O Que Resta da Segurança Europeia sem os Estados Unidos

Uma retirada norte-americana não deixaria a Europa sem exércitos, navios, aviões ou armas nucleares. Retiraria, antes de mais, a estrutura que hoje permite decidir, articular e sustentar esses meios durante uma guerra

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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ANÁLISE · Geopolítica e Poder · Europa / NATO / Estados Unidos · Defesa europeia e dependência estratégica

O primeiro obstáculo não seria a falta de soldados.

Também não seria necessário descobrir se existem aviões, navios, submarinos, mísseis ou fábricas no continente. Esses meios existem, estão distribuídos por dezenas de forças armadas e custam já centenas de milhares de milhões de euros por ano.

O Que Resta da Segurança Europeia sem os Estados Unidos

A primeira dúvida seria outra: quem decide?

Perante um ataque no flanco leste, que autoridade ordenaria o reforço imediato dos países bálticos? Quem determinaria as esquadras aéreas a deslocar, os portos prioritários, os stocks de intercetores a consumir primeiro e as forças que permaneceriam disponíveis para o Mediterrâneo ou para o Atlântico?

Hoje, essas decisões são preparadas dentro de uma estrutura militar em que os Estados Unidos ocupam o centro estratégico. Os governos europeus conservam o controlo político das suas forças, mas operam através de planos, comandos, redes de informação e meios comuns organizados em torno da NATO e do poder norte-americano.

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Esta dependência institucional, industrial e operacional está reunida no dossiê do Arcana News sobre defesa europeia e dependência estratégica.

Retirar Washington não faria desaparecer os exércitos europeus. Alteraria a relação que permite empregá-los como força coletiva.

É nessa diferença que se encontra a resposta.

O essencial deste artigo

  • Uma retirada norte-americana não deixaria a Europa sem forças militares, indústria ou armas nucleares.
  • A principal perda seria o sistema de comando, inteligência, logística e dissuasão que articula as forças nacionais.
  • A França, o Reino Unido, a Noruega, a Turquia e a Ucrânia seriam essenciais, embora não pertençam todos à União Europeia.
  • O maior risco estaria no intervalo entre a redução do apoio dos Estados Unidos e a entrada em funcionamento das alternativas europeias.

A segurança europeia sem os Estados Unidos não exigiria o fim da NATO

Uma Europa sem os Estados Unidos não exige o fim da NATO nem a saída formal de Washington da Aliança.

A organização poderia manter o nome, os tratados, os quartéis-generais e o artigo 5.º. As bandeiras continuariam hasteadas em Mons, Brunssum, Nápoles, Norfolk, Ramstein, Northwood e Izmir.

A mudança decisiva poderia ocorrer sem uma denúncia formal do Tratado do Atlântico Norte.

Os Estados Unidos poderiam reduzir as tropas, limitar o acesso a informação, retirar sistemas de defesa aérea, diminuir o transporte estratégico, deixar de garantir a dissuasão nuclear ou reservar determinados meios para outras regiões.

A NATO sobreviveria institucionalmente. A execução dos seus planos passaria a depender de recursos diferentes e, em vários domínios, mais escassos.

Para efeitos desta análise, «sem os Estados Unidos» significa a retirada da garantia estratégica norte-americana, das principais forças destacadas e dos meios operacionais disponibilizados por Washington à defesa europeia.

O Canadá poderia permanecer na Aliança e participar em programas comuns. Não será, contudo, contabilizado como capacidade europeia autónoma. A questão é saber o que os países do continente conseguiriam organizar e sustentar sem o garante norte-americano.

Não existe uma única Europa militar

A resposta muda consoante a fronteira escolhida.

Uma defesa organizada apenas pelos 27 Estados da União Europeia excluiria países indispensáveis à segurança do continente.

O Reino Unido possui armas nucleares, submarinos, aviação de combate, forças oceânicas e uma posição central no Atlântico Norte. A Noruega liga o Ártico, o Mar de Barents, as rotas marítimas do norte e uma parte importante das infraestruturas energéticas europeias. A Turquia controla os estreitos entre o Mediterrâneo e o Mar Negro e possui uma das maiores forças armadas da NATO.

Nenhum destes países pertence à União Europeia.

Uma defesa limitada às instituições da UE seria, por isso, mais estreita do que a geografia militar necessária para proteger o continente.

A Ucrânia tornaria essa definição ainda mais complexa.

O país possui a maior força europeia com experiência continuada de guerra terrestre de alta intensidade. As suas tropas conhecem o emprego massivo de drones, a dispersão logística, a defesa de posições sob bombardeamento e a adaptação rápida de equipamentos. A indústria ucraniana aprendeu a produzir, reparar e modificar sistemas enquanto fábricas e redes energéticas eram atacadas.

A Comissão Europeia já considera que a prontidão militar do continente deverá incluir as necessidades operacionais e a capacidade industrial ucranianas.

Uma defesa credível teria, portanto, de reunir Estados da União, países europeus exteriores à UE e, de alguma forma, a Ucrânia.

Essa coligação disporia de recursos importantes. Ficaria, porém, por resolver quem teria legitimidade para tomar decisões em nome do conjunto.

Os europeus já pagam; continuam a comprar separadamente

Os Estados da União Europeia gastaram 418 mil milhões de euros em defesa em 2025. A Agência Europeia de Defesa prevê que a despesa chegue aos 454 mil milhões em 2026. Vinte e três Estados-membros ultrapassaram os 2% do produto interno bruto, e as compras de equipamento atingiram 115 mil milhões de euros.

O volume financeiro já não permite explicar a dependência europeia apenas pela falta de despesa.

Importa observar a forma como o dinheiro é utilizado.

Em 2025, só 24% da aquisição de equipamento foi realizada de forma colaborativa. O valor ficou abaixo do referencial coletivo de 35% e da ambição política de organizar pelo menos 40% das compras em conjunto até ao final de 2027.

A maior parte dos contratos continua a ser celebrada por governos nacionais.

Cada país decide o modelo, a quantidade, a configuração, o calendário e o fornecedor. Os Sistemas aparentemente semelhantes podem exigir munições, manutenção, software, formação e peças diferentes.

Dois Estados podem adquirir aviões da mesma família e não conseguir trocar imediatamente todos os armamentos ou componentes. Podem possuir brigadas declaradas à NATO sem disporem dos mesmos transportes, reservas ou meios de defesa aérea. Podem encomendar equipamentos em momentos diferentes e receber as entregas com anos de intervalo.

O aumento da despesa melhora determinadas forças nacionais, mas a fragmentação entre elas não desaparece.

Os Estados Unidos compensam uma parte dessa dispersão através do planeamento comum, das normas, dos meios estratégicos e de uma cadeia de comando capaz de organizar forças nacionais para uma missão coletiva.

Sem esse apoio central, os governos europeus teriam de converter dezenas de orçamentos em prioridades partilhadas.

Isso implica definir que país produz cada sistema, quem mantém reservas disponíveis para os restantes e que força recebe precedência quando os recursos não chegam para todos.

A questão financeira acabaria por conduzir às questões da autoridade, do risco e do controlo.

O comandante que representa um país e uma Aliança

A NATO concentra essa autoridade militar no SACEUR, o Comandante Supremo Aliado na Europa.

O cargo é exercido por um general norte-americano que acumula a chefia do Comando Europeu dos Estados Unidos. O mesmo oficial dirige as operações da Aliança e representa, simultaneamente, a estrutura militar norte-americana no continente.

A ligação permite à defesa europeia aceder ao poder de planeamento, às forças e aos recursos estratégicos dos Estados Unidos sem que exista um Estado europeu capaz de desempenhar a mesma função.

A 6 de fevereiro de 2026, a NATO anunciou uma redistribuição relevante das suas chefias militares.

O Reino Unido deverá assumir o Comando Conjunto de Norfolk. A Itália ficará responsável pelo de Nápoles. A Alemanha e a Polónia partilharão, por rotação, o comando de Brunssum. Os três principais comandos conjuntos serão, assim, dirigidos por europeus.

Os Estados Unidos conservarão o SACEUR e passarão a dirigir os comandos de componente terrestre, aéreo e marítimo.

A alteração transfere a responsabilidade operacional, mantendo Washington no centro estratégico.

Uma retração norte-americana obrigaria a escolher um novo SACEUR e a redefinir a relação entre comando militar e decisão política.

Um oficial francês, britânico, alemão ou polaco poderia ocupar o cargo. A competência técnica não seria a principal dificuldade. O alcance da autoridade concedida ao comandante seria muito mais controverso.

Que governo aceitaria colocar as suas forças sob ordens tomadas contra a sua vontade? O Reino Unido submeteria as principais unidades navais a uma direção política dominada pela União Europeia? A França integraria plenamente a sua dissuasão numa cadeia coletiva? A Turquia aceitaria uma organização estruturada por instituições europeias das quais não faz parte?

Os quartéis-generais, os procedimentos e as redes da NATO permaneceriam disponíveis. A base política que lhes confere autoridade teria de ser reconstruída.

Além do oficial que ocupa o posto superior, os Estados Unidos fornecem a dimensão necessária para pressionar aliados, preencher lacunas e assumir uma parte desproporcionada do risco.

Na ausência desse peso, muitas decisões preparadas hoje dentro de uma cadeia comum regressariam às capitais.

A Europa conservaria as armas nucleares

A retirada norte-americana não eliminaria a dissuasão nuclear europeia.

O Reino Unido mantém uma força submarina em patrulha contínua. Apenas o primeiro-ministro pode autorizar o seu emprego, e Londres considera a dissuasão operacionalmente independente e atribuída à defesa dos aliados da NATO.

A decisão é britânica. A cadeia tecnológica não é inteiramente nacional.

Os mísseis Trident são fabricados nos Estados Unidos e retirados de um conjunto de ativos partilhado ao abrigo da cooperação bilateral. O desenvolvimento da futura ogiva britânica mantém igualmente uma ligação à compatibilidade com o sistema norte-americano.

A França possui uma dissuasão própria, com componentes submarina e aérea, uma cadeia nacional de decisão e maior autonomia industrial.

Em março de 2026, Paris apresentou uma evolução para uma «dissuasão avançada», reforçando a dimensão europeia da postura francesa.

A França e o Reino Unido continuariam capazes de causar danos intoleráveis a um agressor. A existência de dois centros europeus independentes de decisão aumentaria a incerteza em qualquer cálculo adversário.

Não existe, porém, uma garantia continental comum.

A NATO continua a declarar que as forças estratégicas dos Estados Unidos constituem a garantia suprema da segurança aliada. A postura nuclear coletiva depende ainda das armas norte-americanas destacadas na Europa e das forças nacionais preparadas para participar na missão nuclear.

Londres e Paris teriam de esclarecer se protegeriam explicitamente todos os aliados e em que circunstâncias.

Seria necessário definir quem participa no planeamento, como se financiam as forças, que bases podem ser utilizadas e de que modo a dissuasão nuclear se articula com a defesa convencional.

As armas permaneceriam disponíveis. A doutrina comum ainda teria de ser construída.

Uma força pode conservar as armas e perder a imagem da guerra

A dependência norte-americana é menos visível quando não está associada a um sistema de armas específico.

As forças europeias precisam de satélites, sensores, comunicações, posicionamento, navegação, alerta de mísseis e transmissão segura de dados para utilizar os meios que já possuem.

A NATO reconhece o espaço como domínio operacional. Comunicações militares, inteligência, comando, navegação e alerta precoce dependem de serviços espaciais.

A Aliança não opera uma constelação integral própria. Recorre a sistemas disponibilizados pelos aliados e por empresas comerciais. França, Itália, Reino Unido e Estados Unidos fornecem, entre outros, serviços de comunicações por satélite através de um acordo válido até 2034.

A Europa dispõe de uma base própria relevante.

A França, a Alemanha, a Itália, a Espanha e outros países possuem satélites de observação ou comunicações. O Galileo fornece uma base europeia de navegação e posicionamento. Existem programas nacionais de imagem, transmissão segura e apoio às operações.

O número de satélites, por si só, não resolve a necessidade militar.

A informação recolhida precisa de ser analisada, combinada com outras fontes, classificada e entregue ao comando certo antes de perder valor operacional.

Vários Estados podem observar a mesma região e manter restrições diferentes sobre o uso ou a divulgação dos dados. Um sensor nacional não produz automaticamente uma imagem partilhada do campo de batalha.

A NATO dispõe de mecanismos permanentes de inteligência, vigilância e reconhecimento destinados a fundir informação proveniente de diferentes domínios. Essa integração depende de redes técnicas, procedimentos, confiança e hábitos de cooperação acumulados durante décadas.

A União Europeia lançou o European Space Shield para coordenar e proteger capacidades espaciais destinadas à defesa. O seu desenvolvimento está previsto até 2030.

O calendário indica que a resposta europeia permanece incompleta.

Numa retração norte-americana, os satélites europeus continuariam em órbita. A cobertura, o alerta e a integração proporcionados pela rede transatlântica seriam menores.

As forças poderiam manter as armas e receber menos informação sobre o momento e o local em que deveriam empregá-las.

Os meios comuns existem, mas não têm todos a mesma autonomia

A NATO possui recursos que não pertencem exclusivamente a um único Estado.

A frota AWACS inclui 14 aviões Boeing E-3A baseados na Alemanha. As aeronaves fornecem vigilância, alerta e comando aéreo, permitindo acompanhar a atividade no céu e no mar.

Em julho de 2026, onze aliados anunciaram a aquisição conjunta de até dez Saab GlobalEye para substituir parte da frota. A implantação industrial europeia da empresa inclui também a cooperação da Saab com a OGMA e a Critical Software em Portugal, no âmbito do programa Gripen.

A escolha de uma plataforma sueca reduz a dependência industrial norte-americana. A substituição demorará anos, e os E-3A atuais permanecem ligados a tecnologia, manutenção e participação dos Estados Unidos.

A NATO opera também cinco aeronaves não tripuladas RQ-4D Phoenix. A Dinamarca, a Finlândia, a Alemanha e a Noruega anunciaram, em 2026, a compra de até cinco MQ-4C Triton para reforçar a vigilância de longa duração.

Os países europeus pagarão, tripularão e utilizarão esses sistemas. As plataformas e partes da cadeia de apoio são norte-americanas.

No reabastecimento em voo, o grau de autonomia é diferente.

Nove aliados europeus participam na frota multinacional de Airbus A330 MRTT. O programa atingiu a capacidade operacional plena em março de 2026, contava com nove aparelhos em serviço, recebeu o décimo e deverá chegar a doze até 2029.

Os aviões são produzidos pela Airbus, financiados por países europeus e operados de forma multinacional. Trata-se de uma estrutura predominantemente europeia.

A quantidade continua modesta para um continente que teria de abastecer aviões, transportar carga e evacuar feridos em várias frentes.

No transporte estratégico pesado, doze países partilham três C-17 estacionados na Hungria. Os Estados Unidos participam no programa, e a manutenção depende de uma cadeia norte-americana.

As frotas europeias de A400M, C-130 e outros aparelhos permitiriam deslocar tropas e equipamento. Teriam menor margem para sustentar, em simultâneo, reforços no Báltico, operações no Atlântico, missões no Mediterrâneo e apoio à Ucrânia.

Os programas multinacionais demonstram experiência europeia na operação de meios comuns. O seu grau de autonomia industrial e logística varia de caso para caso.

A defesa aérea obrigaria a escolher

Os Estados europeus possuem caças modernos, redes de radar e sistemas terrestres de defesa aérea.

Dispõem de SAMP/T, IRIS-T, Patriot adquiridos nacionalmente e outros meios capazes de proteger forças, cidades ou instalações críticas.

A dificuldade aumenta quando é necessário cobrir todo o continente durante uma campanha prolongada.

A Comissão Europeia identifica a defesa aérea e antimíssil como uma das lacunas prioritárias. O European Air Shield deverá enfrentar aeronaves, drones e mísseis, mantendo a interoperabilidade com a cadeia de comando e controlo da NATO.

O projeto europeu está a ser concebido dentro de uma estrutura que ainda inclui os Estados Unidos.

Uma vaga prolongada de drones, mísseis de cruzeiro, armamento balístico e aeronaves obrigaria a distribuir os intercetores disponíveis.

Capitais, portos, centrais elétricas, instalações nucleares, caminhos de ferro, aeródromos, quartéis-generais, fábricas e unidades em movimento não poderiam receber todos o mesmo nível de proteção.

As prioridades teriam de ser definidas.

Os Estados Unidos contribuem com sensores, intercetores, sistemas de comando e meios de ataque de longo alcance capazes de destruir parte da ameaça antes de ela chegar ao território europeu.

A redução dessa contribuição não deixaria o céu europeu sem defesa. Tornaria mais difícil manter, durante semanas ou meses, uma cobertura que ultrapassasse os alvos considerados essenciais.

O Atlântico voltaria a ser um problema europeu

O Comando Conjunto de Norfolk foi criado para acompanhar o Atlântico e proteger as linhas de comunicação entre a América do Norte e a Europa.

A transferência do comando para o Reino Unido aumenta a responsabilidade europeia sobre esse espaço. O Comando Marítimo Aliado já está instalado em Northwood e coordena missões relacionadas com a navegação, as forças navais e as infraestruturas submarinas.

A retração norte-americana não reduziria a área a proteger.

Os submarinos russos continuariam a operar no Ártico e no Atlântico Norte. Cabos de comunicações, gasodutos, interligações elétricas e rotas comerciais permaneceriam expostos. A NATO criou um centro marítimo e uma rede destinada a melhorar a segurança das infraestruturas submarinas críticas.

A Europa possui forças capazes de atuar no mar.

O Reino Unido e a França operam submarinos nucleares de ataque e forças oceânicas. A Noruega, a Alemanha, a Itália, a Espanha, os Países Baixos, a Suécia e outros países dispõem de submarinos convencionais, fragatas, aeronaves de patrulha e meios de guerra de minas.

Portugal ocupa uma posição importante nas rotas atlânticas e utiliza submarinos em missões de vigilância, reconhecimento e guerra antissubmarina.

A principal limitação está na quantidade disponível.

A guerra antissubmarina exige navios, aeronaves, sonares, satélites, informação acústica e tripulações especializadas. As infraestruturas submarinas estendem-se por milhares de quilómetros. Nenhuma marinha consegue proteger permanentemente cada cabo ou gasoduto.

O Reino Unido, a França e a Noruega teriam de assumir uma parte maior da vigilância do Atlântico Norte. Os países nórdicos e bálticos concentrar-se-iam no Báltico e no Ártico. A Turquia assumiria maior responsabilidade no Mediterrâneo e no acesso ao Mar Negro.

Essa distribuição é possível, mas a escala atual das frotas obrigaria a aceitar riscos maiores em algumas áreas.

A indústria não acompanha a velocidade de uma decisão política

A União Europeia pretende preencher as principais lacunas militares até 2030.

O roteiro inclui defesa aérea, sistemas contra drones, vigilância do flanco leste, proteção espacial, mobilidade militar e expansão industrial. Projetos, contratos e financiamento deverão ser preparados antes do final da década.

O plano representa uma mudança face ao período anterior a 2022.

Confirma também que parte dos meios necessários ainda não existe em quantidade suficiente.

Uma fábrica de mísseis, radares ou aeronaves não aumenta a produção apenas porque um governo anuncia uma nova meta orçamental.

É necessário construir instalações, contratar trabalhadores, certificar fornecedores, garantir matérias-primas e assinar encomendas suficientemente longas para justificar o investimento.

Durante décadas, os Estados europeus compraram séries curtas, modelos diferentes e quantidades reduzidas. A indústria foi organizada para responder a esse mercado.

A Agência Europeia de Defesa está a reforçar a contratação conjunta e a preparar uma estrutura capaz de gerir várias aquisições colaborativas.

Os resultados aparecerão ao longo de vários anos.

A relação transatlântica pode mudar antes de uma linha de produção atingir a escala prevista.

É neste desfasamento que se concentra o risco da transição: os projetos destinados a reduzir a dependência continuam, durante a sua execução, protegidos por vários dos meios norte-americanos que procuram substituir.

A Ucrânia não seria apenas beneficiária

A integração da Ucrânia alteraria a relação entre as forças europeias, a indústria e a experiência operacional.

As empresas ucranianas desenvolveram drones, sistemas eletrónicos, adaptações de munições e ciclos rápidos de produção. As forças armadas acumularam uma experiência que a maioria dos exércitos europeus não possui.

A Comissão pretende incorporar essas soluções nas coligações de capacidade e na estratégia industrial europeia.

A Ucrânia acrescentaria massa terrestre, conhecimento da doutrina russa e capacidade de inovação.

Continuaria também dependente de munições, comunicações, defesa aérea, manutenção e apoio financeiro.

A integração não eliminaria as lacunas europeias em satélites, transporte, reabastecimento ou dissuasão nuclear. Poderia ainda criar competição entre o abastecimento da frente ucraniana e a reposição dos arsenais dos aliados.

Excluir Kiev deixaria de fora a força europeia mais experimentada perante a ameaça que o continente procura dissuadir. Integrá-la significaria assumir necessidades e riscos adicionais.

O tempo alteraria o resultado

Uma retirada norte-americana poderia assumir formas muito diferentes.

Numa retração gradual ao longo de cinco ou dez anos, Washington manteria a NATO, a cooperação industrial, a partilha de informação e parte da garantia nuclear enquanto os europeus transferissem comandos, aumentassem a produção e adquirissem meios estratégicos.

Os calendários europeus de 2027, 2030 e anos seguintes parecem pressupor uma transição desta natureza.

Numa retirada operacional rápida, os Estados Unidos poderiam permanecer formalmente na Aliança e reduzir forças, munições, inteligência, transporte, defesa aérea e apoio logístico.

A NATO continuaria a existir, mas os mesmos planos teriam de ser executados com menos recursos.

Numa rutura política, Washington deixaria de considerar automática a defesa da Europa, retiraria a garantia nuclear e limitaria o acesso a sistemas, dados ou infraestruturas.

Nesse cenário, os europeus estariam a criar uma nova ordem de segurança já sob pressão.

A quantidade de tempo disponível separaria uma transição difícil de uma falha operacional imediata.

A Europa não desapareceria; o intervalo seria o perigo

A Europa manteria forças terrestres numerosas, aviação de combate, marinhas capazes, duas potências nucleares e uma economia com recursos para financiar um rearmamento prolongado.

Conservaria quartéis-generais, planos, normas e décadas de experiência de trabalho conjunto.

A defesa não desapareceria. O elemento mais difícil de substituir seria a ligação política e militar entre todas essas partes.

A garantia nuclear teria de ser redefinida. Os meios espaciais e de inteligência precisariam de maior integração. O transporte e o reabastecimento necessitariam de escala adicional. A defesa aérea obrigaria a estabelecer prioridades. As marinhas europeias teriam de cobrir áreas hoje reforçadas pela presença norte-americana. A indústria precisaria de anos.

A questão decisiva não é saber se o continente poderá reduzir essa dependência.

É saber o que acontece entre a retirada dos meios norte-americanos e a entrada em funcionamento das alternativas europeias.

A distribuição de comandos anunciada pela NATO em fevereiro de 2026 expõe esse intervalo.

Os europeus assumirão Norfolk, Nápoles e Brunssum. Os Estados Unidos continuarão a ocupar o cargo de SACEUR e a dirigir os comandos terrestre, aéreo e marítimo.

A responsabilidade europeia está a aumentar, mas a duração da transição continua dependente das decisões tomadas em Washington.

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