Joan Trumpauer não estava prevista para se sentar ao balcão da Woolworth’s naquele dia. Tinha outra tarefa: observar um piquete, passar despercebida entre as pessoas na rua e telefonar para o escritório de Medgar Evers se houvesse detenções ou agressões. Levava moedas para fazer a chamada.
Era 28 de maio de 1963, em Jackson, no Mississippi. A Woolworth’s era uma cadeia de lojas com balcões de refeições. Naquela loja, os clientes negros não eram atendidos.
Enquanto a multidão se formava, Memphis Norman foi arrancado do banco e agredido. Anne Moody e Pearlena Lewis continuavam ao balcão. Na entrevista que deu em 2013, Joan recorda que terá sido o capelão Ed King a sugerir que se sentasse com elas. Não tem a certeza desse pormenor.
Sentou-se. Também ela foi puxada do banco e conseguiu voltar ao balcão. Mais tarde, o professor John Salter juntou-se ao protesto. Fred Blackwell fotografou-o ao lado de Joan e Anne Moody, cobertos de alimentos, rodeados por pessoas que os hostilizavam. A polícia não protegeu os manifestantes das agressões.
A fotografia tornou Joan conhecida. Antes de se sentar, tinha observado o piquete e procurado informar o escritório de Medgar Evers.
Joan Trumpauer em Tougaloo
A mãe de Joan escolhera Duke por ser uma universidade prestigiada e segregada. A filha preferia uma pequena instituição no Norte. Anos depois, ao recordar essa preferência, hesitou sobre o lugar: talvez fosse no Ohio.
Joan frequentou Duke entre 1959 e 1960. Em Durham, participou com estudantes negros nos protestos contra a segregação dos balcões de refeições. A universidade onde a mãe esperava mantê-la afastada da integração acabou por ser o lugar onde começou a participar nessas ações.
Crescera em Arlington, na Virgínia, e frequentava a Igreja Presbiteriana. Aprendia passagens bíblicas sobre o tratamento devido aos outros, mas saía da igreja para uma cidade segregada. A contradição incomodava-a.
Durante a adolescência, o seu grupo religioso recebeu estudantes negros. Os responsáveis pediram segredo: os jovens não deviam contar aos pais nem aos amigos. Havia receio da polícia, de grupos racistas e da reação de membros da própria igreja.

Depois de sair de Duke, Joan Trumpauer mudou-se para Washington e juntou-se ao Nonviolent Action Group, ligado à Universidade de Howard. Participou nos Freedom Rides, a campanha que procurava fazer cumprir a dessegregação dos transportes interestaduais.
Foi presa a 8 de junho de 1961, em Jackson, por tentar integrar o terminal ferroviário da Illinois Central. Tinha dezanove anos. A acusação foi de perturbação da ordem pública.
Em Parchman, a penitenciária estadual do Mississippi, ficou numa área do corredor da morte utilizada para encarcerar participantes na campanha. Não tinha sido condenada à morte. Segundo Joan, os guardas retiravam os colchões como castigo pelo canto dos presos.
Joan já tinha sido aceite em Tougaloo College antes dos Freedom Rides. Em setembro de 1961, começou a estudar naquela instituição historicamente negra. Foi uma das primeiras estudantes brancas inscritas.
Tougaloo reunia estudantes, professores e dirigentes envolvidos no movimento pelos direitos civis. Joan participou nas atividades do Student Nonviolent Coordinating Committee, conhecido pela sigla SNCC. A Comissão de Soberania do Mississippi, organismo estadual dedicado à defesa da segregação, vigiou a sua atividade.
A faculdade não aparece na sua história apenas como o destino de uma estudante branca. Foi onde estudou, viveu e trabalhou com outros participantes. Quando entrou na Woolworth’s, conhecia as pessoas ao balcão através desse envolvimento.
Depois da fotografia
A imagem de Blackwell permite identificar Joan num episódio de violência pública. É menos fácil acompanhar o trabalho de uma organização: quem recebe informação, prepara documentos, observa uma manifestação ou procura ajuda quando alguém é preso.
No protesto de Jackson, Joan passou de observadora a participante no balcão. A fotografia regista uma parte do que aconteceu. O seu testemunho recupera as deslocações, as tarefas e as decisões tomadas quando a violência já estava em curso.

Joan Trumpauer concluiu o curso em Tougaloo em 1964. Trabalhou depois no Smithsonian e nos departamentos federais do Comércio e da Justiça. Em Arlington, trabalhou durante quase trinta anos como auxiliar de ensino, incluindo no apoio a alunos que aprendiam inglês como segunda língua.
Em 2013, o filho, Loki Mulholland, realizou An Ordinary Hero, um documentário sobre a sua participação no movimento. Em agosto de 2024, o Departamento de Arquivos e História do Mississippi anunciou uma sessão pública e gratuita nos Two Mississippi Museums, em Jackson, com Joan e o filho previstos como convidados.
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