O que é, de facto, o “modelo Bukele” — e onde já foi tentado

O "modelo Bukele" e a sua exportação política

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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Linha editorial: Contexto · Dinâmicas de Poder · América Latina / Europa · O “modelo Bukele” e a sua difusão internacional

O que é o modelo Bukele e onde já foi replicado

Quando os políticos de direita na Colômbia, no Peru ou em França invocam o “modelo Bukele”, raramente definem com precisão o que esse modelo contém. Segundo Juanita Goebertus, diretora para as Américas da Human Rights Watch, a política de segurança do presidente salvadorenho Nayib Bukele não se resume a prisões em massa: inclui também a concentração de poder no executivo, debilitação da supervisão judicial, dezenas de milhares de pessoas detidas sem processo devido e, segundo as denúncias, até acordos secretos com as próprias gangues que o regime diz combater.

O essencial deste artigo

  • O regime de exceção salvadorenho está em vigor desde março de 2022.
  • A Human Rights Watch documenta a tortura e os maus-tratos sistemáticos no Cecot.
  • Abelardo de la Espriella venceu a presidência da Colômbia a 21 de junho de 2026, com a promessa de sete megaprisões.
  • Keiko Fujimori venceu a presidência do Peru à quarta tentativa, por apenas 49 641 votos.
  • No Equador, a réplica do modelo coincidiu com o ano mais violento da história recente do país.

Um nome que talvez não devesse existir

A investigadora Sonja Wolf, da Universidade Panamericana da Cidade do México e autora do livro Mano Dura, questiona a própria designação: “É preciso tomar cuidado quando se fala em ‘modelo Bukele’ porque, na verdade, não se trata de um modelo. Mas convém a Bukele que ele receba este nome e se propague para outros países.” Parte da atração internacional nasce do facto de o contexto político em que a política salvadorenha se desenvolveu nem sempre ser conhecido por quem observa de fora.

A origem: um regime de exceção iniciado em 2022

O regime de exceção salvadorenho está em vigor desde março de 2022. Segundo a organização Cristosal, normalizou a detenção em massa de pessoas com controlo judicial limitado, deixando milhares de detidos sem provas suficientes contra si. A Human Rights Watch, num relatório conjunto com a Cristosal, documentou casos de tortura e maus-tratos no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot) — descritos não como incidentes isolados, mas como violações sistemáticas e repetidas ao longo da detenção. A organização denunciou ainda a debilitação das próprias instituições democráticas salvadorenhas e a falta de garantias judiciais sob o governo de Bukele. Os Especialistas das Nações Unidas alertaram que a detenção prolongada, sem acesso a assistência legal nem revisão judicial, pode constituir uma violação grave do direito internacional.

Bukele foi reeleito presidente em fevereiro de 2024 com mais de 80% dos votos, e respondeu publicamente às críticas de direitos humanos com uma frase que resume a lógica retórica do seu governo: “Os direitos humanos de quem? Não das pessoas honradas.” Wolf descreve o regime salvadorenho como uma “autocracia eleitoral” — um sistema em que a permanência no poder depende de demonstrar apoio popular constante, e onde o regime de exceção cumpre a dupla função: combater a criminalidade e reforçar a legitimidade política do próprio Bukele.

A exportação como estratégia, não como acidente

A projeção internacional do regime de exceção não é, segundo Wolf, um efeito colateral: é parte ativa da forma como Bukele sustenta a sua posição interna. A promoção do modelo no exterior, e as visitas de líderes políticos estrangeiros ao próprio Cecot, contribuem para reforçar a imagem do presidente salvadorenho e legitimar a sua permanência no poder.

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Os números que sustentam a atração pelo modelo

El Salvador deixou de figurar entre os países mais violentos do mundo e passou a estar entre os mais seguros do continente americano. Jordan Bardella, presidente do partido francês de extrema-direita Reagrupamento Nacional, citou esse resultado numa entrevista à BFMTV sobre a sobrelotação prisional francesa: “Num país de seis milhões de habitantes, Bukele construiu quarenta mil vagas carcerárias em oito meses.”

O apelo do modelo assenta, em parte, num paralelo entre dois tipos de ansiedade eleitoral: a insegurança criminal, dominante no debate latino-americano, e a imigração irregular, dominante no debate político nos Estados Unidos e em vários países europeus. Em ambos os casos, a retórica de “pulso firme” oferece uma resposta rápida e visível a um medo concreto do eleitorado.

Onde o modelo foi replicado — e o que aconteceu

O Equador, sob o presidente Daniel Noboa desde 2023, declarou um “conflito armado interno”, militarizou a segurança, promoveu as detenções em massa e anunciou novas prisões de segurança máxima. A taxa de homicídios equatoriana subiu de cerca de 8 por 100 mil habitantes em 2020 para 45 em 2023, e atingiu 51 por 100 mil em 2025 — o ano mais violento da história recente do país, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e do InSight Crime.

O governo de Xiomara Castro, nas Honduras (2022-2026), adotou também medidas de “pulso firme” inspiradas em El Salvador — estados de exceção e militarização da segurança — sem que se registasse redução sustentada da violência. As Honduras mantinha, em 2025, uma taxa de homicídios de cerca de 23 por 100 mil habitantes.

As duas novas eleições que trazem o modelo de volta ao debate

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, do movimento Defensores da Pátria, venceu a segunda volta presidencial a 21 de junho de 2026 por uma margem de apenas 0,95 pontos percentuais sobre o candidato de esquerda Iván Cepeda — a eleição mais apertada desde a instauração da segunda volta, em 1994. Proclamado presidente eleito a 24 de junho, toma posse a 7 de agosto, com o apoio público de Donald Trump. Durante a campanha, prometeu construir sete megaprisões inspiradas no modelo salvadorenho.

No Peru, Keiko Fujimori venceu a presidência à quarta tentativa, com uma diferença de apenas 49 641 votos sobre Roberto Sánchez — a eleição mais renhida da história política recente peruana. A apuração da ONPE concluiu-se a 100% no final de junho, e a cerimónia oficial de entrega de credenciais está marcada para 15 de julho. Fujimori incluiu no centro da sua proposta de segurança a construção de quatro penitenciárias e uma megaprisão para réus de alta periculosidade, “como o Cecot, em El Salvador”.

Uma preferência que atravessa o próprio eleitorado

Wolf identifica um padrão que ajuda a explicar por que o modelo atrai tanto políticos como eleitores: em estudos sobre a cultura política latino-americana, as pessoas tendem a expressar, quando questionadas de forma abstrata, apoio à democracia. Mas quando as perguntas se tornam mais específicas, muitas delas revelam preferir líderes que resolvam problemas concretos, mesmo à custa de contrapesos institucionais. “As pessoas, na prática, não são tão democráticas quanto podemos imaginar”, resume a investigadora.

Cronologia — o modelo Bukele e a sua difusão

  • Março de 2022 — Início do regime de exceção em El Salvador.
  • 2023 — Daniel Noboa toma posse no Equador e tenta replicar o modelo.
  • Fevereiro de 2024 — Bukele é reeleito com mais de 80% dos votos.
  • 2025 — O Equador regista o ano mais violento da sua história recente (51 homicídios por 100 mil habitantes).
  • 21 de junho de 2026 — Segunda volta presidencial na Colômbia.
  • 24 de junho de 2026 — De la Espriella é proclamado presidente eleito da Colômbia.
  • 28 de junho de 2026 — O Apuramento final confirma a vitória de Keiko Fujimori no Peru.
  • 7 de agosto de 2026 — Tomada de posse de De la Espriella, na Colômbia.
  • 15 de julho de 2026 — Cerimónia de entrega de credenciais a Fujimori, no Peru.

Um modelo em disputa entre a eficácia visível e o custo institucional

O que os dados disponíveis mostram, lidos em conjunto, é um modelo cujos resultados dependem de condições específicas que nem sempre se replicam quando exportado — e cuja atração política tem tanto a ver com a redução real da violência em El Salvador quanto com a forma deliberada como Bukele e os seus aliados internacionais escolheram promover e nomear essa política fora das suas fronteiras.

Imagem: – Ron Lach / Pexels

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