Taiwan depois da cimeira Trump-Xi: Washington, Taipé e a Europa

A cimeira de maio não resolveu a ambiguidade americana sobre Taiwan — e, entretanto, cresce a cooperação entre a ilha e vários países europeus.

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CONTEXTO · Geopolítica e Poder · Taiwan / Estados Unidos / Europa · Defesa e armamento

A defesa de Taiwan entre Washington, Taipé e Bruxelas

O essencial deste artigo

  • A cimeira Trump-Xi de 15 de maio não resolveu a ambiguidade americana sobre a defesa de Taiwan.
  • Um pacote de 14 mil milhões de dólares em armas para Taiwan está pausado desde maio, devido à guerra com o Irão.
  • Taiwan acelera a “estratégia porco-espinho” — drones e sistemas móveis — mas o Kuomintang e o DPP discordam sobre a doutrina a seguir.
  • As exportações de drones taiwaneses para a Europa passaram de 2.574 unidades em 2024 para 136.010 só no primeiro trimestre de 2026.
  • A China já proibiu exportações de bens de dupla utilização para sete entidades europeias em retaliação.
Cronologia

  • Dezembro de 2025 — Aprovado pacote de 11 mil milhões de dólares em armas para Taiwan.
  • 15 de maio de 2026 — Cimeira Trump-Xi em Pequim.
  • Maio de 2026 — Pausa do pacote de 14 mil milhões; orçamento especial de Defesa taiwanês aprovado em 780 mil milhões de NTD.
  • Início de 2026 — Parlamento Europeu pede mais cooperação de segurança com Taiwan.
  • Abril de 2026 — China proíbe exportações de bens de dupla utilização para sete entidades europeias.

Na cimeira de 15 de maio entre Donald Trump e Xi Jinping, a questão de Taiwan ficou, segundo o comunicado oficial chinês, definida como o tema mais importante nas relações entre os dois países — com um aviso associado a Xi: falhar na sua gestão colocaria a relação bilateral “em grande risco”. A cimeira não resolveu a ambiguidade sobre o compromisso americano com a defesa de Taiwan. Tornou-a apenas mais visível. Para Taipé, isso traduz-se em prazos de entrega de armamento incertos, em pacotes que avançam ou recuam consoante a semana, e na necessidade de planear a própria defesa sem saber, com segurança, com que apoio externo pode contar daqui a um ou dois anos.

Nos dias seguintes, Trump descreveu os pacotes de armamento pendentes para Taiwan como “ótimas fichas de negociação”, disse não querer que a ilha “se torne independente” e afirmou não ter interesse em “viajar 9.500 milhas para lutar numa guerra”. Praticamente ao mesmo tempo, o secretário de Estado, Marco Rubio, garantiu que “a política dos EUA mantém-se inalterada”. O vice-presidente J. D. Vance defende, por seu lado, que Taiwan deve financiar a sua própria defesa em vez de depender de garantias externas — uma posição associada à ala “America First” do Partido Republicano, mais cética quanto a compromissos militares no estrangeiro, e distinta da de Rubio, mais próximo dos setores tradicionalmente favoráveis a uma presença americana forte na região. As três posições coexistem dentro da mesma administração, sem que nenhuma delas tenha sido publicamente descartada — o que deixa aliados e adversários a interpretar sinais em vez de políticas.

As forças dos EUA gastaram 11.294 munições nos primeiros dezasseis dias da guerra com o Irão, reduzindo reservas de mísseis Tomahawk, interceptores Patriot e novos mísseis de precisão do Exército. Repor sistemas complexos como estes demora anos, não meses, o que limita a capacidade de responder a mais do que uma frente em simultâneo. O pacote de 11 mil milhões de dólares em armamento para Taiwan, aprovado em dezembro de 2025 e que inclui sistemas HIMARS e mísseis anticarro, já foi entregue. Um segundo pacote, de 14 mil milhões, está pausado desde maio — decisão do secretário da Marinha em exercício, Hung Cao, para preservar reservas destinadas ao Irão — e aguarda agora decisão do secretário da Guerra, Hegseth, e de Rubio. O Japão enfrenta uma situação semelhante: segundo o Financial Times, as entregas de mísseis Tomahawk já encomendados podem atrasar até dois anos. Nem todos leem esta pausa da mesma forma: Rupert Hammond-Chambers, presidente do US-Taiwan Business Council, notou que o conflito com o Irão dificilmente afetaria pacotes já aprovados pelo Congresso — o que deixa em aberto se o atraso do pacote de 14 mil milhões, ainda em negociação e não formalmente aprovado, se deve à guerra, a um cálculo político, ou às duas coisas.

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Pequim tem explorado esta incerteza de forma direta: fez da redução das entregas de armas a Taiwan uma pré-condição para a continuação de conversas com Washington.

Do lado taiwanês, o Ministério da Defesa confirmou a entrega acelerada de 291 drones de vigilância Anduril Altius-600M. Estes sistemas inserem-se na chamada “estratégia porco-espinho”: em vez de concentrar recursos num número reduzido de sistemas pesados e caros — mais fáceis de localizar e destruir logo no início de um conflito —, a doutrina distribui capacidades móveis e baratas por muitos pontos diferentes. O modelo é inspirado na forma como a Ucrânia resistiu à invasão russa, e pensado para tornar uma operação anfíbia chinesa mais lenta e mais cara. As forças armadas taiwanesas planeiam avançar estes sistemas, junto com novas unidades HIMARS, para as ilhas de Penghu e Dongyin, na tentativa de criar uma zona-tampão marítima.

O Kuomintang, na oposição, defende uma postura de defesa simétrica, com maior investimento em artilharia pesada; o Partido Democrático Progressista, no poder, tem privilegiado os sistemas distribuídos e de baixo custo. Esta divergência marcou também a negociação orçamental: o parlamento aprovou em maio um orçamento especial de Defesa de 780 mil milhões de novos dólares taiwaneses, bem abaixo dos 1,25 biliões inicialmente propostos pelo governo — uma diferença que atrasa a aquisição de sistemas mais pesados, como novas unidades HIMARS, independentemente da doutrina que acabe por prevalecer.

Ao nível industrial e institucional: a Alemanha e o Reino Unido contribuíram para o primeiro submarino de construção doméstica de Taiwan; a Polónia e a Ucrânia preparam cooperação em veículos aéreos não tripulados; a certificadora alemã DEKRA presta apoio técnico ao centro de tecnologias de telecomunicações taiwanês, incluindo em cibersegurança de drones; e, em 2025, quatro fabricantes alemães de defesa marcaram presença pela primeira vez na feira de defesa de Taipé.

Ao nível comercial: as exportações taiwanesas de drones completos para a Europa cresceram de 2.574 unidades em 2024 para 107.433 em 2025 — mais de quarenta vezes num ano —, com a Polónia e a República Checa como principais destinos, possivelmente como ponto de trânsito para a Ucrânia. Só no primeiro trimestre de 2026, as exportações somaram 136.010 unidades, mais do que a totalidade do ano anterior. O Parlamento Europeu pediu, no início do ano, mais cooperação de segurança e defesa com parceiros do Indo-Pacífico, incluindo Taiwan, com foco declarado em integração de drones e guerra híbrida.

Em abril de 2026, a China proibiu exportações de bens de dupla utilização — tecnologia com aplicação tanto civil como militar — para sete entidades europeias, incluindo a alemã Hensoldt, citando explicitamente a cooperação dessas empresas com Taiwan. A União Europeia, do seu lado, já declarou ter interesse explícito em preservar o status quo no estreito de Taiwan, ligando a estabilidade da região à segurança do fornecimento global de semicondutores avançados, dos quais depende também a indústria europeia.

O resultado, à data, é uma rede de compromissos parciais e não totalmente alinhados entre si: Washington mantém a ambiguidade estratégica sobre Taiwan sem a resolver publicamente, dividido entre vozes distintas dentro da mesma administração e limitado por reservas militares reduzidas por outra guerra; Taiwan acelera a aquisição de sistemas de defesa que nem todos os seus partidos apoiam da mesma forma, com um orçamento aprovado abaixo do inicialmente pedido; e a Europa aprofunda, sobretudo por via comercial e industrial, uma cooperação com Taiwan que ainda não tem uma política comum consolidada a sustentá-la, nem uma resposta coordenada à retaliação chinesa já em curso.

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