Joan Trumpauer foi presa por combater a segregação

Estudante em Tougaloo, presa em Parchman e participante no protesto de Jackson, Joan Trumpauer trabalhou num movimento cuja história também se fez longe das fotografias.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Joan Trumpauer não estava prevista para se sentar ao balcão da Woolworth’s naquele dia. Tinha outra tarefa: observar um piquete, passar despercebida entre as pessoas na rua e telefonar para o escritório de Medgar Evers se houvesse detenções ou agressões. Levava moedas para fazer a chamada.

Era 28 de maio de 1963, em Jackson, no Mississippi. A Woolworth’s era uma cadeia de lojas com balcões de refeições. Naquela loja, os clientes negros não eram atendidos.

Enquanto a multidão se formava, Memphis Norman foi arrancado do banco e agredido. Anne Moody e Pearlena Lewis continuavam ao balcão. Na entrevista que deu em 2013, Joan recorda que terá sido o capelão Ed King a sugerir que se sentasse com elas. Não tem a certeza desse pormenor.

Sentou-se. Também ela foi puxada do banco e conseguiu voltar ao balcão. Mais tarde, o professor John Salter juntou-se ao protesto. Fred Blackwell fotografou-o ao lado de Joan e Anne Moody, cobertos de alimentos, rodeados por pessoas que os hostilizavam. A polícia não protegeu os manifestantes das agressões.

A fotografia tornou Joan conhecida. Antes de se sentar, tinha observado o piquete e procurado informar o escritório de Medgar Evers.

Joan Trumpauer em Tougaloo

A mãe de Joan escolhera Duke por ser uma universidade prestigiada e segregada. A filha preferia uma pequena instituição no Norte. Anos depois, ao recordar essa preferência, hesitou sobre o lugar: talvez fosse no Ohio.

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Joan frequentou Duke entre 1959 e 1960. Em Durham, participou com estudantes negros nos protestos contra a segregação dos balcões de refeições. A universidade onde a mãe esperava mantê-la afastada da integração acabou por ser o lugar onde começou a participar nessas ações.

Crescera em Arlington, na Virgínia, e frequentava a Igreja Presbiteriana. Aprendia passagens bíblicas sobre o tratamento devido aos outros, mas saía da igreja para uma cidade segregada. A contradição incomodava-a.

Durante a adolescência, o seu grupo religioso recebeu estudantes negros. Os responsáveis pediram segredo: os jovens não deviam contar aos pais nem aos amigos. Havia receio da polícia, de grupos racistas e da reação de membros da própria igreja.

Rapaz negro junto de um bebedouro assinalado Colored, em Halifax, Carolina do Norte, em 1938.
Bebedouro segregado junto ao tribunal de Halifax, Carolina do Norte, em abril de 1938. Imagem de contexto, anterior aos episódios narrados no artigo. Fotografia: John Vachon / Farm Security Administration / Library of Congress, fsa.8a03228. Domínio público. Arquivo original.

Depois de sair de Duke, Joan Trumpauer mudou-se para Washington e juntou-se ao Nonviolent Action Group, ligado à Universidade de Howard. Participou nos Freedom Rides, a campanha que procurava fazer cumprir a dessegregação dos transportes interestaduais.

Foi presa a 8 de junho de 1961, em Jackson, por tentar integrar o terminal ferroviário da Illinois Central. Tinha dezanove anos. A acusação foi de perturbação da ordem pública.

Em Parchman, a penitenciária estadual do Mississippi, ficou numa área do corredor da morte utilizada para encarcerar participantes na campanha. Não tinha sido condenada à morte. Segundo Joan, os guardas retiravam os colchões como castigo pelo canto dos presos.

Joan já tinha sido aceite em Tougaloo College antes dos Freedom Rides. Em setembro de 1961, começou a estudar naquela instituição historicamente negra. Foi uma das primeiras estudantes brancas inscritas.

Tougaloo reunia estudantes, professores e dirigentes envolvidos no movimento pelos direitos civis. Joan participou nas atividades do Student Nonviolent Coordinating Committee, conhecido pela sigla SNCC. A Comissão de Soberania do Mississippi, organismo estadual dedicado à defesa da segregação, vigiou a sua atividade.

A faculdade não aparece na sua história apenas como o destino de uma estudante branca. Foi onde estudou, viveu e trabalhou com outros participantes. Quando entrou na Woolworth’s, conhecia as pessoas ao balcão através desse envolvimento.

Depois da fotografia

A imagem de Blackwell permite identificar Joan num episódio de violência pública. É menos fácil acompanhar o trabalho de uma organização: quem recebe informação, prepara documentos, observa uma manifestação ou procura ajuda quando alguém é preso.

No protesto de Jackson, Joan passou de observadora a participante no balcão. A fotografia regista uma parte do que aconteceu. O seu testemunho recupera as deslocações, as tarefas e as decisões tomadas quando a violência já estava em curso.

Dirigentes da Marcha sobre Washington caminham juntos em 28 de agosto de 1963.
Dirigentes da Marcha sobre Washington, em 28 de agosto de 1963. Imagem de contexto do movimento pelos direitos civis; Joan Trumpauer não está identificada nesta fotografia. Fotografia: Rowland Scherman / USIA / National Archives, NAID 542010. Domínio público. Arquivo original.

Joan Trumpauer concluiu o curso em Tougaloo em 1964. Trabalhou depois no Smithsonian e nos departamentos federais do Comércio e da Justiça. Em Arlington, trabalhou durante quase trinta anos como auxiliar de ensino, incluindo no apoio a alunos que aprendiam inglês como segunda língua.

Em 2013, o filho, Loki Mulholland, realizou An Ordinary Hero, um documentário sobre a sua participação no movimento. Em agosto de 2024, o Departamento de Arquivos e História do Mississippi anunciou uma sessão pública e gratuita nos Two Mississippi Museums, em Jackson, com Joan e o filho previstos como convidados.

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