A frota que já não sabe o que vai ser

Em novembro, um secretário da Marinha cancelou o programa de fragatas mais caro em construção. Meses depois, foi despedido por ser lento de mais. Por detrás do episódio está uma genealogia de vinte e cinco anos de programas navais cancelados — e uma base industrial que talvez já não saiba construir o que promete.

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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Linha editorial: Análise · Geopolítica e Poder · Estados Unidos · O colapso da capacidade industrial naval americana

O cancelamento da Constellation e a crise industrial da Marinha americana

A 25 de novembro de 2025, o então secretário da Marinha dos Estados Unidos, John Phelan, publicou um vídeo no X. Nele, cancelava o programa de fragatas da classe Constellation — o maior projeto de construção naval em curso, orçado em quase nove mil milhões de dólares, do qual já só restavam de pé os dois primeiros cascos, um deles com apenas doze por cento de conclusão. “Não vou gastar um dólar que não reforce a prontidão ou a capacidade de vencer”, disse Phelan.

A frota que já não sabe o que vai ser

Sete meses depois, foi despedido pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth, que o considerou demasiado lento a reconstruir a frota que ele próprio tinha começado a desmontar.

O essencial deste artigo

  • John Phelan cancelou o programa de fragatas Constellation a 25 de novembro de 2025.
  • Foi despedido sete meses depois por ser considerado lento a reconstruir a frota.
  • É o terceiro programa cancelado em 25 anos, depois do LCS e do Zumwalt.
  • A frota dos EUA deverá encolher para 288 navios em 2027, longe do mandato de 355.
  • A Marinha chinesa já tem cerca de 400 navios de combate, mais do que a americana.

Uma genealogia de vinte e cinco anos de fracassos

O cancelamento da Constellation é o terceiro capítulo de uma sequência que já dura um quarto de século. O primeiro foi o programa Littoral Combat Ship, que consumiu cerca de quinze anos de tempo de construção naval antes de ser abandonado sem cumprir o que prometia. O segundo foi o destróier da classe Zumwalt: planeado para trinta e dois navios, a um custo estimado entre mil e quinhentos milhões e mil e oitocentos milhões de dólares cada, foi cancelado depois de apenas três unidades construídas, quando o sistema de armamento principal se revelou economicamente inviável — os três navios que restam continuam sem missão operacional clara, apesar de um custo unitário que ronda os oito mil milhões de dólares.

A Constellation seguiu o mesmo padrão de erro estrutural: nasceu da promessa de adaptar um desenho europeu franco-italiano já testado, mantendo oitenta e cinco por cento de semelhança com o original para acelerar a produção. Na prática, os engenheiros navais americanos alongaram o casco em quase sete metros, redesenharam a proa, reformularam por completo a superestrutura, e acrescentaram cerca de quinhentas toneladas de deslocamento — até restar apenas quinze por cento de semelhança com o desenho original. O resultado acabou por custar oitenta por cento do preço de um destróier, com apenas sessenta por cento da sua capacidade de combate. “Mais valia construir destróieres”, resumiu Phelan ao anunciar o cancelamento.

A escassez que nenhum orçamento resolve sozinho

O problema deixou de ser apenas orçamental. Mesmo um aumento substancial de verbas não recompõe automaticamente uma indústria naval que perdeu estaleiros, trabalhadores qualificados e continuidade técnica ao longo de décadas. A construção de navios de guerra depende de competências acumuladas — soldadura certificada, eletricidade naval, integração de sistemas, engenharia de casco — que não regressam por simples decisão política. A frota que Washington diz querer exige uma base industrial que já não existe com a escala de que precisa.

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Uma das consequências mais discutidas em círculos de defesa é o impacto sobre os compromissos assumidos no âmbito da AUKUS, o pacto de submarinos nucleares com o Reino Unido e a Austrália. Cumprir esses compromissos exigiria produzir cerca de três submarinos da classe Virginia por ano — um ritmo que a indústria naval americana, tal como está hoje configurada, não tem demonstrado capacidade de sustentar.

Um programa novo, herdando o mesmo problema não resolvido

O programa que substitui a Constellation, o FF(X), assenta num desenho ainda mais modesto — o Legend-class, um navio da Guarda Costeira, não concebido de raiz para combate — com o objetivo declarado de lançar o primeiro casco à água em 2028, dentro daquilo que a Marinha começou a chamar de “Frota Dourada”. O Congresso destinou, no orçamento de defesa de fevereiro de 2026, duzentos e quarenta e dois milhões de dólares apenas para os componentes de longo prazo de fabrico deste novo programa — uma fração do que já se tinha gasto, e perdido, na Constellation. Segundo os últimos planos de construção naval divulgados, a frota total dos Estados Unidos vai continuar a encolher, para um mínimo de duzentos e oitenta e oito navios de guerra em 2027, muito longe do mandato de trezentos e cinquenta e cinco navios fixado pelo Congresso em 2017.

Segundo análise da Heritage Foundation publicada em junho de 2026, a Marinha chinesa ultrapassou já a americana em número de cascos — cerca de quatrocentos navios de combate, mais centenas de embarcações de apoio —, tornando-se a maior marinha do mundo em número de unidades.

Cronologia — a crise dos programas navais americanos

  • 2017 — Congresso fixa o mandato de 355 navios de guerra.
  • 2020 — Início do programa Constellation.
  • 25 de novembro de 2025 — Phelan cancela a Constellation, mantendo só os dois primeiros cascos.
  • 19 de dezembro de 2025 — Anúncio do programa substituto, FF(X).
  • Fevereiro de 2026 — Congresso aprova 242 milhões de dólares para componentes do FF(X).
  • 2026 — Phelan é despedido; Hung Cao assume como secretário interino.
  • Junho de 2026 — Heritage Foundation confirma que a Marinha chinesa é a maior do mundo em número de navios.
  • 2027 — Frota dos EUA projetada para encolher a 288 navios.
  • 2028 — Data-alvo para o lançamento do primeiro casco do FF(X).

O que fica, para já, é o vídeo de novembro

O secretário interino que herdou o problema, Hung Cao, enfrenta o mesmo desafio que derrubou o antecessor: convencer o Congresso, os estaleiros e a própria Marinha de que existe, finalmente, um plano capaz de quebrar o padrão de vinte e cinco anos — LCS, Zumwalt, Constellation — antes que o FF(X) se torne o quarto capítulo da mesma história. A data de 2028 já sobreviveu a um secretário da Marinha. Falta ver se sobrevive à escassez de soldadores que continua a decidir o que a frota americana consegue de facto construir.

Imagem: – Giona Mason / Pexels

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