EDITORIAL · Geopolítica e Poder · Estados Unidos / China · Cimeira de Pequim.
O tapete vermelho foi estendido em frente a Tiananmen. Havia honras militares, crianças com bandeiras e cerimónia protocolar completa. Trump estava em Pequim para uma cimeira com Xi Jinping. No final, anunciou acordos sobre compras chinesas de produtos agrícolas norte-americanos e aviões Boeing. Disse que foi um “grande sucesso”. Xi Jinping, no seu comunicado, usou a palavra “construtiva”.
Trump disse “grande sucesso”. Xi disse “construtiva”. A diferença não é de estilo.
Cronologia
| 2001 | China entra na OMC com apoio de Washington. Clinton descreve o processo como “decisão vantajosa para ambas as partes”. |
| Dezembro 2024 | EUA aprovam pacote de armamento para Taiwan de 11,1 mil milhões de dólares. |
| Maio 2025 | Trump visita Pequim. Cimeira com Xi Jinping. Acordos comerciais anunciados. Pacote de 14 mil milhões para Taiwan continua pendente. |
| Dias seguintes | Putin com visita prevista à China. |
O pacote de armamento de 14 mil milhões de dólares destinado a Taiwan continua pendente. Trump não anunciou a sua aprovação. A posição norte-americana de “ambiguidade estratégica” — não confirmar nem negar se os EUA defenderiam Taiwan militarmente em caso de ataque — manteve-se inalterada. A TSMC fabrica cerca de noventa por cento dos chips mais avançados do mundo. Xi sabe isso. Trump também.
O que a cimeira de Pequim entre Trump e Xi Jinping resolveu — e o que deixou em aberto.
Durante a cimeira, Xi invocou a Armadilha de Tucídides — a tese de que uma potência em ascensão que desafia uma hegemonia estabelecida tende a gerar conflito. É um argumento que coloca nos EUA o ónus de evitar o confronto e enquadra as ambições chinesas como dados estruturais que exigem reconhecimento, não como escolhas que exigem resposta. Xi advertiu também que um confronto sobre Taiwan poderia criar “uma situação extremamente perigosa”. No banquete de Estado no Grande Salão do Povo, brindou à ideia de que os dois países “devem ser parceiros e não rivais”. Os três movimentos não se contradizem — é essa a sua utilidade.
Trump disse que Xi concordou que o Estreito de Hormuz deve permanecer via marítima internacional e que o Irão não deve ter armas nucleares. São posições que Pequim já tinha sustentado formalmente antes da cimeira e que não implicam nenhuma ação verificável da parte chinesa. O que implicam — e o que a China aceitou comprometer — são compras comerciais com interesse económico direto para Pequim: produtos agrícolas num momento em que a China tem necessidade de diversificar fornecedores, e aviões Boeing numa altura em que a relação comercial bilateral estava sob pressão tarifária. Nos dias seguintes, Putin tinha visita prevista à China.
Em 2001, quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio com apoio ativo de Washington, Clinton descreveu o processo como “decisão vantajosa para ambas as partes”. A lógica era que a integração comercial produziria convergência política. O que aconteceu nas duas décadas seguintes tornou essa lógica difícil de repetir sem reservas.
O essencial
- Trump classificou a cimeira de “grande sucesso”; Xi usou a palavra “construtiva”.
- Acordos anunciados: compras agrícolas, aviões Boeing, declarações sobre o Estreito de Hormuz e o Irão.
- O pacote de armamento de 14 mil milhões de dólares para Taiwan continua pendente — sem aprovação anunciada.
- A posição de “ambiguidade estratégica” sobre a defesa de Taiwan manteve-se inalterada.
- Xi invocou a Armadilha de Tucídides e advertiu sobre os riscos de confronto em Taiwan.
- A China não cedeu em Taiwan, semicondutores nem cibersegurança. Os EUA obtiveram acordos comerciais e declarações sem compromisso verificável.
A China saiu da cimeira com uma visita presidencial norte-americana com aparato protocolar máximo — tapete vermelho, Tiananmen, banquete de Estado — e sem ceder em nenhum dos dossiês estruturais: Taiwan continua sem resposta sobre o armamento, a posição sobre semicondutores não mudou, as questões de cibersegurança não foram resolvidas. Os EUA saíram com anúncios comerciais e declarações sobre o Irão que Pequim já tinha condições para fazer antes de Trump aterrar em Pequim.
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