreve projetos económicos avaliados em muitos milhares de milhões de dólares que terão sido concebidos pelas elites políticas e empresariais do Kremlin para uma realidade posterior ao acordo.
Entre as pessoas que «poderiam participar» aparecem Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner. Os dois últimos estão envolvidos nas negociações destinadas a conseguir esse acordo.
«Os negócios seriam executados no momento em que Trump entregasse um acordo de paz», disse à New Yorker o funcionário europeu que forneceu o documento.
Os negócios seriam executados no momento em que Trump entregasse um acordo de paz.
Dez negócios com a Rússia para o dia seguinte
A reabertura do Nord Stream 2 sob controlo americano é um dos projetos mencionados. Outro prevê o regresso da ExxonMobil às operações em Sakhalin. Há prospeção petrolífera no Mar de Okhotsk e discussões sobre o descongelamento de ativos russos atualmente sujeitos a sanções dos Estados Unidos. Ao todo, o relatório enumera dez projetos.
O documento diz que parecem ter sido originalmente concebidos pelas elites políticas e empresariais do Kremlin. Além de Trump, Witkoff e Kushner, identifica como possíveis participantes Richard Grenell, antigo enviado presidencial, e Gentry Beach, amigo de Donald Trump Jr. que conseguiu contratos vantajosos em países onde a administração norte-americana negoceia.
Isso não significa que qualquer destas pessoas tenha aceitado participar nos projetos, nem demonstra que venha a beneficiar deles. Um porta-voz de Kushner negou que responsáveis norte-americanos viessem a lucrar com os negócios em discussão. Grenell negou qualquer irregularidade.
A proveniência do documento exige cautela. Não foi publicado pela agência que o produziu, não está datado e a New Yorker recebeu-o através de uma única fonte europeia. O funcionário disse que os detalhes começaram a ser discutidos depois de Trump ter convidado Vladimir Putin para Anchorage, em agosto de 2025.
Por duas vezes nesse ano, Kirill Dmitriev, responsável pelo fundo soberano russo, recebeu autorização para entrar nos Estados Unidos e falou de oportunidades de investimento.

O funcionário europeu que entregou o relatório à revista resumiu aquilo que julgava estar a observar: «A privatização da política externa americana está bastante avançada.»
O acordo que Moscovo aceitaria
Quando Kushner e Witkoff reuniram delegados russos e ucranianos no sul da Florida, o plano que emergiu das conversações aproximava-se de algumas das principais exigências de Moscovo. O Arcana News já tinha analisado como Moscovo procurava explorar a preferência de Trump por acordos rápidos.

A Ucrânia teria de ceder território, comprometer-se a nunca aderir à NATO e reduzir drasticamente as suas forças armadas. Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, apresentou-o como «um bom plano para a Rússia e para a Ucrânia». A divulgação pública provocou forte contestação. Marco Rubio terá descrito a proposta, segundo relataram três senadores à Associated Press, como «a lista de desejos da Rússia», caracterização que um porta-voz do Departamento de Estado classificou como «manifestamente falsa».
Um antigo responsável norte-americano citado pela New Yorker descreveu os dois negociadores como tendo chegado ao dossiê convencidos de que Putin era «um tipo porreiro» e de que «o exército russo é invencível».
«Acham que isto é um negócio imobiliário», disse. «Não parecem perceber que isto é uma guerra.»
Kushner também utiliza o negócio imobiliário como referência para explicar a sua maneira de negociar. Mais recentemente, em Kiev, descreveu a procura de uma solução através da linguagem do «ganhar-ganhar».
Nada disto demonstra que o plano tenha sido produzido para desbloquear os projetos descritos no relatório europeu. O relatório não estabelece essa relação. Regista, porém, negócios preparados para avançar depois do mesmo acontecimento que Kushner e Witkoff procuram obter nas negociações: um acordo.
O que o relatório permite dizer
Encontrar entre os possíveis participantes nos dez projetos pessoas envolvidas na negociação não basta para concluir que existe um conflito de interesses consumado.
O relatório não demonstra que Kushner tenha negociado uma concessão territorial para obter acesso a um investimento, nem que Witkoff tenha defendido uma posição russa para participar num projeto energético. Também não demonstra que qualquer dos negócios venha a realizar-se.
O que documenta é mais limitado. Os negócios dependem de uma alteração política que permita a normalização económica com a Rússia. Kushner e Witkoff participam no processo destinado a produzir essa alteração e os seus nomes surgem, segundo o relatório, entre aqueles que poderiam participar em projetos preparados para o período posterior.
Não há aqui prova de corrupção. Há perguntas sobre quando foram discutidas estas oportunidades comerciais, por quem, com conhecimento de quem e sob que separação relativamente às negociações oficiais. O relatório não lhes responde.
A condição é a paz
Para a Ucrânia, um acordo determina território, capacidade militar, garantias de segurança e as condições em que o país terá de viver perante uma Rússia que o invadiu.
Para Moscovo, determina também sanções, relações económicas e a possibilidade de recuperar ligações comerciais interrompidas pela guerra.
Nos projetos descritos no relatório europeu, o acordo tem uma função concreta: permitir que comecem. A New Yorker não descreve como condição uma paz que resista durante dez anos, a segurança futura da Ucrânia ou um acordo considerado equilibrado pelas partes.
Este mês, Kushner e Witkoff viajaram a Moscovo e a Kiev para tentar reanimar as conversações. Em Moscovo, cumprimentaram Putin com familiaridade e aceitaram deslocar-se num automóvel oficial russo, em vez de utilizarem um veículo da embaixada norte-americana.

Em Kiev, Kushner voltou à comparação empresarial. «No mundo dos negócios, pensa-se nas coisas em termos de ganhar-ganhar», disse. Ele e Witkoff falaram num «pacote de paz» que permitiria à Rússia e à Ucrânia «concentrar-se em cumprir o seu enorme potencial» e «encontrar formas de beneficiar uma da outra».
Horas depois da partida dos dois enviados, a Rússia voltou a bombardear. A proximidade temporal não estabelece qualquer relação causal entre as declarações norte-americanas e os ataques.
O relatório europeu acrescenta outro elemento à negociação. O acordo que Kushner e Witkoff procuram alcançar é também, segundo o documento, o acontecimento que abriria a porta a dez projetos comerciais com a Rússia, alguns deles envolvendo potencialmente pessoas próximas ou participantes no próprio processo diplomático.
Não sabemos se algum desses projetos se realizará, se Kushner ou Witkoff participarão neles, nem existe prova de que tenham determinado as posições defendidas perante a Ucrânia.
O que o relatório fixa é a condição para que possam começar: um acordo.
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